Governança anestésica: quando o registro deixa de ser operacional e passa a ser estratégico

No dia 28 de abril, a Anahp realizou mais uma edição do seu Café da Manhã, desta vez em parceria com a Skymed, para discutir como a governança anestésica orientada por dados pode fortalecer a qualidade assistencial, apoiar processos de acreditação e melhorar a sustentabilidade do centro cirúrgico.

O encontro trouxe a experiência do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, a partir do processo de digitalização da ficha anestésica no contexto da reacreditação pela Joint Commission International (JCI). Mais do que uma discussão sobre tecnologia, o debate girou em torno de decisão institucional — e do que acontece quando um processo historicamente operacional passa a ser tratado como parte da estratégia do hospital.

Participaram do debate:

  • Diego Ramires, Head de Inovação, Ensino e Pesquisa do Hospital Mãe de Deus]
  • Gustavo Ayala, gestor médico do Serviço de Anestesiologia do Hospital Mãe de Deus

Principais pontos:

Um problema que atravessa assistência, experiência e receita

A anestesia costuma ser tratada como um registro clínico — necessário para documentação e faturamento. Na prática, organiza uma etapa crítica do centro cirúrgico, onde se concentram decisões clínicas, uso de recursos e dados que sustentam o cuidado e o faturamento.

“Não teve uma instituição que eu passei em que o fluxo do serviço de anestesia não fosse um desafio.” — Diego Ramires

Esse desafio aparece em três dimensões:

  • na assistência, ao influenciar diretamente o desfecho do paciente
  • na relação com o corpo clínico, especialmente em modelos com múltiplos grupos
  • na operação, ao afetar rastreabilidade e ciclo de receita

Quando esses elementos não estão organizados, a instituição perde capacidade de desdobrar o que definiu como estratégia — especialmente em contextos críticos como a reacreditação.

Quando o problema deixa de ser técnico e vira institucional

No Hospital Mãe de Deus, a mudança ganhou força no contexto da reacreditação pela JCI e deixou de ser uma pauta do centro cirúrgico para se tornar uma prioridade institucional. A dificuldade não estava na ausência de tecnologia, mas na baixa adesão e na incapacidade de garantir conformidade.

“Só cerca de 25% dos anestesistas utilizavam a plataforma digital, e mesmo assim sem garantir o cumprimento das exigências regulatórias.” — Gustavo Ayala

O cenário combinava:

  • baixa adesão
  • falhas no registro obrigatório
  • dados incompletos ou inconsistentes

Em alguns casos, itens essenciais deixavam de ser registrados, como a avaliação pré-anestésica. O risco, portanto, deixava de ser operacional e passava a ser regulatório — com impacto direto na acreditação e na governança da instituição.

Digitalizar organiza o processo, mas não resolve o problema

A digitalização elimina limitações do papel, como ilegibilidade e perda de informação. Mas não resolve, por si só, o comportamento e a adesão do corpo clínico.

“A digitalização elimina problemas do papel, mas não resolve o problema do médico.” — Gustavo Ayala

Na prática, ela torna mais visíveis as lacunas — e, muitas vezes, aumenta a exigência de cumprimento das regras. O ganho aparece quando o dado passa a ser utilizável: estruturado, confiável e integrado ao restante da operação.

“Quando esse dado passa a ser estruturado, a gente consegue desdobrar estratégia na prática.” — Diego Ramires

Sem isso, o digital apenas replica o problema em outro formato.

O principal desafio é a cultura

“Mudar essa cultura de mais de 100 anos não é simples.” — Gustavo Ayala

A resistência do corpo clínico está ligada a fatores objetivos:

  • aumento percebido de trabalho
  • exigências regulatórias pouco assimiladas
  • práticas consolidadas ao longo do tempo

A transição do papel para o digital, especialmente quando torna obrigatórios registros antes negligenciados, intensifica esse atrito.

O que fez a implementação funcionar

O avanço do projeto esteve ligado a quatro fatores:

1. Decisão institucional sustentada: a mudança foi mantida como prioridade, mesmo com resistência.

2. Aderência ao contexto do hospital: a solução foi ajustada à realidade da instituição, considerando um ambiente com múltiplos grupos médicos e diferentes práticas.

3. Presença no dia a dia: A operação assistida garantiu uso real, com acompanhamento próximo durante a implantação.

4. Governança ativa: Comitês e fluxos estruturados permitiram ajustes contínuos e absorção das demandas dos grupos.

“Tudo isso só funciona se usar. E para usar, precisa fazer sentido para quem está na ponta.” — Gustavo Ayala

O dado como base de gestão

Com a digitalização estruturada, a ficha anestésica deixa de ser um registro e passa a ser uma fonte de gestão.

O hospital passa a operar com outro nível de visibilidade:

  • análise de performance do centro cirúrgico
  • planejamento mais preciso de recursos
  • identificação de falhas e oportunidades de melhoria

“Com papel, é praticamente impossível extrair dados confiáveis para planejar o serviço.” — Gustavo Ayala

Sem dados estruturados, decisões acabam baseadas em percepção ou estimativas pouco precisa. Com dados, tornam-se analíticas e direcionadas.

O impacto na acreditação

A qualidade do registro anestésico influencia diretamente a acreditação. Falhas em itens obrigatórios comprometem o atendimento aos padrões exigidos por organismos como a JCI. A digitalização estruturada permite transformar exigências regulatórias em etapas obrigatórias do processo, reduzindo risco e aumentando consistência.

O próximo passo: usar o dado

Com a base estruturada, o foco deixa de ser registrar e passa a ser usar o dado.

As oportunidades estão em:

  • apoio à decisão clínica
  • padronização de condutas
  • melhoria da performance cirúrgica
  • uso de inteligência para a prevenção de erros

“A anestesia concentra um volume enorme de dados que podem melhorar a performance do centro cirúrgico.” — Diego Ramires

Conclusão

A experiência do Hospital Mãe de Deus mostra que a governança anestésica orientada por dados começa com tecnologia, mas depende de decisão e sustentação institucional.

Digitalizar organiza o processo. Estruturar o dado permite, de fato, gerir. O desafio está na transição — e na capacidade de manter a direção mesmo diante da resistência, até que o resultado apareça.

Assista ao evento na íntegra

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