Doença do enxerto contra o hospedeiro exige acompanhamento prolongado após o TMO

Encontro promovido pela Anahp e Sanofi destacou a importância do monitoramento contínuo, da atuação multiprofissional e do acesso às diferentes linhas de tratamento.

No dia 28 de julho, a Anahp realizou mais uma edição do Café da Manhã, desta vez em parceria com a Sanofi, para discutir o acompanhamento de pacientes após o transplante de medula óssea e os desafios relacionados à doença do enxerto contra o hospedeiro crônica, conhecida pela sigla DECHc.

O encontro abordou o reconhecimento dos primeiros sinais da doença, a avaliação da gravidade, os limites do tratamento com corticoides e a necessidade de organizar um cuidado multidisciplinar que acompanhe o paciente também após a fase inicial do transplante.

Participaram:

  • Gustavo Bettarello, hematologista da Oncologia D’Or DF Star
  • Andreza Feitosa Ribeiro, hematologista do Einstein Hospital Israelita

Principais pontos

O acompanhamento não termina com a pega da medula

A DECHc frequentemente se manifesta após os primeiros 100 dias, quando o paciente já pode ter retornado para casa e as avaliações no centro transplantador se tornaram menos frequentes.

Algumas alterações podem parecer pouco relevantes quando avaliadas isoladamente:

  • Perda de peso
  • Dificuldade para movimentar as mãos
  • Redução da flexibilidade
  • Boca e olhos secos
  • Mudanças na função pulmonar

Esses sinais podem indicar o início de um comprometimento mais importante e precisam chegar rapidamente à equipe responsável.

Transplantes haploidênticos já representam cerca de 40% dos procedimentos

A ampliação dessa modalidade aumenta o acesso ao transplante, mas exige atenção às possíveis complicações tardias.

A fibrose define parte importante do prognóstico

A DECHc pode comprometer diferentes órgãos e evoluir de um processo inflamatório para a fibrose. A perda funcional se torna progressivamente mais difícil de reverter quando essa etapa se instala.

Principais pontos de atenção:

  • Pulmão: está entre os comprometimentos mais graves e pode evoluir antes do aparecimento de sintomas intensos.
  • Trato gastrointestinal: pode afetar deglutição, alimentação e absorção.
  • Pele e articulações: a fibrose reduz a mobilidade e compromete atividades cotidianas.
  • Olhos, boca e genitais: as alterações interferem diretamente na qualidade de vida.

40% desenvolvem a forma grave

Um envolvimento grau 3 em qualquer órgão, ou comprometimento pulmonar com escore 2 ou superior, já caracteriza doença grave.

A repetição da prova de função pulmonar nos momentos definidos pelo protocolo ajuda a identificar alterações antes que a perda funcional esteja avançada.

O impacto aparece na rotina

A DECHc pode permanecer ativa durante anos. Mesmo em remissão da doença que motivou o transplante, o paciente pode enfrentar limitações para caminhar, enxergar, alimentar-se, trabalhar ou cuidar de si.

Um terço apresenta sofrimento psicológico clinicamente significativo

Também são frequentes:

  • Perda de autonomia
  • Dificuldade para retornar ao trabalho
  • Necessidade de apoio familiar ou de cuidadores
  • Consultas e hospitalizações recorrentes
  • Aumento dos custos para o paciente e para o sistema de saúde

O diagnóstico precoce depende de uma rede de acompanhamento

Grande parte da evolução acontece fora do hospital. Quando o paciente retorna para casa, o centro transplantador precisa manter canais para reconhecer sintomas e organizar o encaminhamento.

O acompanhamento pode incluir:

  • Avaliações programadas após o transplante
  • Instrumentos padronizados de pontuação
  • Provas de função pulmonar periódicas
  • Telemedicina
  • Sistemas para comunicação de sintomas
  • Reuniões multiprofissionais para casos mais graves

No Einstein Hospital Israelita, o seguimento considera marcos como 100, 180 e 360 dias, inclusive com avaliações online. Os casos de DECHc também podem ser acompanhados em uma estrutura dedicada e discutidos por diferentes especialidades.

Metade não responde adequadamente aos corticoides

Os corticoides permanecem como base do tratamento. Nas formas moderadas e graves, o desafio aparece quando a doença progride, retorna durante a redução da dose ou permanece controlada apenas com uso prolongado.

Cerca de 50% são refratários ou intolerantes aos corticoides

É importante diferenciar:

  • Refratariedade: a doença piora ou não responde durante o tratamento.
  • Dependência: a dose não pode ser reduzida sem nova piora.
  • Intolerância: os efeitos adversos impedem a continuidade do tratamento.

Entre as possíveis consequências do uso prolongado estão diabetes, hipertensão, osteoporose, catarata e maior risco de infecções.

Muitos pacientes necessitam de diferentes linhas de tratamento

Uma análise de vida real com cerca de 14 mil pacientes nos Estados Unidos mostrou:

  • 65% apresentavam três ou mais órgãos comprometidos
  • 70% necessitaram de uma segunda linha de tratamento
  • 50% precisaram de uma segunda linha de tratamento

Outro levantamento registrou progressão ou ausência de melhora em 86% dos pacientes, levando à necessidade de novas intervenções.

Entre as alternativas utilizadas estão ruxolitinibe, ibrutinibe, belumosudil e fotoférese extracorpórea. A escolha deve considerar:

  • Órgãos comprometidos
  • Tratamentos anteriores
  • Perfil de segurança
  • Via de administração
  • Adesão
  • Acesso à terapia

Novas alternativas ampliam as possibilidades de manejo

O belumosudil, uma das terapias discutidas, inibe a via ROCK2 e atua sobre componentes inflamatórios e fibróticos da DECHc.

75% de resposta global

No estudo ROCKstar, realizado com pacientes que já haviam recebido entre duas e cinco terapias sistêmicas, aproximadamente três em cada quatro apresentaram alguma resposta.

Outros resultados:

  • 50 semanas de duração mediana da resposta
  • 68% reduziram o uso de corticoides
  • 26% suspenderam os corticoides
  • 53% reduziram os inibidores de calcineurina
  • 18% suspenderam esses medicamentos

Estudos de vida real apresentados no encontro demonstraram taxas de resposta entre 55% e 57% em grupos com doença avançada e tratamentos anteriores.

A resposta ao tratamento pode levar algumas semanas. Esse intervalo precisa ser considerado antes de concluir que houve falha terapêutica.

A resposta ao tratamento deve ser medida pela função preservada

Uma resposta parcial pode representar ganho importante quando permite:

  • Conter a progressão da fibrose
  • Recuperar movimentos
  • Melhorar a alimentação
  • Reduzir a falta de ar
  • Diminuir a imunossupressão
  • Reduzir as idas ao hospital

O resultado deve considerar os órgãos envolvidos, a capacidade funcional e a percepção do paciente. Em uma doença crônica e heterogênea, estabilizar uma manifestação também pode preservar a autonomia e a qualidade de vida.

Equipes conectadas reduzem falhas no seguimento

O cuidado pode reunir hematologistas e profissionais de áreas como pneumologia, oftalmologia, ginecologia, dermatologia, ortopedia, enfermagem, farmácia, nutrição, psicologia, assistência social e cuidados paliativos ou integrados.

Uma das dificuldades apontadas no encontro é a fragmentação das informações. Médicos e equipe multiprofissional nem sempre trabalham no mesmo circuito de comunicação.

Precisam ser compartilhadas informações sobre:

  • Sintomas e alterações funcionais
  • Adesão ao tratamento
  • Efeitos adversos
  • Dificuldades de compreensão
  • Condições emocionais e sociais
  • Necessidade de apoio familiar

Reuniões de casos, registros compartilhados e ferramentas digitais podem aproximar as equipes e reduzir falhas no acompanhamento.

Perguntas para orientar o processo

  • O acompanhamento alcança o período posterior aos primeiros 100 ou 180 dias?
  • Existem avaliações programadas para identificar complicações tardias?
  • A instituição utiliza critérios padronizados para classificar a gravidade?
  • A função pulmonar é acompanhada antes do surgimento de sintomas importantes?
  • Há um fluxo definido para pacientes refratários, dependentes ou intolerantes aos corticoides?
  • Médicos e equipe multiprofissional compartilham informações clínicas e funcionais?
  • O paciente consegue relatar alterações quando está distante do centro transplantador?
  • Os resultados incluem função, qualidade de vida e redução da imunossupressão?

O transplante não termina após a fase inicial

O avanço do cuidado na fase inicial permitiu que mais pacientes superassem as primeiras etapas do transplante. Como consequência, complicações tardias, que podem surgir meses ou anos depois, passaram a demandar maior atenção.

Um acompanhamento estruturado, com identificação precoce de sinais, acesso às terapias disponíveis e atuação multiprofissional, é essencial para garantir melhores desfechos e qualidade de vida aos pacientes.

Quer saber mais? Assista na íntegra:

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