Da chegada à emergência aos possíveis encaminhamentos, entenda como funciona o cuidado hospitalar diante de sintomas de saúde mental.

Problemas de saúde mental também podem levar uma pessoa ao hospital. E os números mostram que isso tem acontecido com mais frequência.
Entre beneficiários de planos de saúde, as internações por transtornos de ansiedade passaram de 2.027, em 2015, para 6.084, em 2024, segundo estudo publicado em 2026 pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS).
Mas quando é hora de ir a uma emergência e como funciona o atendimento nesses casos? Para responder a essas e outras dúvidas, o Saúde da Saúde conversou com Gisele Dala Lana, coordenadora do Serviço de Psicologia Clínica do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), Unidade Uruguai, em Passo Fundo (RS).
Confira a seguir:
Posso procurar o hospital por ansiedade, depressão ou crise de pânico?
Nem todo momento de ansiedade ou tristeza exige uma ida à emergência. Há situações, porém, em que o sofrimento emocional precisa de atenção imediata.
Segundo o Ministério da Saúde, situações em que há risco de suicídio ou de agressão a si ou a outras pessoas precisam de atendimento de emergência.
O hospital também pode ser procurado quando surgem sintomas físicos e não é possível saber se eles estão relacionados ao estado emocional ou a outro problema de saúde.
Como o hospital diferencia sintomas físicos e emocionais?
Alguns sintomas podem gerar dúvida sobre sua origem, como:
- mal-estar;
- palpitação;
- sensação de sufocamento;
- dor ou desconforto no peito;
- falta de ar;
- tontura;
- tremores;
- alterações nos batimentos cardíacos ou na pressão.
Esses sinais podem estar relacionados tanto ao estado emocional quanto a algumas condições cardíacas, respiratórias ou metabólicas.
Para fazer essa diferenciação, o médico pode solicitar, quando necessário, exames laboratoriais ou de imagem para investigar possíveis causas físicas.
“O paciente sempre será considerado como um todo, do ponto de vista somático e psíquico”, afirma Dala Lana.
Ou seja, tanto a saúde física quanto a emocional são consideradas para tratar o paciente.
Quais são os sinais de ansiedade, depressão e crise de pânico?
Dala Lana aponta algumas características que podem aparecer em cada quadro.
Ansiedade: pode envolver uma tensão interna intensa, que deixa a pessoa inquieta e agitada, mesmo quando não consegue identificar exatamente o que está provocando aquela sensação. Em algumas situações, a ansiedade pode surgir diante de eventos como uma cirurgia ou outras situações que geram estresse emocional.
Depressão: tristeza profunda, desânimo, perda de interesse e falta de energia para atividades do dia a dia, como sair, trabalhar ou até cuidar de si. Ao contrário de uma tristeza passageira, essas manifestações costumam permanecer por mais tempo e não estão necessariamente relacionadas a um acontecimento imediato.
Crise de pânico: surge de forma súbita, independentemente do lugar ou da situação em que a pessoa se encontra. Além do mal-estar intenso, pode provocar sensação de perda de controle e medo de que algo muito grave aconteça, chegando a pensar que vai morrer.
“Antes de classificarmos o que uma pessoa apresenta, é necessário reconhecer que ela manifesta seu sofrimento psíquico da maneira que consegue”, diz a psicóloga.
Os sinais ajudam a perceber que algo não vai bem, mas o diagnóstico depende da avaliação de um profissional, que também considera a história de vida e o contexto familiar e social.
O que acontece quando chego à emergência com sintomas emocionais?
Na chegada à emergência, a equipe observa o estado físico e emocional do paciente para entender o quadro e identificar se há alguma situação que exige atenção imediata.
De acordo com Dala Lana, essa avaliação reúne informações como:
- sinais vitais;
- sintomas apresentados;
- histórico de saúde;
- medicamentos em uso;
- uso de álcool ou outras drogas;
- crises anteriores;
- possíveis riscos de suicídio ou agressividade.
Com essas informações, o médico pode verificar se são necessários exames ou a participação de outros profissionais no atendimento.
Quem pode participar do atendimento?
Na emergência, médico e equipe de enfermagem participam dos primeiros cuidados. Quando necessário, o médico pode solicitar uma avaliação psicológica.
A partir dela, o psicólogo pode discutir o caso com a equipe e contribuir para definir os cuidados e encaminhamentos necessários.
Além do médico, psicólogo e equipe de enfermagem, Dala Lana cita a participação de fisioterapeuta e fonoaudiólogo.
“O atendimento pode envolver uma equipe multidisciplinar, de acordo com a necessidade do paciente”, afirma Dala Lana.
O hospital trata ansiedade, depressão e crise de pânico ou só encaminha?
Na emergência, a pessoa é avaliada e recebe os cuidados necessários para aquele momento.
“O hospital não é necessariamente o lugar destinado ao acompanhamento prolongado desses sofrimentos”, ressalta a coordenadora.
Quando é necessário continuar o tratamento após a alta, o paciente pode ser encaminhado para acompanhamento ou tratamento especializado em saúde mental.
Quando uma internação psiquiátrica pode ser necessária?
Nos casos mais graves, o caminho pode ser diferente. Segundo Dala Lana, a internação pode ser indicada quando a equipe que realizou o primeiro atendimento não consegue conduzir a crise com segurança.
Situações em que há risco à vida, como pensamentos de suicídio ou de agressão a si ou a outras pessoas, estão entre as que podem levar a essa recomendação. A existência de uma rede de apoio efetiva também é considerada na decisão.
Se o hospital não tiver estrutura para esse tipo de cuidado, o paciente pode ser encaminhado para uma instituição preparada para o atendimento em saúde mental.
O que é CAPS e quando o hospital pode encaminhar para lá?
CAPS é a sigla para Centro de Atenção Psicossocial. Esses centros fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial do SUS e oferecem cuidado em saúde mental para pessoas em sofrimento psíquico intenso, inclusive quando há problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas.
Após passar pelo hospital, o paciente pode ser encaminhado para um CAPS quando precisa continuar o cuidado psicológico ou psiquiátrico. Dala Lana lembra que esse pode ser um caminho para quem não tem condições de fazer esse acompanhamento na rede particular.
Ao chegar ao CAPS, a pessoa é acolhida pela equipe, que identifica suas necessidades e define com ela como será o acompanhamento.
O hospital, porém, não é a única forma de chegar ao CAPS. Segundo o Ministério da Saúde, os CAPS funcionam em regime de porta aberta: a pessoa pode procurar diretamente a unidade de sua região para o primeiro acolhimento, sem precisar marcar consulta.
Hospitais, UBS, UPAs e SAMU também podem fazer encaminhamentos.
Onde procurar ajuda em uma emergência de saúde mental?
Em casos de risco à vida, inclusive em emergências psiquiátricas, o SAMU pode ser acionado pelo número 192.
UPAs e prontos-socorros também fazem parte da rede de urgência e emergência e estão preparados para receber pessoas que precisam de atendimento imediato em saúde mental.
Assim, diante de uma situação que exige ajuda imediata, não é preciso procurar primeiro um serviço especializado em saúde mental para receber atendimento.
O cuidado com a saúde mental e a prevenção do suicídio não se limitam ao Setembro Amarelo.
Reconhecer quando é preciso pedir ajuda e saber onde buscar apoio pode fazer diferença em qualquer época do ano. Para quem está passando por uma situação difícil e precisa conversar, o CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Na rede pública, também é possível procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

