
Segundo a União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), até 3,7 milhões mortes por câncer poderiam ser evitadas com estratégias apropriadas de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado.
Ainda assim, a doença é a segunda maior causa de morte em todo o mundo — o dado mais recente aponta para 9,7 milhões de mortes em 2022, segundo a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde (OMS) —, perdendo apenas para doenças cardiovasculares.
É por isso que a UICC estabeleceu o 4 de fevereiro como o Dia Mundial do Câncer, uma data para aumentar a conscientização sobre a doença e incentivar iniciativas de controle.
Para entender em que momento estão as pesquisas e avanços na busca pela cura, conversamos com o gerente médico e o responsável pela Imunoterapia do A.C.Camargo Cancer Center, Walter da Costa e Jayr Schmidt.
Qual foi a grande virada no tratamento do câncer nos últimos anos?
Walter da Costa: Nos últimos anos, a gente tem visto — os estudos acadêmicos e o dia a dia dos pacientes têm mostrado — a importância do sistema imunológico no combate à doença. Na última década, principalmente, o que a gente viu foi um incremento na importância dos tratamentos imunoterápicos, que são drogas que visam ajudar o reconhecimento por parte do sistema imune do paciente de uma célula estranha, que é a célula tumoral.
O câncer, de uma maneira geral, cria uma série de mecanismos celulares para impedir que o organismo reconheça aquela célula tumoral como estranha, e a imunoterapia visa justamente reduzir esse bloqueio. Hoje a gente já consegue ver pacientes que, apesar de apresentarem uma doença metastática, se curam com algumas linhas de tratamento utilizando imunoterapias. Então, de fato, isso revolucionou o tratamento oncológico.
O que a imunoterapia muda no tratamento de câncer?
WC: Antes, os tratamentos eram citotóxicos, ou seja, eram as quimioterapias, que geravam uma série de efeitos colaterais. Elas ainda são utilizadas, é claro, e seu intuito é matar a célula tumoral. Mas a imunoterapia veio com um racional diferente: possibilitar que o organismo reconheça a célula como estranha e a combata.
Além da imunoterapia, um tratamento que ganhou tração foi a infusão de células CAR-T em pacientes no Brasil. No que consiste esse tratamento?
Jayr Schmidt: Essa terapia consiste em retirar células do sistema imunológico do próprio paciente, os linfócitos T, e modificá-los geneticamente com um vetor viral. Esse vírus, modificado em laboratório, faz com que o linfócito reconheça a doença para poder atacá-la. Ou seja: a gente reprograma as células para que, quando elas voltarem ao paciente, cumpram essa função de destruir a doença.
O que as células CAR-T representam no tratamento do câncer?
JS: O tratamento é um avanço bem significativo, porque age contra doenças que não responderam a tratamentos existentes como quimioterapia, imunoterapia e transplante de medula óssea.
Há perfis de doenças em que a expectativa de sobrevida é de seis meses ou menos. Quando falamos do CAR-T, falamos de uma terapia com potencial curativo de 40% a 50% dos casos. É algo muito significativo em termos de agregar benefício clínico e chance de cura para esses pacientes.
E a inteligência artificial? De que forma ela está saindo do campo teórico e entrando na prática clínica na oncologia?
WC: O que nós temos de aplicação de IA muito próxima da utilização prática é o desenvolvimento de algoritmos, principalmente relacionados a diagnósticos. Já existem alguns algoritmos desenvolvidos para identificar, por exemplo, alterações em mamografias ou em tomografias de tórax, que são exames de rastreamento e diagnóstico de câncer de mama e de pulmão.
Os estudos mostram uma sensibilidade superior quando comparado com o ser humano sozinho, então, vai ajudar muito na identificação e no diagnóstico precoce de neoplasias localizadas, por exemplo.
No que diz respeito a tratamentos, começam a sair alguns estudos, ainda iniciais, preliminares, de cirurgias de baixa complexidade realizadas por inteligência artificial. Procedimentos sempre supervisionados, mas que caminham para uma aplicação de médio e longo prazo.
E qual é o atual momento no que diz respeito aos tratamentos contra o câncer?
JS: O câncer é uma doença que ainda demanda muita pesquisa, de maneira contínua, para que cada vez mais a gente entenda os mecanismos dos diversos tipos e desenvolva novos tratamentos.
O que temos de produtos de células CAR-T, hoje, são fruto de desenvolvimento de pesquisas que começaram por volta de dez anos atrás. Estamos na primeira onda do tratamento aqui, mas a gente vislumbra um futuro promissor para essa terapia. Outros tipos de células CAR-T têm sido desenvolvidos, com o potencial de ampliar o tratamento para mais tumores e doenças.
WC: Além disso, nos encontros e congressos, tem-se discutido o impacto dos hábitos de vida no tratamento e diagnóstico do câncer, uma linha de pesquisa muito interessante. E isso tem uma base biológica muito clara. A gente já sabe há muito tempo que a atividade física regular melhora a condição imunológica do indivíduo. Então, à medida que a pessoa se expõe à atividade física regular e saudável, há uma melhora do sistema imune, e ele vai ter mais capacidade de combater as células tumorais; ao combater melhor as células tumorais, você tem um desfecho melhor.
Já se fala em “cronificação” do câncer?
WC: Sem dúvida, os pacientes com câncer têm vivido mais. Primeiro, porque a expectativa de vida da sociedade se alongou, e segundo, porque os desfechos dos tratamentos para os pacientes com câncer têm sido melhores. Isso leva, sim, a uma crença de que houve a “cronificação” da doença.
Por um lado, isso é bom, porque significa que a gente está conseguindo oferecer aos doentes uma sobrevida maior e com uma qualidade de vida melhor. Por outro lado, existe um risco de banalização. As pessoas podem pensar: “Já que o câncer se tornou uma doença crônica, eu, como indivíduo, não vou me preocupar tanto em realizar meus exames periódicos”. Temos que ter cuidado com esse termo, para não passar a falsa impressão de que, independentemente do momento do diagnóstico, o tratamento vai ser bem-sucedido. Infelizmente, não é assim.
Há algum tema que deverá dominar os eventos da área nos próximos anos?
WC: Sem dúvida, a utilização e expansão de inteligência artificial na saúde, na oncologia em específico, é um desses temas. A imunoterapia também tende a chegar mais precocemente no tratamento desses pacientes e com uma variedade de drogas maior. Por último, eu acho que será a expansão de técnicas cirúrgicas minimamente invasivas, em especial a cirurgia robótica e a ampliação de acesso da cirurgia robótica aqui no Brasil para pacientes do Sistema Único de Saúde.
Mesmo diante dessas informações, o diagnóstico de câncer ainda é visto como uma sentença pelo paciente?
JS: Na verdade, não. Cada vez mais as modalidades de câncer são tratáveis. Há uma perspectiva, e o tratamento oncológico está cada vez mais eficaz. Claro que há os efeitos colaterais e desafios a serem vencidos, mas que não inviabilizam o tratamento.
WC: A maneira como se encarava o câncer há 15, 20 anos e como se encara hoje é sem dúvida diferente. A oncologia mudou muito, melhorou muito, os desfechos são frequentemente melhores, os diagnósticos estão sendo feitos mais precocemente.
Leia mais sobre o assunto no nosso blog:

