Ganhos e riscos do uso da IA na segurança do paciente

A Jornada Digital Anahp de agosto, dedicada ao macrotema Qualidade e Segurança, colocou em pauta como novas tecnologias estão mudando práticas assistenciais e exigindo novas formas de avaliar riscos.

No segundo encontro do mês, realizado em parceria com a Wolters Kluwer, o foco foi o uso da inteligência artificial para ampliar a segurança do paciente. A IA começa a ocupar diferentes etapas da assistência, da identificação de padrões em prontuários ao apoio à decisão clínica e ao acompanhamento de linhas de cuidado.

Ao mesmo tempo, sua adoção traz desafios sobre qualidade dos dados, privacidade, segurança, governança e preparo das equipes. O encontro abordou esse equilíbrio entre o potencial de antecipar riscos e os cuidados necessários para incorporar a tecnologia de forma segura.

Participaram:

  • Lara Salvador, VP de Inovação e Experiência do Paciente da Rede Mater Dei de Saúde
  • Conrado Tramontini, gerente de Garagem de Inovação do Hospital Sírio-Libanês
  • Siomara Tavares Yamaguti, gerente de Práticas Assistenciais e Educação Assistencial do Hcor (moderação)

Principais pontos:

IA na assistência

Uma das principais possibilidades discutidas foi a identificação precoce de riscos a partir de informações distribuídas pelo prontuário. Um exemplo apresentado foi o risco de broncoaspiração.

A anotação sobre abdômen timpanizado ou constipação pode aparecer no prontuário e, algumas horas depois, surgir um registro de desconforto na garganta ou possível engasgo. A análise conjunta dessas informações pode indicar um risco que passaria despercebido na leitura isolada dos registros.

Outros riscos citados

  • Sepse
  • Queda
  • Infecção
  • Deterioração clínica

A tecnologia identifica padrões e apresenta a informação. A decisão continua com a equipe assistencial.

Aplicações em uso

As experiências apresentadas vão além da identificação de riscos. Na Rede Mater Dei, a IA é utilizada para:

  • Transcrição de voz no prontuário
  • Organização das informações clínicas
  • Consulta a evidências e protocolos
  • Apoio ao raciocínio clínico
  • Linhas de cuidado
  • Identificação de alterações em exames

Uma das ferramentas organiza informações do prontuário, cruza dados e apresenta evidências e protocolos para apoiar o médico. A recomendação pode ser aceita, recusada ou não utilizada pelo profissional.

Também foram citadas aplicações para orientar pacientes sobre preparo para exames e traduzir documentos para pessoas que não falam português.

Dois casos

Broncoaspiração

O Bronco Alerta nasceu de uma iniciativa da equipe assistencial do Hospital Sírio-Libanês para identificar pacientes com maior risco de broncoaspiração antes que o evento ocorresse.

Assistência, inovação e tecnologia trabalharam juntas no desenvolvimento da solução. Depois da prova de conceito, o projeto entrou em fase piloto e registrou redução nos eventos de broncoaspiração.

A experiência também mostrou que a mesma estrutura pode ser usada para acompanhar outros riscos, como sepse, queda e infecção.

Linhas de cuidado

Na Rede Mater Dei, soluções desenvolvidas internamente com Gemini apoiam linhas de cuidado de mama e pulmão.

A IA identifica alterações iniciais em exames e ajuda a localizar pacientes que não retornaram para buscar os resultados. A equipe pode então entrar em contato, antecipar uma consulta ou solicitar um novo exame e acompanhar o paciente dentro de uma linha de cuidado.

Como medir os resultados

O impacto de uma solução de IA não deve ser avaliado apenas pela economia de tempo.

Indicadores citados na discussão:

  • Redução de eventos adversos
  • Identificação mais precoce de riscos
  • Redução do tempo de internação
  • Redução do uso de determinadas medicações
  • Intervenção mais rápida
  • Ganho de produtividade das equipes

Uma solução também pode liberar tempo dos profissionais para outras atividades assistenciais. Por isso, a avaliação precisa considerar os efeitos sobre a operação, a assistência e a experiência do paciente.

Um ganho de produtividade, por exemplo, pode permitir que o hospital amplie sua capacidade de atendimento, com impactos positivos no acesso e na segurança do paciente que nem sempre são capturados por um único indicador.

Novos riscos

A adoção da IA também traz riscos que precisam ser acompanhados.

Dados com erros: se os dados usados no treinamento carregam erros ou distorções, a tecnologia pode reproduzi-los e ampliá-los.

Confiança excessiva: a recomendação precisa ser entendida e avaliada pela equipe. A IA não deve substituir o julgamento profissional.

Excesso de alertas: se muitas situações gerarem notificações, cresce o risco de que os profissionais deixem de perceber quais delas realmente exigem atenção. Por isso, é preciso definir o que deve gerar alerta, quais situações são prioritárias, quem deve receber a informação e qual ação deve acontecer depois.

Privacidade: é preciso saber quais informações estão sendo utilizadas, quem pode acessá-las, para qual finalidade e por quanto tempo.

Segurança dos sistemas: a expansão da IA cria novas possibilidades de risco e aumenta a importância de avaliar a proteção dos dados, da infraestrutura e dos fornecedores utilizados.

Monitoramento contínuo: uma solução validada antes da implementação pode se comportar de maneira diferente no ambiente real. Desempenho, dados e riscos precisam continuar sendo acompanhados depois que a ferramenta entra em uso.

Na Rede Mater Dei, as soluções passam por análise de privacidade e segurança de dados antes da implementação.

Uso pelas equipes

ChatGPT, Gemini, Copilot e outras soluções já estão disponíveis para profissionais de diferentes áreas. A questão é estabelecer critérios para seu uso dentro das instituições.

No Sírio-Libanês, uma das prioridades apresentadas foi preparar as equipes para o uso seguro dessas ferramentas, com orientações sobre quais informações podem ser compartilhadas e quais cuidados devem ser adotados no uso dos dados.

O letramento em IA também foi tratado como parte da segurança. Os profissionais precisam compreender como as ferramentas funcionam, de onde vêm as informações e quais são seus limites para avaliar criticamente as recomendações e, quando necessário, decidir não segui-las.

Três prioridades apresentadas

  • Cultura: preparar as equipes para compreender e utilizar a tecnologia.
  • Eficiência operacional: começar por aplicações com menor risco e benefício mais claro.
  • Assistência: avançar com mais cuidado nas soluções diretamente ligadas ao paciente.

Por onde começar

A lógica é partir do problema, e não da tecnologia. Primeiro, é preciso identificar o que precisa ser resolvido, escolher um caso de uso específico e, então, construir a solução junto com as pessoas envolvidas no processo.

Três perguntas ajudam a orientar esse processo:

  1. Qual problema queremos resolver?
  2. Qual risco queremos reduzir?
  3. Como vamos saber se a solução funcionou?

A inteligência artificial já pode contribuir para a segurança do paciente em situações concretas. O resultado depende da qualidade dos dados, da capacitação das equipes, de uma governança clara e do acompanhamento contínuo da tecnologia após sua implementação.

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