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Início > Saúde da Saúde > Bem-Estar > O Super El Niño está chegando: qual é o impacto na sua saúde?

O Super El Niño está chegando: qual é o impacto na sua saúde?

  • 27 de julho de 2026

Eventos causados pelo Super El Niño, como ondas de calor, queimadas, enchentes e períodos de seca, podem aumentar o risco de diferentes problemas de saúde. Entenda por que isso acontece e como se proteger.

Quando uma onda de calor se prolonga, uma enchente atinge uma cidade ou a seca se intensifica, os impactos vão além dos danos ambientais, materiais e sociais. Essas situações também podem comprometer a saúde.

Um dos fenômenos climáticos responsáveis por essas alterações é o El Niño. Quando ocorre de forma mais intensa — o chamado Super El Niño —, seus efeitos costumam alcançar maiores proporções.

Para entender como essas mudanças podem afetar a saúde e por que também preocupam os hospitais, conversamos com William Cabral de Miranda, coordenador do Núcleo de Geoprocessamento e Ciências de Dados do Instituto de Pesquisa e Ensino (Pensi), da Fundação José Luiz Setúbal (FJLS).

O que é o Super El Niño e por que ele preocupa?

O El Niño é um fenômeno climático natural que acontece quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial se aquecem de forma anormal. Esse aquecimento modifica a circulação da atmosfera e altera os padrões de chuva e temperatura em diversas partes do planeta.

Já o Super El Niño é o termo utilizado para descrever episódios excepcionalmente intensos desse fenômeno, que costumam provocar impactos climáticos mais expressivos.

Esses efeitos se manifestam de forma variada nas diversas regiões do Brasil. “Seus impactos dependem da intensidade do fenômeno, da época do ano e das características regionais“, diz Miranda.

De maneira geral, o fenômeno tende a:

  • reduzir as chuvas em parte da Amazônia e do Nordeste;
  • aumentar a probabilidade de precipitações (neve, granizo) acima da média na Região Sul;
  • favorecer temperaturas acima da média e maior frequência de ondas de calor em diversas regiões brasileiras.

Por que o calor extremo pode afetar a saúde?

Segundo Miranda, as ondas de calor representam um importante problema de saúde pública. Quando as temperaturas permanecem muito elevadas durante vários dias seguidos, o organismo encontra mais dificuldade para regular a própria temperatura. Como consequência, aumenta o risco de problemas que podem variar de leves a graves.

As principais complicações incluem:

  • agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias;
  • desidratação, causada pela perda excessiva de água e sais minerais;
  • exaustão pelo calor, quando o organismo não consegue responder adequadamente à exposição prolongada ao calor intenso;
  • insolação, a complicação mais grave, em que a temperatura corporal sobe rapidamente e pode ultrapassar 40 °C. 

Quem corre mais risco durante as ondas de calor?

Embora o calor intenso possa afetar qualquer pessoa, alguns grupos são mais vulneráveis:

  • crianças pequenas;
  • idosos;
  • gestantes;
  • pessoas com doenças crônicas;
  • trabalhadores expostos ao sol;
  • pessoas que vivem em moradias com pouca ventilação ou sem acesso adequado à água potável.

“As crianças merecem atenção especial porque possuem mecanismos de regulação térmica ainda em desenvolvimento, desidratam com maior facilidade e dependem dos adultos para manter hidratação e proteção adequadas“, alerta Miranda.

Dados de pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa e Ensino (Pensi), onde Miranda é coordenador, mostram como as condições ambientais podem influenciar a saúde respiratória das crianças.

Em um estudo que analisou mais de 24 mil atendimentos pediátricos por doenças respiratórias e cerca de 3 mil internações em São Paulo, os pesquisadores observaram que fatores ambientais, como temperatura, umidade do ar e poluentes atmosféricos estão associados à variação no número de internações por doenças respiratórias na infância.

Segundo o pesquisador, esses resultados reforçam que eventos climáticos extremos como o Super El Niño podem representar um desafio adicional para a saúde infantil.

A fumaça das queimadas faz mal?

Altas temperaturas e baixa umidade do ar deixam a vegetação mais seca e favorecem a ocorrência e a propagação de queimadas.

A fumaça liberada pelos incêndios contém partículas e gases tóxicos, como monóxido de carbono, que podem irritar os olhos e as vias respiratórias, provocar inflamação e agravar problemas em pessoas com asma, bronquite e outras doenças pulmonares.

Segundo o Ministério da Saúde, os impactos das queimadas podem ir além dos problemas respiratórios. A exposição à fumaça e aos poluentes também está associada a riscos cardiovasculares, como aumento da probabilidade de infarto e acidente vascular cerebral, especialmente em pessoas com doenças preexistentes.

Os efeitos também podem envolver:

  • saúde mental – pessoas que vivem em áreas afetadas por incêndios podem enfrentar situações de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão;
  • impacto nos serviços de saúde – incêndios de grandes proporções podem obrigar comunidades inteiras a se deslocarem, aumentando a demanda por atendimento nos serviços de saúde das regiões que recebem essas populações.

E a bronquiolite, o que tem a ver com o Super El Niño?

Miranda esclarece que a bronquiolite é causada principalmente por vírus — em especial o vírus sincicial respiratório (VSR). Apesar de o calor e a poluição não provocarem diretamente a doença, esses fatores podem aumentar a irritação das vias aéreas, comprometer a qualidade do ar respirado e contribuir para quadros mais graves em crianças infectadas.

Outra pesquisa realizada pelo Pensi identificou que determinados poluentes atmosféricos, como o ozônio, estiveram associados ao aumento das hospitalizações por bronquiolite em crianças em fase de amamentação.

As enchentes são perigosas para a saúde?

O El Niño pode provocar períodos de chuvas intensas e aumentar a ocorrência de enchentes — cenário que pode se agravar durante episódios mais intensos, como o Super El Niño.

 “Os riscos à saúde estão presentes durante a inundação e também depois que a água começa a baixar”, alerta o pesquisador.

Se, durante as enchentes, a grande preocupação está no aumento dos riscos de afogamentos, traumas e acidentes envolvendo energia elétrica e deslizamentos de terra, depois da enchente, a preocupação passa a ser principalmente com a contaminação da água, do solo e dos alimentos, que pode favorecer o surgimento de muitas doenças:

  • leptospirose: transmitida pelo contato com água ou lama contaminadas pela urina de roedores;
  • hepatite A: infecção do fígado causada pelo vírus da hepatite A e transmitida por via fecal-oral, principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados;
  • doenças diarreicas: quadros infecciosos causados por vírus ou bactérias, como os responsáveis pela cólera e pela rotavirose;
  • infecções gastrointestinais: inflamações causadas por microrganismos, como vírus, parasitas e bactérias, incluindo salmonella e escherichia coli (e. coli).

Além disso, a água acumulada em recipientes e áreas afetadas pode criar condições favoráveis para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, chikungunya e zika, caso a limpeza adequada e a eliminação dos criadouros não sejam realizadas.

Miranda orienta: “É fundamental evitar contato com água contaminada e procurar atendimento médico caso apareçam febre, dor muscular intensa ou sintomas gastrointestinais”.

Quais são os riscos associados à seca?

A estiagem, decorrente ou não de fenômenos como o El Niño, é caracterizada por longos períodos com pouca ou nenhuma chuva. Com a redução da disponibilidade de água, muitas pessoas passam a armazená-la em casa ou buscam fontes alternativas de abastecimento, como poços e cisternas. Sem os cuidados adequados, aumenta o risco de contaminação por bactérias, vírus e parasitas responsáveis por doenças gastrointestinais.

Como proteger a saúde dos impactos do Super El Niño?

Em geral, episódios do El Niño duram entre nove meses e um ano. Independentemente da duração do fenômeno, Miranda detalha algumas medidas que ajudam a reduzir os riscos à saúde:

  • Manter uma boa hidratação;
  • Evitar a exposição ao sol entre aproximadamente 10h e 16h;
  • Dar atenção especial a crianças pequenas, idosos e pessoas com doenças crônicas;
  • Reduzir atividades físicas intensas durante períodos de calor extremo ou exposição à fumaça de queimadas;
  • Utilizar água tratada para consumo;
  • Evitar contato com águas de enchentes;
  • Eliminar recipientes com água parada para prevenir a proliferação do mosquito Aedes aegypti;
  • Procurar atendimento médico diante de sintomas importantes, como falta de ar, tosse intensa ou chiado no peito, febre persistente ou sinais de desidratação.

“Cada evento possui comportamento próprio. Por isso, é importante acompanhar os boletins e alertas emitidos por órgãos oficiais de meteorologia e monitoramento de desastres, como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)”, recomenda Miranda.

As mudanças climáticas podem tornar o Super El Niño mais frequente?

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ainda existem incertezas sobre como as mudanças climáticas afetarão a ocorrência e a intensidade dos eventos de El Niño.

Por outro lado, Miranda explica que há um consenso científico de que o aquecimento global já está contribuindo para o aumento de ondas de calor, secas prolongadas e chuvas intensas.

“Quando um El Niño forte acontece em um planeta mais aquecido, seus impactos sobre a sociedade podem ser potencializados“, comenta.

Para proteger a saúde da população, Miranda destaca a necessidade de fortalecer os sistemas de vigilância climática e epidemiológica, investir em planejamento urbano, ampliar áreas verdes nas cidades e desenvolver estratégias específicas para proteger os grupos mais vulneráveis — especialmente crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.

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