O que define valor no cuidado à sepse? Especialistas discutiram a relação entre desfechos, experiência do paciente e uso dos recursos na prática assistencial.
Na última terça-feira (15), a Anahp realizou mais uma edição do Café da Manhã Anahp, desta vez em parceria com a BD. O encontro discutiu como o conceito de Valor em Saúde pode ser aplicado à prática assistencial, com foco na jornada do paciente com sepse, na prevenção de infecções e nas decisões relacionadas ao acesso vascular.
Participaram do encontro:
- Dr. Marco Antonio Cyrillo, infectologista nos hospitais HSPM e IGESP e ex-diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia;
- Renata Pareschi, coordenadora do Escritório de Valor e Equipe Multidisciplinar do Hospital Christóvão da Gama;
- Dr. Marlus Volney De Morais, médico cirurgião e diretor executivo da Unimed Curitiba.
Principais pontos:
Valor em saúde e desfechos
Ao apresentar a experiência do Hospital Christóvão da Gama, Renata Pareschi lembrou que o valor em saúde considera a relação entre os resultados que importam para o paciente e os recursos utilizados para alcançá-los.
Isso exige olhar além dos indicadores tradicionais de processo. Tempo de permanência, custos, materiais e medicamentos continuam relevantes, mas não mostram, sozinhos, se o paciente efetivamente melhorou:
“Se a gente gasta menos, mas o paciente piora, isso não é valor”.
No Hospital Christóvão da Gama, o Escritório de Valor acompanha dez linhas de cuidado, entre elas, a de sepse. O acompanhamento combina:
- indicadores de processo, como tempo para antibiótico, coleta de lactato e hemocultura;
- desfechos clínicos, para avaliar a evolução do paciente;
- experiência do paciente, inclusive após a alta;
- uso dos recursos, para avaliar eficiência e reduzir desperdícios.
Marlus Volney De Morais trouxe a perspectiva da operadora. Para ele, eficiência não significa simplesmente gastar menos. Medicamentos, equipamentos ou tecnologias de maior custo podem representar um investimento quando contribuem para melhores resultados.
A linha de cuidado da sepse
Entre janeiro e agosto de 2026, o Hospital Christóvão da Gama apresentou os seguintes resultados:
- 305 protocolos de sepse abertos;
- 111 casos confirmados;
- 20 casos de choque séptico;
- 8,8 dias de mediana de permanência;
- 96% de administração do antibiótico em menos de uma hora;
- 97% de coleta de lactato em menos de uma hora;
- 97% de coleta de hemocultura antes do antibiótico;
- 83% de adesão ao pacote de seis horas.
O acompanhamento continua depois da internação. Desde 2022, a linha de cuidado acompanha pacientes e já contabiliza 499 pacientes.
Entre os indicadores apresentados estão:
- 1,9% de reinternação em até 30 dias;
- nota média de 60 para a percepção da própria saúde no início do acompanhamento;
- aumento de 33% na avaliação da própria saúde após um ano.
Os dados ampliam a análise para uma questão que os indicadores hospitalares, sozinhos, não respondem: como o paciente está vivendo depois da sepse.
Resistência bacteriana e prevenção de infecções
Marco Antonio Cyrillo abordou a resistência aos antimicrobianos e as infecções relacionadas à assistência. Entre os pontos destacados para a rotina hospitalar estão:
- uso racional de antibióticos;
- diagnóstico e tratamento no tempo adequado;
- higiene das mãos e controle de infecções;
- cuidados com cateteres e outros dispositivos;
- qualidade dos equipamentos, curativos e insumos utilizados.
Na sepse, atrasos na identificação do quadro e no início do tratamento podem alterar o desfecho do paciente.
Cyrillo apresentou ainda a experiência de um hospital público participante de um projeto de melhoria assistencial. Em dois anos, segundo os dados apresentados:
- cerca de 28 infecções foram evitadas;
- a economia estimada chegou a R$ 1,4 milhão;
- o resultado equivaleu a aproximadamente R$ 700 mil por ano.
Gastar menos em um insumo isoladamente não representa necessariamente economia se a decisão puder ampliar o risco de complicações, prolongar a internação ou exigir novos procedimentos.
Acesso vascular
Na jornada do paciente com sepse, o acesso vascular influencia diretamente o início e a continuidade do tratamento.
Segundo Renata, a escolha precisa considerar:
- tipo e duração da terapia;
- anatomia e saúde vascular do paciente;
- comorbidades;
- histórico de acessos;
- riscos associados ao dispositivo;
- preferências e necessidades do paciente.
Por isso, o preço do cateter representa apenas uma parte da decisão. O custo total também envolve inserção, manutenção, curativos, tempo da equipe, possíveis complicações, novas punções e eventuais atrasos no tratamento.
Uma revisão apresentada por Renata, publicada em 2024, analisou quase 480 mil cateteres periféricos e identificou falhas antes do término da terapia em 36% dos casos.
Uma falha pode significar nova punção, mais dor e desconforto, maior demanda da equipe e aumento do risco de complicações.
Para avaliar o valor entregue pelo acesso vascular, a apresentação propôs observar quatro dimensões:
- desfecho clínico: infecção, trombose, extravasamento, falha ou troca precoce;
- experiência do paciente: número de punções, dor, conforto, mobilidade e satisfação;
- eficiência: tempo até o acesso efetivo, início da terapia e tempo utilizado pela equipe;
- impacto econômico: dispositivo, manutenção, complicações e repercussões sobre a internação.
Experiência do paciente
Marlus mostrou que um bom resultado clínico não garante, por si só, uma boa experiência.
Em um caso apresentado durante o encontro, uma paciente teve procedimento bem-sucedido e recuperação sem sequelas, mas encontrou problemas em diferentes etapas da jornada:
- espera para autorização;
- falha na identificação durante a internação;
- situações de pouca interação com a equipe;
- problemas de conforto durante a permanência no hospital;
- alta sem a avaliação que ela esperava naquele momento.
O desfecho clínico foi considerado positivo pela própria paciente. Sua percepção sobre partes do atendimento, porém, foi negativa.
O caso mostrou a importância de acompanhar separadamente resultado clínico, experiência e percepção do paciente ao longo da jornada.
Processos e custo total do cuidado
Marlus também chamou atenção para decisões administrativas que podem produzir custos em outras etapas.
Ele relatou situações em que pacientes com condição de seguir para o cuidado domiciliar permaneciam internados durante sete, oito ou dez dias à espera da autorização de um material já negociado. Nesse caso, a tentativa de obter uma pequena redução no preço do item prolongava a internação e gerava impacto em outras etapas do cuidado.
A discussão reforçou que reduzir desperdícios não significa cortar todo tipo de gasto. Algumas despesas são necessárias para evitar complicações e melhorar os resultados.
Prioridades para a gestão hospitalar
Os casos apresentados deixaram alguns pontos para a gestão das instituições:
- acompanhar desfechos, e não apenas a execução dos protocolos;
- seguir o paciente depois da alta, quando a linha de cuidado exigir;
- avaliar o custo total, e não somente o preço unitário de medicamentos, materiais ou dispositivos;
- prevenir complicações evitáveis, com protocolos, treinamento e escolha adequada dos recursos assistenciais;
- medir a experiência do paciente junto aos resultados clínicos;
- reduzir desperdícios sem comprometer investimentos necessários ao cuidado.
Protocolos, antimicrobianos, acesso vascular, processos de autorização e acompanhamento após a alta interferem em momentos diferentes da jornada. O conceito de valor ajuda a reunir essas decisões em torno dos resultados obtidos pelo paciente e dos recursos necessários para alcançá-los.