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Início > Saúde da Saúde > Bem-Estar > Como dormir melhor durante a internação: 4 atitudes ao alcance do paciente

Como dormir melhor durante a internação: 4 atitudes ao alcance do paciente

  • 5 de agosto de 2026

Ruído, luz artificial, exames noturnos e ansiedade podem afetar o descanso de quem está internado. Conheça estratégias para reduzir essas interferências e dormir melhor durante o tratamento.

Aferição de sinais vitais, coleta de exames, administração de medicamentos e a própria estrutura do quarto ou da enfermaria podem interferir na qualidade do sono — afinal, a internação reorganiza a rotina do corpo em torno de horários que nem sempre são os do paciente.

Por que o sono é pior durante a internação?

Uma revisão publicada na revista científica Clocks & Sleep reuniu evidências de que pacientes internados dormem significativamente menos do que em casa e têm o sono fragmentado por despertares frequentes ao longo da noite.

É essa mesma fragmentação que a médica intensivista Laura Drehmer Jesinski, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, observa na prática. “Ela ocorre tanto pela própria doença — dor, falta de ar, febre, ansiedade — quanto pelo ambiente hospitalar, com alarmes, iluminação, conversas, coletas de sangue, administração de medicamentos e verificações frequentes”, detalha.

Um efeito comum é a perda da própria referência entre dia e noite. O paciente cochila em pequenos períodos ao longo das 24 horas e, ainda assim, relata a sensação de ter passado a noite inteira acordado.

“É frequente observarmos pacientes que passam duas ou três noites com muitas interrupções e, progressivamente, ficam mais ansiosos, irritados e desorientados. Em alguns casos, o paciente começa a confundir os horários, acredita que está em outro lugar ou tenta sair do leito durante a madrugada”, continua.

O hospital pode fazer algo pelo sono do paciente?

Quando a equipe do hospital consegue reorganizar os cuidados noturnos e reduzir luz e ruído, muitas vezes é possível perceber melhora do comportamento e da orientação nos dias seguintes.

Mas nem sempre só isso resolve: “Dor, infecção, medicamentos, alterações metabólicas e a própria doença também podem provocar manifestações semelhantes. Por isso, a equipe precisa avaliar o conjunto da situação“, pondera. 

A partir dessas observações, Jesinski conduziu, com apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um estudo comparando pacientes de duas UTIs brasileiras antes e depois da implantação de um protocolo multidisciplinar de sono, que contou com:

  • ajustes nos horários de banho, alimentação, medicação e coleta de exames;
  • uso de máscaras de dormir e protetores auriculares; e
  • controle do volume dos alarmes dos leitos. 

“Na prática, a principal mudança percebida foi cultural: a equipe passou a considerar o sono como parte do tratamento. Houve maior atenção ao horário das intervenções, à necessidade real de determinadas interrupções e à redução de luzes, ruídos e circulação durante a noite”, diz a médica.

Essa mudança de cultura dentro da equipe abre espaço para uma participação mais ativa do paciente. O Estatuto dos Direitos do Paciente formaliza esse papel ao garantir, entre outros pontos, o direito à informação clara e à participação ativa nas decisões sobre o próprio tratamento.

A seguir, reunimos quatro atitudes que podem ajudar os pacientes internados a descansar mais e melhor.

1. Peça à equipe para ajustar horários

É claro que nem toda interrupção noturna pode ser evitada. Medicações com horário rigoroso, antibióticos, avaliações neurológicas, controles de glicose, sinais vitais e exames necessários para decisões imediatas devem ser mantidos.

Mas Jesinski aponta uma margem real de ajuste no restante da rotina: “A pergunta mais adequada não é ‘vocês podem deixar de fazer?’, mas sim ‘isso precisa ser feito exatamente neste horário ou pode ser reorganizado com segurança?'”.

Na prática, é possível perguntar à equipe:

  • cuidados não urgentes podem ser agrupados, evitando várias entradas separadas no quarto?
  • algum medicamento, banho, troca de roupa de cama ou coleta de rotina pode ser antecipado ou adiado em algumas horas?
  • é possível diminuir a iluminação, fechar a porta quando for seguro ou reduzir o volume de aparelhos que não estão em uso?
  • é possível controlar a dor antecipadamente, antes que o desconforto se intensifique e comprometa o sono?

Essa conversa pode acontecer ainda durante o dia, quando há mais tempo para alinhar os cuidados e planejar a rotina da noite. “O paciente pode explicar quais fatores costumam atrapalhar seu sono, quais horários utiliza em casa, se faz uso habitual de algum medicamento e se sente dor, ansiedade, frio, calor ou dificuldade para encontrar uma posição confortável“, orienta Jesinski. 

2. Leve um “kit de sono” para a internação

Reunir um pequeno “kit de sono” antes da internação pode ajudar a reduzir a interferência de luz e ruído no quarto. São itens simples, mas que podem contribuir para um ambiente mais favorável ao descanso. Veja o que considerar:

  • máscara de dormir: item de baixo custo e fácil acesso em farmácias que bloqueia a luz do ambiente. É especialmente útil em quartos compartilhados ou próximos a postos de enfermagem. Segundo o portal Sleep Education, mantido pela American Academy of Sleep Medicine (AASM), é um dos recursos simples que podem ajudar a melhorar o sono no hospital. 
  • protetor auricular: reduz a interferência do som ambiente, como alarmes, conversas e movimentação noturna, pela mesma lógica da máscara de dormir. É outro item de baixo custo recomendado pela AASM para pacientes internados.
  • fones de ouvido: usados para assistir a streamings, atender ligações ou ouvir música, evitam que esse som atrapalhe o sono de quem divide o quarto, sem abrir mão de manter contato com notícias de casa ou conteúdos do seu interesse.

3. Preserve o ritmo do dia para ajudar no sono da noite

De acordo com a Sleep Health Foundation, organização australiana de referência em saúde do sono, manter contato com a luz natural durante o dia, com cortinas e persianas abertas pela manhã, ajuda o corpo a preservar o relógio biológico mesmo em um ambiente hospitalar.

Levantar-se e caminhar pelo corredor, quando a condição clínica permite, e evitar cochilos longos no fim da tarde também podem favorecer um sono mais consolidado à noite.

Jesinski ainda destaca a importância de estimular atividades compatíveis com a condição do paciente, como sentar fora do leito, fazer fisioterapia, conversar, ouvir música ou assistir a algo de seu interesse — melhor ainda se puder contar com a participação da família.

“Os parentes e acompanhantes podem ajudar trazendo referências de tempo e rotina: dizer a data, o horário, o que está acontecendo fora do hospital e conversar sobre assuntos familiares“, diz. 

À noite, vale reduzir os estímulos: manter a iluminação mais baixa, falar em tom mais baixo e evitar conversas longas ou que possam gerar ansiedade perto do horário de dormir.

4. Fique atento aos sinais de ansiedade ao dormir no hospital

Além de todos os fatores do ambiente, a preocupação com o próprio quadro de saúde ou com quem ficou em casa, é outra razão importante para a dificuldade de dormir durante uma internação.

“O paciente está em um ambiente desconhecido, teme os resultados dos exames, pode sentir falta da família e não sabe exatamente o que acontecerá no dia seguinte. Mesmo quando o corpo está cansado, a mente permanece em estado de alerta“, descreve Jesinski. 

Na experiência da médica, o que mais ajuda é receber informação clara e previsível por parte da equipe. Explicar o plano de tratamento, dizer quais intervenções são esperadas durante a noite e antecipar o que deve acontecer no dia seguinte reduz a sensação de perda de controle.

Manejo adequado da dor e de outros sintomas, acolhimento psicológico, presença familiar organizada, técnicas de respiração, música e um ambiente mais silencioso completam esse quadro.

A Sleep Health Foundation recomenda ainda um exercício complementar: reservar um momento do dia, fora do horário de dormir, para anotar as preocupações e definir o que pode ser conversado com a equipe no dia seguinte. A ideia é evitar que elas ocupem a mente justamente na hora de descansar. 

E depois da alta, como retomar a rotina de sono?

Após sair da internação, Jesinski orienta os pacientes a retomarem gradualmente uma rotina regular. “Acordar e deitar em horários semelhantes, buscar luz natural pela manhã, realizar atividade física conforme liberação médica e evitar permanecer longos períodos na cama durante o dia“, orienta.

Ela recomenda também reduzir a cafeína no fim da tarde e à noite, evitar telas perto do horário de dormir e manter um ambiente escuro, silencioso e confortável.

Mesmo assim, nem sempre o sono se normaliza de imediato. Segundo a médica, depois de uma internação grave pode haver ansiedade, pesadelos, lembranças fragmentadas ou medo de voltar a adoecer, e isso também faz parte do processo.

“Caso a insônia persista, cause sofrimento importante ou venha acompanhada de ansiedade intensa, tristeza, pesadelos recorrentes ou prejuízo nas atividades diárias, o paciente deve procurar avaliação médica“, afirma, reforçando que não é aconselhável iniciar ou aumentar medicamentos para dormir por conta própria.

Para saber mais

Confira outros conteúdos relacionados publicados no blog Saúde da Saúde:

  • Estudo do Hospital Moinhos de Vento propõe protocolo para melhorar a qualidade do sono em pacientes de UTI – Anahp
  • Estatuto dos Direitos do Paciente: o que muda na prática? – Anahp Saúde da Saúde

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