Integridade, segurança assistencial e acreditação marcam segundo dia da 5ª Semana de Compliance Anahp

Da seleção e do acompanhamento dos profissionais que participam do cuidado à conexão entre compliance, acreditação e qualidade hospitalar. O segundo dia da 5ª Semana de Compliance Anahp, realizado nesta quinta-feira (27), aproximou a agenda de integridade da prática assistencial e da governança dos hospitais.

Na abertura, a gerente de Compliance da Anahp, Vivian Sueiro, destacou a integração entre as práticas de compliance, os princípios éticos e bioéticos e a própria assistência.

Adriano Londres, membro do Conselho de Ética da Associação, também ressaltou a evolução dessa agenda ao longo dos últimos anos, com iniciativas como o Código de Ética, o Selo de Excelência Anahp – Compliance e, mais recentemente, o Programa de Transparência.

Para Londres, esse processo deve ser entendido como uma construção contínua, na qual a Anahp atua como indutora de boas práticas, com uma abordagem voltada ao aprendizado e ao aprimoramento. Ele também homenageou José Henrique Germann, que integrou o Conselho de Ética da Associação, lembrando sua defesa da ética como prática cotidiana e seu legado para a saúde.

Integridade desde a entrada

O primeiro painel, “Integridade desde a origem: por que o cadastro profissional robusto é essencial para prevenir riscos e fortalecer a governança corporativa e clínica?”, reuniu:

  • Andreia Fernandez, executiva de Gestão de Riscos, Controles Internos, Compliance e Privacidade de Dados do A.C.Camargo Cancer Center;
  • Felipe Kietzmann, diretor de Políticas Globais de Compliance na Gilead Sciences, membro do Conselho da Medfy e fellow do CBEXS.

O ponto central da discussão foi que o risco clínico não começa necessariamente no centro cirúrgico, na UTI ou durante um procedimento. Ele pode surgir antes, na definição de quem entra na instituição, presta serviços em seu nome e participa do cuidado ao paciente.

Em um ambiente que reúne profissionais contratados, autônomos, pessoas jurídicas, terceiros, empresas médicas e outros prestadores, avaliar apenas a competência técnica não é suficiente. O processo também precisa considerar integridade, requisitos regulatórios, comportamento ético e outros riscos relacionados à atuação profissional.

Por isso, o credenciamento foi apresentado como parte da estratégia de proteção do paciente e da própria instituição.

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A segurança assistencial começa antes do atendimento

Selecionar, qualificar e acompanhar os profissionais que participam do cuidado faz parte da gestão de riscos e da governança clínica.

Credenciar e acompanhar

Existe uma diferença importante entre permitir a entrada de um profissional e fazer a gestão de sua permanência na instituição. Informações avaliadas no credenciamento podem mudar ao longo do tempo.

O acompanhamento pode considerar, por exemplo:

  • manutenção das qualificações e dos requisitos profissionais;
  • processos éticos ou outras ocorrências surgidas após o ingresso;
  • conflitos de interesse;
  • mudanças em empresas prestadoras;
  • aderência aos padrões e protocolos da instituição.

Eventos adversos, fraudes e outros problemas também raramente têm uma única origem. Em muitos casos, resultam de uma combinação de fragilidades, o que reforça a importância de acompanhar aspectos assistenciais, regulatórios, éticos e de integridade ao longo da permanência do profissional na instituição.

Credenciamento e monitoramento, portanto, fazem parte de um mesmo processo. Essa visão também aproxima temas muitas vezes tratados separadamente, como risco clínico, fraude, qualidade assistencial e compliance.

O credenciamento além da burocracia

O credenciamento produz efeitos em diferentes dimensões da organização. Além dos aspectos legais e regulatórios, estão envolvidos governança clínica, gestão de riscos, qualidade e segurança assistencial e a própria relação do hospital com seu corpo clínico.

A análise começa pelas qualificações e pela regularidade do profissional, mas pode avançar para a definição dos privilégios clínicos — quais atividades e procedimentos ele está autorizado a realizar de acordo com sua especialidade, experiência e qualificações.

A partir dessa visão mais ampla, a gestão do corpo clínico também pode envolver comunicação, educação continuada, acompanhamento de indicadores e critérios diferentes conforme o vínculo, o perfil e a área de atuação do profissional.

Monitoramento contínuo

Parte dessas verificações precisa continuar depois do credenciamento e a tecnologia pode ajudar a organizar informações, automatizar consultas e permitir que diferentes áreas acompanhem alterações relevantes ao longo do tempo.

Para organizações que ainda estão estruturando esse processo, alguns primeiros passos apontados foram:

  • qualificar adequadamente o profissional;
  • definir os privilégios clínicos;
  • formalizar a adesão ao Código de Conduta e aos protocolos aplicáveis;
  • registrar potenciais conflitos de interesse.

O trabalho também depende da integração entre áreas e do apoio da liderança. Compliance, diretoria clínica, qualidade, gestão de riscos e outras estruturas do hospital podem reunir informações diferentes sobre os mesmos profissionais.

Construir aliados, compartilhar informações com transparência e deixar claro o propósito dessas verificações ajuda a transformar o compliance em uma agenda de prevenção que alcança diferentes áreas, níveis e relações da organização.

Qualidade e integridade

O segundo painel, “Excelência e Integridade: como os processos de compliance se conectam com a acreditação hospitalar e elevam os padrões de qualidade”, reuniu:

  • Camilla Covello, membro do Conselho da ISQua e cofundadora da QGA;
  • José Henrique Salvador, CEO da Rede Mater Dei de Saúde.

A conversa partiu da aproximação entre duas agendas que durante muito tempo foram tratadas separadamente. Qualidade hospitalar costumava estar mais associada a protocolos, indicadores, segurança do paciente e acreditação. Hoje, as avaliações também avançam sobre governança, gestão de riscos, transparência, ética, cultura organizacional e proteção de dados.

Essa mudança acompanha uma compreensão mais sistêmica das falhas, em que um problema nem sempre decorre apenas da ausência ou do descumprimento de um protocolo.

Comunicação, responsabilização, conflitos de interesse e a forma como a organização toma decisões também interferem nos resultados. Por isso, a integridade passou a fazer parte da discussão sobre excelência hospitalar.

Da conformidade à prática

O atendimento aos requisitos continua necessário, mas a acreditação vem ampliando o olhar sobre a efetividade dos processos.

A pergunta deixa de ser apenas se determinada política ou estrutura existe e passa a incluir se ela funciona na prática.

Nesse sentido, documentos demonstram intenção. A prática consistente é que mostra se os padrões foram efetivamente incorporados à organização. Essa integração também precisa aparecer para quem está na ponta.

O paciente não vivencia separadamente qualidade, compliance, governança ou acreditação: ele percebe o resultado desse conjunto na segurança, na qualidade e na experiência do cuidado.

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O padrão precisa funcionar todos os dias

Qualidade e integridade se consolidam quando deixam de depender do momento da avaliação e passam a fazer parte da cultura e das decisões da instituição.

José Henrique apresentou a experiência da Rede Mater Dei, onde qualidade, padronização e compliance participam conjuntamente das discussões estratégicas.

Para ele, a acreditação não deve levar o hospital a produzir processos apenas para atender à avaliação externa. Os padrões precisam ser incorporados à rotina e fazer sentido para quem os executa.

Governança e cultura

A integração entre qualidade e compliance também depende da posição que essas agendas ocupam dentro da governança. José Henrique destacou a importância de manter compliance e auditoria próximos dos espaços de decisão e conectados aos objetivos de longo prazo da organização.

Camilla acrescentou que maturidade institucional não significa ausência de problemas. Ela aparece na capacidade de identificar, comunicar, discutir e tratar falhas e riscos, aprendendo com eles.

Para isso, é importante criar um ambiente em que as pessoas possam relatar problemas sem medo e no qual a resposta tenha também um caráter educativo, em vez de ser guiada apenas pela punição.

Essa lógica também alcança profissionais e serviços terceirizados. Independentemente do vínculo, quem atua dentro da instituição precisa estar inserido nos padrões de qualidade e integridade definidos pelo hospital, com critérios de seleção, orientação, treinamento e acompanhamento.

O que muda na acreditação

Para os próximos ciclos, Camilla apontou uma tendência de menor dependência de evidências apenas formais e maior atenção à capacidade das instituições de:

  • aprender com os processos e problemas;
  • antecipar riscos;
  • demonstrar resultados;
  • sustentar as melhorias ao longo do tempo.

Também devem ganhar espaço temas como cultura de segurança, governança, dados, inteligência artificial e participação do paciente. A questão central deixa de ser apenas se determinado processo existe e passa a incluir se ele funciona, gera resultado e consegue se manter.

O debate também mostrou que diferentes metodologias de acreditação podem oferecer referências complementares. Na experiência apresentada pela Rede Mater Dei, aprendizados de diferentes modelos são incorporados ao padrão institucional e compartilhados entre as unidades.

Para José Henrique, compliance e integridade formam a base sobre a qual também se sustentam qualidade, segurança e perenidade. Uma estrutura íntegra contribui para preservar os resultados operacionais, financeiros e assistenciais no longo prazo.

Integração e confiança

Ao encerrar a 5ª Semana de Compliance, Vivian Sueiro destacou integração e confiança como ideias que atravessaram os dois dias de debates.

Os temas discutidos devem alimentar novas conversas no GT de Compliance e apoiar hospitais e profissionais na aproximação entre integridade, governança e as diferentes áreas da organização.

Assista na íntegra:

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