A segurança cirúrgica vai muito além da sala de cirurgia. Antes, durante e após o procedimento, protocolos rigorosos reduzem riscos e ajudam a proteger o paciente.

O hospital é bem preparado? Estarei em boas mãos? E a anestesia? Essas são só algumas das preocupações de quem vai passar por uma cirurgia.
Para acalmar o coração, saiba que, nos bastidores, existe um trabalho coordenado para evitar falhas. Com a contribuição de Helidéa Lima, diretora de Qualidade Assistencial da Rede D’Or, explicamos como funcionam esses protocolos de segurança.
Como saber se o hospital onde vou operar é bom?
“Hospital seguro é aquele que evita erros, aprende com incidentes e evolui de forma contínua”, explica Lima. Embora esse trabalho pareça invisível para quem está de fora, existem sinais práticos que ajudam a notar o compromisso com a saúde.
Um deles são as certificações de qualidade, como a da Organização Nacional de Acreditação (ONA), que avalia a segurança das instituições no país, e a da Joint Commission International (JCI), acreditação internacional que atesta elevados padrões de qualidade e segurança assistencial.
A diretora esclarece que esses reconhecimentos não eliminam totalmente os riscos, mas demonstram que o hospital possui uma estrutura segura. “Para além das certificações, qualidade e segurança são práticas diárias que protegem vidas”, diz.
Entre as boas práticas, estão:
- identificação constante: a conferência da pulseira e confirmação do nome completo antes de procedimentos e administração de medicamentos;
- higienização das mãos: realizada pelos profissionais antes e após o contato com o paciente;
- comunicação clara: informações ao paciente sobre tratamento, riscos e orientações de alta;
- comunicação multiprofissional: integração entre profissionais de diferentes especialidades que conversam entre si para coordenar o plano de tratamento.
Quais são as etapas de segurança de uma cirurgia?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece um checklist dividido em três momentos.
Entrada (Sign In)
Antes da anestesia, a equipe verifica a identidade do paciente, o procedimento, o local a ser operado e o termo de consentimento. Quando indicado, o cirurgião faz a marcação da área que será operada.
Nessa etapa, também são avaliados alergias, tempo de jejum, medicamentos em uso e possíveis riscos, como dificuldades respiratórias.
Pausa cirúrgica (Time Out)
Antes da primeira incisão, toda a equipe faz uma pausa para validar, em voz alta, as informações do paciente e da cirurgia. Os profissionais também apresentam suas funções, conferem o funcionamento dos equipamentos e a disponibilidade dos exames para consulta e discutem os possíveis momentos críticos do procedimento.
Saída (Sign Out)
A equipe registra o procedimento realizado, faz a contagem de instrumentos, compressas e agulhas, rotula os materiais enviados para análise, quando houver, e define os principais cuidados do pós-operatório.
O que acontece depois da cirurgia?
A assistência ao paciente inclui a fase pós-operatória imediata. “Na sala de recuperação pós-anestésica, a equipe monitora os sinais vitais, controla a dor e atua na prevenção de infecções e outras complicações”, detalha Lima.
Depois, já no quarto, a equipe acompanha a evolução clínica, revisa os resultados do procedimento e orienta o paciente e a família sobre os cuidados necessários em casa.
Quem faz parte da equipe cirúrgica?
A cirurgia envolve uma equipe multiprofissional que atua em conjunto pela segurança do paciente.
Dentro da sala:
- cirurgião;
- anestesista;
- enfermeiros;
- técnicos de enfermagem;
- instrumentadores cirúrgicos.
Fora da sala:
- profissionais do Centro de Material e Esterilização;
- farmacêuticos, que apoiam a segurança do uso de medicamentos;
- fisioterapeutas, envolvidos no preparo e na recuperação do paciente.
O anestesista fica o tempo todo comigo durante a cirurgia?
Sim. Segundo a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), além de administrar a anestesia, ele monitora funções como pressão arterial, batimentos cardíacos, respiração e temperatura, garantindo segurança e controle da dor ao longo do procedimento.
Ao final da cirurgia, o anestesista permanece ao lado do paciente até que ele esteja desperto, seguro e estável.
Preciso seguir todas as orientações da equipe cirúrgica?
Segundo o Manual de Orientações ao Paciente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), as recomendações da equipe são essenciais para reduzir riscos. E elas costumam gerar dúvidas:
Vou fazer uma cirurgia, posso beber água e comer?
Não, é preciso fazer jejum absoluto no tempo solicitado pelos profissionais de saúde. Durante a anestesia, os reflexos naturais que impedem a entrada de alimentos e líquidos nas vias respiratórias ficam temporariamente reduzidos. Seguir rigorosamente o tempo de jejum orientado diminui o risco de aspiração pulmonar — uma complicação grave que ocorre quando o conteúdo do estômago vai para os pulmões.
Vou fazer uma cirurgia, preciso tomar banho?
Sim, o banho antes da cirurgia ou a aplicação de lenços antissépticos no hospital ajudam a reduzir a quantidade de microrganismos na pele, diminuindo o risco de infecção no local da cirurgia.
Vou fazer uma cirurgia, posso pintar a unha?
Não. Esmalte e unhas postiças podem dificultar a monitorização da oxigenação durante o procedimento.
Vou fazer uma cirurgia, posso usar acessórios?
Não. Joias e relógios podem interferir na avaliação da circulação e causar lesões em caso de inchaço durante ou após a cirurgia.
Vou fazer uma cirurgia, posso tomar mounjaro e outros remédios?
Alguns medicamentos precisam ser suspensos ou ajustados antes da cirurgia. É o caso de alguns anticoagulantes, medicamentos para diabetes e para emagrecimento à base de agonistas do receptor GLP-1, como semaglutida e tirzepatida.
Essa indicação acontece para reduzir o risco de sangramento, evitar alterações na glicemia ou diminuir o risco de aspiração durante a anestesia, dependendo do medicamento.
Por isso, informe à equipe todos os medicamentos, vitaminas, suplementos e fitoterápicos (como chás naturais) que você utiliza e nunca interrompa um tratamento por conta própria.
Vou fazer cirurgia, posso tomar cerveja e outras bebidas alcoólicas?
Não, pois o uso de álcool antes de cirurgias está relacionado a uma série de complicações durante e depois do procedimento. O tempo exato de pausa deve ser definido com os profissionais de saúde que estão cuidando do seu caso.
Dá para controlar a ansiedade antes da cirurgia?
Existem estratégias que podem ajudar pacientes a passarem por esse momento com mais tranquilidade:
- conte com alguém de confiança: peça que um familiar ou amigo acompanhe sua internação e ofereça apoio durante esse momento;
- pense no benefício da cirurgia: em vez de focar apenas no procedimento, lembre-se do objetivo do tratamento, como aliviar um sintoma, recuperar movimentos ou retomar atividades do dia a dia;
- mantenha a mente ocupada: nos dias que antecedem a cirurgia, leia um livro, ouça mais música, assista a comédias ou pratique atividades que ajudem a desviar a atenção de pensamentos negativos;
- experimente técnicas de relaxamento: faça respirações lentas e profundas ou pratique o relaxamento muscular progressivo. A técnica consiste em contrair um grupo muscular por cerca de cinco segundos e, em seguida, relaxá-lo por cerca de dez segundos, repetindo o processo em diferentes partes do corpo.
O que não fazer antes de uma cirurgia
Estudos do Centro Nacional de Informação Biotecnológica dos Estados Unidos (NCBI) alertam sobre duas práticas comuns que parecem ajudar a relaxar, mas trazem riscos à segurança.
A primeira é o uso de sedativos para conseguir dormir na véspera da cirurgia. É fundamental avisar a equipe médica caso você tenha tomado algo por conta própria antes de chegar ao hospital.
O segundo alerta vai para o cigarro. A tendência de fumar mais para controlar a ansiedade é perigosa, pois o tabagismo aumenta os riscos de complicações e prejudica a cicatrização. A recomendação é interromper o hábito ou iniciar tratamentos de substituição de nicotina um a dois meses antes do procedimento.

