Acupuntura, musicoterapia e meditação estão entre as práticas incorporadas em hospitais para complementar o tratamento convencional. Entenda os benefícios e o que a ciência diz.

Conhecimentos e técnicas com origens em diferentes épocas e culturas hoje também estão presentes nos cuidados oferecidos em hospitais. São as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, as chamadas PICS.
Para entender como as PICS podem contribuir para o alívio da dor, a redução da ansiedade e o bem-estar geral dos pacientes, conversamos com Alice Rosa Ramos, médica fisiatra e superintendente de Práticas Assistenciais da AACD.
O que são as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS)?
Popularmente conhecidas como “terapias integrativas”, são recursos terapêuticos reconhecidos pelo Ministério da Saúde como complementos ao tratamento médico convencional — não substitutos.
“Enquanto o tratamento convencional geralmente foca somente na recuperação da doença, as PICS partem de uma visão integral, considerando corpo, mente, qualidade de vida e autonomia“, explica Ramos.
Ao todo, 29 práticas fazem parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Sistema Único de Saúde (SUS):
- acupuntura e outras práticas da medicina tradicional chinesa, aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo, assim como auriculoterapia (estímulos em pontos da orelha), moxabustão (uso de calor) e ventosaterapia (aplicação de ventosas sobre a pele);
- apiterapia, uso de produtos das abelhas, como mel e própolis;
- aromaterapia, uso de óleos essenciais;
- arteterapia, expressão por meio de pintura, dança e outras formas de arte;
- ayurveda, sistema tradicional indiano que reúne diferentes cuidados com a saúde;
- biodança, movimentos corporais realizados com música;
- bioenergética, exercícios e movimentos corporais associados às emoções;
- constelação familiar, abordagem das relações e vínculos familiares;
- cromoterapia, uso de luzes de diferentes cores, que podem ser direcionadas ao corpo ou projetadas em paredes e outras superfícies do ambiente;
- dança circular, dança coletiva realizada em roda;
- geoterapia, aplicação de argilas e outros elementos minerais sobre a pele, em diferentes regiões do corpo;
- hipnoterapia, utilização de técnicas de hipnose;
- homeopatia, abordagem que utiliza medicamentos preparados por meio de diluições sucessivas e agitação específica;
- imposição de mãos, posicionamento das mãos sobre ou próximas ao corpo com o objetivo de promover equilíbrio por meio da transferência de energia vital;
- medicina antroposófica, abordagem que considera a história de vida e diferentes aspectos do paciente e pode utilizar medicamentos, massagens, banhos terapêuticos e atividades artísticas;
- meditação, prática que utiliza técnicas de atenção e concentração, como o mindfulness (atenção plena), voltado à observação de pensamentos, emoções e sensações;
- musicoterapia, uso da música para trabalhar aspectos físicos, emocionais, cognitivos e sociais;
- naturopatia, baseada em ajudar o corpo a se regenerar com seus próprios mecanismos;
- osteopatia, técnicas manuais, como manipulações e alongamentos, aplicadas ao sistema musculoesquelético — músculos, ossos e articulações — para melhorar a mobilidade;
- ozonioterapia, aplicação de uma mistura de oxigênio e ozônio por diferentes vias, como diretamente na pele, na cavidade oral ou por meio de injeções, de acordo com a finalidade;
- plantas medicinais/fitoterapia, uso terapêutico de plantas, em preparações como chás ou na forma de fitoterápicos, como cápsulas, xaropes e produtos para aplicação na pele;
- quiropraxia, técnicas manuais aplicadas principalmente ao sistema musculoesquelético;
- reflexoterapia, estímulo de pontos dos pés, mãos ou orelhas;
- reiki, técnica japonesa de imposição de mãos baseada na canalização da energia vital;
- shantala, massagem para bebês e crianças realizada pelos pais;
- terapia comunitária integrativa, encontros em grupo para compartilhar experiências;
- terapia de florais, uso de essências preparadas a partir de flores, como os Florais de Bach e os Florais de Saint Germain;
- termalismo social/crenoterapia, uso terapêutico de águas minerais ou termais, que podem ser utilizadas em banhos, saunas ou, quando indicado, ingeridas;
- yoga, combinação de posturas corporais, respiração e meditação.
O que a ciência diz sobre os benefícios das práticas integrativas?
As evidências científicas variam de acordo com a prática e com a finalidade para a qual ela é utilizada. Em alguns casos, pesquisas apontam benefícios. Em outros, os resultados ainda são preliminares. Há, ainda, as PICS com evidências tão robustas que passaram a ser mais amplamente recomendadas. Alguns exemplos:
Acupuntura no pós-operatório
Pesquisadores analisaram 25 estudos sobre o uso da acupuntura para aliviar a dor após diferentes tipos de cirurgia. Os resultados, publicados em 2025 na revista científica Pain Management Nursing, mostraram redução significativa da intensidade da dor e do consumo de analgésicos após os procedimentos;
Musicoterapia em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal
Um trabalho publicado na revista científica Acta Paediatrica avaliou pesquisas com bebês prematuros submetidos à musicoterapia. A análise encontrou benefícios como redução das frequências cardíaca e respiratória e aumento da quantidade de alimento ingerida pelos bebês. Entre as mães, foi observada redução da ansiedade;
Mindfulness em oncologia
Com base em pesquisas realizadas por diferentes instituições, a Sociedade de Oncologia Integrativa e a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) recomendam práticas de mindfulness, como meditação guiada e exercícios de respiração, para ajudar a reduzir sintomas de ansiedade e depressão durante o tratamento do câncer em adultos.
As práticas integrativas podem substituir o meu tratamento convencional?
Não. Como o nome indica, as PICS são complementares. Podem ser associadas aos cuidados prescritos pela equipe de saúde, mas não devem ocupar o lugar de medicamentos, cirurgias ou outros procedimentos necessários para tratar a doença.
“O paciente pode e deve continuar seu tratamento convencional normalmente, enquanto usa uma prática integrativa como apoio para melhorar seu bem-estar geral”, reforça a médica.
As práticas também não devem ser utilizadas por conta própria, sem orientação profissional. Cada técnica pode ter indicações, contraindicações e exigir cuidados específicos.
Posso pedir acupuntura e musicoterapia durante minha internação?
O paciente pode conversar com a equipe sobre seus interesses, mas é preciso verificar se o hospital oferece o recurso e se existe indicação para o caso.
Uma técnica sugerida a um paciente pode não ser adequada a outro. O quadro clínico, a queixa, possíveis contraindicações e o objetivo pretendido precisam ser considerados. Entre as situações em que as práticas integrativas podem ser recomendadas, Ramos cita:
- dor crônica;
- ansiedade;
- depressão;
- insônia; e
- estresse.
“Muitas vezes, utilizamos escalas, como a de dor, para entender melhor a necessidade“, explica.
Durante a aplicação da técnica, a equipe responsável acompanha as reações do paciente e, ao final, faz uma reavaliação para definir os próximos passos.
Como as instituições de saúde garantem que as práticas integrativas sejam feitas com segurança?
Antes de oferecer uma nova prática, os hospitais precisam se preparar. Isso inclui contar com profissionais capacitados, ter a estrutura necessária e estabelecer protocolos que definam em quais situações o recurso pode ser indicado, como o paciente será acompanhado e de que forma os resultados serão avaliados.
Esses critérios ajudam a integrar cada prática aos demais cuidados, com segurança e qualidade.
Quais práticas integrativas podem ser usadas durante a minha internação?
As possibilidades variam de acordo com o hospital e com as necessidades do paciente. “No Hospital Ortopédico da AACD, por exemplo, o paciente pode, antes da anestesia, escolher aromas – como chiclete ou chocolate –, para tornar esse momento mais agradável e ajudar a diminuir a ansiedade relacionada à cirurgia”, conta Ramos.
A disponibilidade dessas práticas nas instituições de saúde é variada e pode incluir acupuntura, musicoterapia, reiki, yoga e reflexoterapia, entre outras.

