Jornada Digital Anahp debate como hospitais podem antecipar riscos, fortalecer a resiliência e garantir a continuidade da assistência diante de crises cada vez mais complexas.
Dando início à Jornada Digital Anahp de agosto, dedicada ao macrotema Qualidade e Segurança, a Anahp realizou, em parceria com a Wolters Kluwer, o encontro “Os hospitais estão preparados para as crises do futuro?”.
A discussão abordou a evolução da resiliência organizacional na saúde e o preparo das instituições para crises cada vez mais complexas, com foco na continuidade e na segurança da assistência.
Participaram:
- Tiago Ramos, diretor médico executivo do Hospital Mãe de Deus
- Julianna Sandes, gerente de Qualidade, Segurança e Escritório de Valor do Hospital Santa Catarina
- Evandro Moraes, diretor-geral do Hospital São Lucas da PUCRS
- Ingrid Cicca, consultora em Sustentabilidade e ESG (moderação)
O debate tratou de crises que já afetam a operação hospitalar, como eventos climáticos extremos, falhas de infraestrutura, desabastecimento, dificuldade de deslocamento de profissionais, pressão sobre emergências e interrupções em serviços críticos.
Gestão integrada de riscos
A gestão de riscos deixou de olhar apenas para eventos isolados. Um hospital pode estar preparado para falta de energia, desabastecimento, evacuação ou falhas de tecnologia. O problema começa quando todos esses riscos aparecem ao mesmo tempo.
A gestão da crise precisa conectar infraestrutura, assistência, pessoas, fornecedores, tecnologia, poder público e rede hospitalar.
Pontos para o planejamento de contingência:
- Quanto tempo o hospital consegue funcionar em contingência?
- Quais pacientes correm maior risco em caso de interrupção?
- Quem decide cada etapa da crise?
- Quais serviços precisam ser priorizados?
- Quais fornecedores são essenciais para sustentar a operação?
- Quais hospitais podem receber pacientes?
- Como garantir a continuidade da assistência se sistemas, água, energia ou acesso falharem?
A experiência dos hospitais no Rio Grande do Sul
Durante a enchente de 2024 em Porto Alegre, o Hospital Mãe de Deus precisou evacuar toda a operação e ficou 60 dias inoperante. A crise atingiu áreas críticas de infraestrutura e exigiu a transferência de pacientes complexos, incluindo recém-nascidos, pacientes de CTI (Centro de Terapia Intensiva) e pessoas em ventilação mecânica.
Hospital Mãe de Deus | Evacuação durante a enchente:
- Comitê de crise ativado antes da evacuação
- Gatilhos definidos conforme o avanço da água
- Priorização de pacientes críticos
- Apoio de hospitais parceiros da região
- Uso de veículos do Exército para transpor áreas alagadas
- Criação de ponto avançado fora da área mais crítica
- Transferência de mais de 270 pacientes em 36 horas
- Continuidade do cuidado sem eventos adversos relatados durante o processo
O caso reforçou a importância de diretrizes claras, uma cadeia de decisão bem definida e articulação prévia com outras instituições.
Infraestrutura e continuidade da assistência
Energia, água, gases medicinais, conectividade, sistemas e acessos ao hospital são elementos essenciais para garantir a continuidade da assistência e a segurança do paciente em situações de crise.
No Hospital Santa Catarina, o mapeamento de riscos climáticos apontou energia, água e transporte de profissionais como pontos críticos. A instituição reforçou a redundância energética, a autonomia de combustível, o monitoramento de reservatórios, o backup para equipamentos essenciais e a disponibilidade de gases medicinais.
No Hospital Mãe de Deus, a experiência com a enchente levou à revisão de sistemas de drenagem, geradores, pontos de energia, farmácia, estoques, servidores e estruturas vulneráveis no subsolo.
Infraestruturas e serviços críticos
A continuidade da assistência depende de uma rede de estruturas e serviços que precisam funcionar de forma integrada: energia, água, conectividade, telefonia, estoques, acesso das equipes, transferência de pacientes, servidores, documentação clínica e equipamentos de alta complexidade.
Quando a base da operação falha, a capacidade de prestar assistência também é comprometida.
Impactos sobre os profissionais
Profissionais podem ficar ilhados, perder suas casas, ter familiares afetados ou não conseguir chegar ao trabalho. Em Porto Alegre, colaboradores chegaram a ser alojados nas próprias instituições durante a emergência, enquanto hospitais adotaram medidas de apoio material, financeiro, logístico e psicológico.
Medidas de apoio aos profissionais:
- Transporte seguro
- Alojamento em situações extremas
- Apoio aos diretamente afetados
- Escalas mínimas para manter a operação
- Realocação temporária em hospitais parceiros
- Comunicação com quem estiver fora da instituição
- Acompanhamento de saúde mental após a crise
Sem pessoas em condições de trabalhar, a infraestrutura não sustenta a assistência.
Picos de demanda e mudanças na sazonalidade
Outro ponto discutido foi a pressão sobre prontos-socorros em períodos de aumento inesperado de demanda.
O Hospital Santa Catarina relatou a experiência com a dengue em 2024, que levou à criação de uma área específica, ao reforço da telemedicina, à ampliação das equipes e à previsão orçamentária para contratações temporárias. No Rio Grande do Sul, a tradicional “operação inverno”, voltada a crises respiratórias, passou a conviver com uma “operação verão”, associada ao aumento da dengue.
Estratégias para períodos de maior pressão assistencial:
- Área de expansão no pronto-socorro
- Gatilhos para reforço de equipe
- Painéis de monitoramento do volume de atendimentos
- Contratos flexíveis para contratação temporária
- Integração com a CIH e monitoramento dos atendimentos
- Uso de telemedicina para retorno e reavaliação
- Fluxos específicos para hidratação, avaliação e reavaliação
Resíduos, emissões e sustentabilidade
Os participantes discutiram resíduos infectantes, segregação incorreta, consumo de plástico, uso de óxido nitroso, emissões de gases de efeito estufa, compostagem e critérios ambientais para fornecedores.
A mudança depende de processos, treinamento e liderança. No Hospital Santa Catarina, por exemplo, projetos com as equipes levaram a ajustes simples, como mudanças no tamanho e na distribuição de lixeiras, além da criação de indicadores por setor e de treinamentos obrigatórios.
Indicadores ambientais:
- Volume de resíduos infectantes
- Percentual de resíduos comuns, recicláveis e perigosos
- Consumo de plásticos
- Uso de gases com alto potencial de aquecimento global
- Inventário de emissões
- Plano de descarbonização
- Critérios ambientais na cadeia de suprimentos
- Custo do descarte inadequado
A gestão de resíduos também é uma decisão econômica. Quando resíduos comuns são descartados como infectantes, o hospital aumenta os custos, reduz a reciclagem e pressiona a cadeia de coleta.
Fornecedores e cadeia de suprimentos
A continuidade hospitalar depende de uma cadeia complexa de suprimentos. Durante uma calamidade, a falha pode estar no fornecedor, na rota, na planta produtora, no acesso ao hospital ou na disputa por insumos com outras instituições.
O debate apontou caminhos como mapeamento de fornecedores próximos e alternativos, contratos de contingência, parcerias entre hospitais vizinhos e revisão do estoque de cobertura.
Gestão de estoques em situações de crise
Estoque enxuto reduz o custo imobilizado, mas, em eventos prolongados, pode diminuir a margem de segurança. A decisão precisa considerar o risco assistencial, o tempo de reposição, a criticidade do insumo e a capacidade real de entrega durante uma crise regional.
Mudanças após a enchente
Depois da enchente, o Mãe de Deus revisou estruturas físicas e operacionais, incluindo sistemas elétricos em áreas mais altas, nova lógica de geradores, drenagem interna, bombas de recalque, servidores redundantes, contingência em nuvem, farmácia e estoques distribuídos.
A experiência no Rio Grande do Sul também colocou em discussão soluções como tratamento interno de água em emergências e alternativas para a geração de gases medicinais.
Agenda para hospitais:
- Revisar a localização de estruturas críticas
- Testar a evacuação de pacientes complexos
- Realizar simulados de catástrofe com o Corpo de Bombeiros
- Mapear fornecedores e rotas alternativas
- Definir hospitais parceiros para transferência
- Garantir acesso mínimo ao prontuário em contingência
- Prever registro físico temporário
- Acompanhar a saúde mental das equipes
- Medir emissões e resíduos
- Revisar o plano após cada evento real
Preparação para crises
A Jornada Digital mostrou que a gestão de crises passou a fazer parte da rotina da qualidade, da segurança do paciente e da gestão hospitalar. A pergunta para as instituições já não é apenas se existe um plano de contingência, mas se ele conecta infraestrutura, assistência, pessoas, dados, fornecedores e rede de apoio.
Crises futuras exigirão hospitais capazes de antecipar riscos, responder de forma coordenada e transformar cada evento em aprendizado e melhoria concreta da operação.
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