Na última terça-feira (8), a Anahp realizou mais uma edição do Café da Manhã Anahp, desta vez em parceria com a Bionexo Tasy. O encontro discutiu os impactos da fragmentação tecnológica nas instituições de saúde e como a interoperabilidade pode conectar dados, processos e áreas ao longo da jornada hospitalar.
A apresentação abordou diferentes etapas da operação hospitalar, da cadeia de suprimentos ao ciclo da receita, mostrando como a fragmentação pode gerar redigitação, validações manuais, informações isoladas e glosas.
E discutiu soluções para integrar melhor esses fluxos, destacando a arquitetura tecnológica, a governança, a automação e o uso de inteligência artificial.
Palestrante:
- Rodrigo Campos, diretor de Produtos na Bionexo Tasy.
Principais pontos:
Fragmentação e integração dos sistemas
A fragmentação aparece principalmente nas transições entre sistemas, etapas e áreas, quando a informação deixa de acompanhar a jornada e passa a depender de planilhas, conferências, validações manuais e redigitações.
Isso pode acontecer em diferentes pontos:
- suprimentos: entre necessidade de compra, pedido, entrega e recebimento;
- assistência: entre consumo, registros e acompanhamento do paciente;
- ciclo da receita: entre autorização, conta, validação e faturamento.
Quando essas transições não funcionam bem, surgem informações isoladas, retrabalho e decisões tardias. Entre os impactos discutidos estão maior tempo operacional, sobrecarga das equipes, riscos assistenciais, compras emergenciais, atrasos, glosas e perda de previsibilidade.
Para Rodrigo, digitalizar diferentes etapas não significa necessariamente integrar a jornada. O desenho da integração precisa considerar o fluxo completo, fazendo com que o dado acompanhe o processo na passagem entre áreas e sistemas.
Impactos no ciclo da receita
No ciclo da receita, uma falha ocorrida no início do atendimento pode ser percebida somente semanas depois. Um problema de elegibilidade, autorização ou documentação, por exemplo, pode aparecer apenas no faturamento, no demonstrativo de pagamento ou no recurso de glosa.
Rodrigo tratou a glosa como um sintoma tardio de problemas que podem ter surgido muito antes. Identificar essas inconsistências mais cedo amplia a possibilidade de correção antes do envio da conta à operadora.
Suprimentos, assistência e receita
A apresentação mostrou que três grandes jornadas se cruzam ao longo da operação:
- suprimentos: planejamento, compra, acompanhamento dos fornecedores, entrega e recebimento;
- assistência: utilização e registro de materiais, medicamentos e procedimentos;
- receita: elegibilidade, autorização, acompanhamento da conta, validação, faturamento e monitoramento.
Um material de alto custo ajuda a visualizar essa relação. Ele envolve planejamento e compra, acompanhamento do fornecedor, recebimento e rastreabilidade. Depois de utilizado na assistência, precisa ser registrado corretamente e chegar à conta do paciente para seguir para o faturamento.
A continuidade das informações entre essas etapas reduz intervenções manuais e permite identificar problemas antes que cheguem ao fim da jornada.
Arquitetura tecnológica e governança
A integração não exige necessariamente a substituição dos sistemas já utilizados pelas instituições. Parte do desafio está em construir uma arquitetura capaz de conectar soluções novas e legadas e permitir que esse ecossistema evolua ao longo do tempo.
Rodrigo organizou essa estrutura em três camadas:
- operação, onde estão os processos e dados utilizados no dia a dia;
- integração, responsável pela conexão entre as diferentes soluções;
- governança, que define segurança, acessos, rastreabilidade e tratamento das exceções.
As conexões podem ocorrer por APIs, padrões de mercado e, em situações nas quais não há outra interface disponível, por automações como RPAs.
Na governança, alguns pontos precisam estar claramente definidos:
- quem pode acessar cada informação;
- quais dados podem ser compartilhados;
- como os acessos são rastreados;
- como falhas e exceções serão tratadas;
- como novas soluções poderão ser incorporadas.
Automação e inteligência artificial
A automação foi apresentada como uma forma de reduzir tarefas repetitivas e direcionar a atenção das equipes para as exceções. Com processos integrados, uma pendência pode ser identificada antes de resultar em falta de estoque, atraso no faturamento ou glosa.
A inteligência artificial segue essa lógica. Entre os exemplos discutidos estão a análise de históricos de consumo e estoque para apoiar o planejamento de compras e a identificação de exceções que exigem intervenção.
Rodrigo defendeu que essas ferramentas estejam incorporadas à própria jornada de trabalho, oferecendo informação no momento em que o profissional precisa tomar uma decisão, em vez de funcionarem como soluções isoladas.
Prioridades para a gestão hospitalar
A discussão destacou alguns pontos para instituições que estão revendo seus processos e sua arquitetura tecnológica:
- mapear as jornadas de ponta a ponta, incluindo as transições entre áreas e sistemas;
- reduzir etapas manuais, como redigitações, planilhas e conferências;
- integrar suprimentos, assistência e receita, considerando as dependências entre esses fluxos;
- definir regras de governança, com controle de acesso, rastreabilidade e tratamento de exceções;
- usar automação e IA para antecipar problemas e apoiar decisões.
A interoperabilidade vai além da conexão técnica entre sistemas. O objetivo é preservar o contexto das informações ao longo da jornada, para que processos, dados e decisões permaneçam conectados mesmo quando o fluxo atravessa diferentes áreas e tecnologias.