Na emergência, o melhor hospital costuma ser o mais próximo. Mas, quando existe tempo para escolher, como em uma cirurgia marcada ou em um parto, outros fatores também entram na conta.

Pergunte a alguém qual é o melhor hospital da cidade e a resposta costuma seguir o mesmo caminho: o prédio famoso que todo mundo conhece, o nome indicado na conversa do grupo da família ou aquele que fica a dez minutos de casa. Não é um mau começo, mas será que é suficiente?
A localização, a estrutura e as avaliações na internet podem pesar na escolha, mas dizem pouco, sozinhas, sobre a qualidade do cuidado que você vai receber. A escolha também depende do que você precisa, seja uma emergência, uma cirurgia eletiva ou um tratamento de longo prazo. Nesses casos, indicadores objetivos de qualidade e segurança ajudam a entender como o hospital cuida dos pacientes.
Muitos desses dados são públicos e qualquer pessoa pode consultar. O que falta, na maior parte das vezes, é saber que eles existem e como interpretá-los sem se perder.
A Anahp, associação que reúne os principais hospitais privados do país, é uma das referências nesse acompanhamento: padroniza e divulga dados de qualidade e segurança dos hospitais associados.
E quando não dá tempo de escolher?
“Nem sempre é possível escolher. Em situações de urgência e emergência, a prioridade é chegar rapidamente a um serviço capaz de prestar o primeiro atendimento, estabilizar o paciente e, se necessário, encaminhá-lo para uma unidade especializada. Nesses casos, o tempo também faz parte do cuidado“, explica Keila Amaral, gerente do Núcleo de Estudos e Análises (NEA) da Anahp.
Em casos como infarto, AVC ou acidentes, a orientação é procurar o serviço de urgência mais próximo ou ligar para o SAMU, no 192.
Quando faz sentido pesquisar antes?
Sempre que houver tempo para escolher o hospital antes do atendimento. Alguns exemplos:
- Cirurgias eletivas: procedimentos programados com antecedência, como cirurgia de vesícula, prótese de joelho ou bariátrica;
- Parto: que costuma envolver meses de preparação;
- Tratamento oncológico: que pode exigir uma relação prolongada com a instituição;
- Reabilitação: após um AVC, um trauma ou uma cirurgia ortopédica;
- Acompanhamento de condições crônicas: quando a pessoa precisará retornar à mesma instituição muitas vezes ao longo dos anos.
Nesses casos, a pergunta deixa de ser qual hospital fica mais perto e passa a ser: qual está mais preparado para atender às suas necessidades?
Como saber se um hospital é bom antes de precisar dele?
Comece entendendo o que a instituição oferece e como ela trabalha. Quatro pontos ajudam a orientar a pesquisa:
1. Acreditação: é uma avaliação feita por uma organização independente para verificar se o hospital segue padrões de qualidade e segurança do paciente. Entre os aspectos avaliados estão a prevenção de infecções e quedas, o uso seguro de medicamentos e a identificação correta dos pacientes. A acreditação tem validade e o hospital passa por novas avaliações para mantê-la.
Ter uma acreditação não significa que erros nunca vão acontecer. Significa que o hospital segue padrões e processos voltados para oferecer um atendimento mais seguro e para prevenir e tratar possíveis falhas.
No Brasil, algumas das organizações de acreditação mais conhecidas são a ONA (Organização Nacional de Acreditação), cujo nível mais alto é o de Excelência, e as internacionais JCI (Joint Commission International) e Qmentum (Accreditation Canada).
2. Infraestrutura e especialidades disponíveis: quais equipamentos e serviços o hospital oferece, quantos leitos tem, se conta com UTI e pronto-socorro e se dispõe das especialidades necessárias para o seu caso.
3. Transparência em custos e cobertura: quais planos de saúde o hospital aceita, o que está incluído no procedimento e se há custos adicionais. Perguntar antes ajuda a evitar surpresas depois da alta.
4. Indicadores de qualidade e segurança: dados como taxas de infecção, mortalidade por procedimento, tempo médio de espera e satisfação dos pacientes. Eles ajudam a conhecer diferentes aspectos do cuidado e serão explicados em detalhes mais adiante.
O que são indicadores de qualidade hospitalar?
“Um indicador é um termômetro sobre algo que precisa ser medido”, explica Keila.
Um exemplo que todo mundo conhece é a pesagem. Desde o nascimento, o peso pode ser acompanhado ao longo do tempo e, quando analisado junto com outros dados, ajuda a entender como a pessoa está se desenvolvendo. No hospital, a lógica é parecida.
Um indicador é um número que a instituição mede de forma padronizada e acompanha ao longo do tempo. E “padronizada” é a palavra importante: os hospitais que participam de um mesmo programa calculam aquele número seguindo a mesma regra. Isso permite acompanhar a evolução dos resultados e fazer comparações entre instituições de perfil semelhante.
Para o hospital, esses números ajudam a identificar o que precisa melhorar. Para você, funcionam como um indicativo de como aquela instituição trabalha.
Quais indicadores hospitalares observar e o que cada um conta
Os hospitais acompanham diversos indicadores. Cinco deles ajudam pacientes e familiares a entender diferentes aspectos da qualidade do cuidado:
Média de permanência geral: é o tempo médio, em dias, que as pessoas ficam internadas. Uma internação mais longa pode indicar que o hospital atende casos mais graves ou que existem pontos a melhorar na organização de exames, tratamentos e liberação da alta com segurança.
Taxa de infecção após cirurgias limpas: cirurgias limpas são procedimentos realizados em tecidos que, em condições normais, não apresentam sinais de infecção ou contaminação, como por exemplo, uma cirurgia cardíaca ou ortopédica. A taxa ajuda a acompanhar a ocorrência de infecções após esses procedimentos e pode indicar como estão funcionando medidas de prevenção, como a esterilização de materiais e a limpeza das salas cirúrgicas.
Taxa de reinternação em até 30 dias: mostra a proporção de pacientes que precisaram ser internados novamente em até 30 dias após a alta. O indicador ajuda a acompanhar os resultados do cuidado após a internação, mas deve ser analisado considerando o perfil dos pacientes e os motivos que levaram à nova internação.
Taxa de parto cesárea: mostra a proporção de cesarianas em relação ao total de partos realizados pela instituição. Esse dado precisa ser analisado considerando o perfil das gestantes atendidas e as condições clínicas de cada caso. Por isso, uma taxa isolada não permite concluir se o hospital realiza mais ou menos cesarianas do que deveria.
Taxa de mortalidade: mostra a proporção de pacientes que morreram durante a internação, de acordo com os critérios definidos para o indicador. É um dado importante para acompanhar a qualidade e a segurança do cuidado, mas exige atenção na interpretação: hospitais que atendem pacientes mais graves ou casos mais complexos podem apresentar taxas diferentes de instituições com outro perfil de atendimento.
Cuidado na hora de olhar indicadores hospitalares
Nenhum indicador conta toda a história sozinho. Por isso, olhar um número sem considerar o contexto pode levar a conclusões equivocadas.
Os hospitais atendem pacientes com perfis e níveis de complexidade diferentes. Uma instituição que recebe mais pacientes em estado grave ou casos mais complexos pode apresentar resultados diferentes de outra que atende casos menos complexos. Essa diferença precisa ser considerada ao analisar os dados.
Por isso, ao comparar hospitais, procure instituições com perfil e porte semelhantes. Uma maternidade, por exemplo, deve ser comparada com outra maternidade de perfil semelhante.
Também vale observar o comportamento dos indicadores ao longo do tempo. Mais do que olhar um resultado isolado, veja se o número vem aumentando, diminuindo ou oscilando. Essa evolução ajuda a entender melhor o que os dados mostram.
E o mais importante: não transforme os indicadores em um ranking.
Eles são ferramentas para ajudar na decisão e devem ser considerados junto com outros fatores, como a especialidade de que você precisa, a cobertura do seu plano de saúde e a equipe que vai cuidar de você.
O que perguntar ao médico antes de escolher o hospital?
Comece entendendo a recomendação: em quais hospitais o médico opera e por que indica aquele hospital para o seu caso? Também vale saber quantos procedimentos como o seu a equipe realiza por ano, já que a experiência com esse tipo de cirurgia é um fator importante a considerar.
Por fim, pergunte quantos dias de internação são esperados e como funciona o acompanhamento depois da alta. Essas informações ajudam você e sua família a se organizarem com antecedência.
Se quiser conhecer melhor o hospital, veja se a instituição divulga, em seu site, seus indicadores de qualidade, resultados e acreditações, orienta Keila.
Onde encontrar indicadores hospitalares?
Para ajudar na escolha de um hospital, essas informações precisam estar disponíveis para consulta pública.
O Programa de Transparência da Anahp já reúne 73 hospitais associados que divulgam seus dados assistenciais, ampliando o acesso da sociedade a informações sobre qualidade e segurança do cuidado. Os dados seguem critérios técnicos padronizados pela Anahp e são validados pelas próprias instituições participantes.
No site, é possível consultar as taxas que você viu aqui, entender como cada uma é calculada e acompanhar sua evolução ao longo do tempo. Os resultados também podem ajudar na comparação entre instituições de perfil semelhante, sempre considerando o contexto de cada hospital.
Acesse o Programa de Transparência Anahp e conheça os indicadores dos hospitais participantes:

