Ao longo de seus 25 anos, a Anahp acompanhou transformações profundas na gestão hospitalar, na incorporação de tecnologias e na organização do sistema de saúde brasileiro. A interoperabilidade reúne muitos desses desafios em uma agenda única que busca integrar informações, ampliar a coordenação do cuidado e criar as bases para uma saúde cada vez mais conectada.
Esse tema abriu a Jornada Digital Anahp de junho, que aborda Tecnologia e Inovação Digital. O encontro reuniu representantes do Ministério da Saúde, da iniciativa privada e entidades do setor para discutir os avanços conquistados nos últimos anos e os próximos passos necessários para que a interoperabilidade ganhe escala no país.
Participaram do debate:
- Carlos Pedrotti, presidente da Saúde Digital Brasil (SDB)
- Leandro Manassi Panitz, coordenador-geral de Gestão da Informação Estratégica do Ministério da Saúde
- Marco Bego, diretor-executivo do InovaHC & InRad
- Paulo Eduardo Sellera, diretor do Departamento de Monitoramento, Avaliação e Disseminação de Informações Estratégicas em Saúde (DEMAS)
- Marco Aurélio Ferreira, diretor de Relações Governamentais da Anahp (moderação)
Confira os principais pontos:
O desafio agora é construir consenso
A interoperabilidade deixou de ser uma discussão sobre capacidade tecnológica. Os sistemas evoluíram, padrões foram consolidados e a infraestrutura começou a ganhar escala. O desafio agora está na coordenação entre os diferentes atores do setor.
Os participantes destacaram o que precisa avançar:
- Governança para o compartilhamento de informações
- Definição de responsabilidades sobre os dados
- Segurança jurídica para os envolvidos
- Participação dos diferentes segmentos do setor
- Padronização nacional de processos e informações
“Não é só um problema tecnológico. É um problema de alinhamento de processo de trabalho no território nacional” – Paulo Eduardo Sellera
A interoperabilidade começa a ganhar escala
Os representantes do Ministério da Saúde apresentaram avanços que mostram a evolução da estratégia nacional de saúde digital. A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) vem ampliando sua capacidade de integração e consolidando uma infraestrutura capaz de conectar informações produzidas em diferentes pontos da rede assistencial.
Números apresentados durante o encontro:
- 4,7 bilhões de registros armazenados na RNDS
- Crescimento superior a 500% desde 2022
- Mais de 3.500 municípios enviando dados de regulação assistencial
- Todos os estados integrados à rede
“Não estamos falando apenas de conectar sistemas. Estamos falando de conectar a jornada do paciente no território” – Paulo Eduardo Sellera
A informação precisa acompanhar o paciente
Um dos temas mais recorrentes do debate foi a mudança na forma de enxergar os dados em saúde. Durante muitos anos, os esforços de integração estiveram concentrados em faturamento, regulação e processos administrativos. A interoperabilidade amplia esse horizonte ao incorporar informações clínicas que apoiam a continuidade do cuidado.
Essa evolução abre espaço para:
- Melhor coordenação assistencial
- Menos retrabalho
- Redução de exames e procedimentos duplicados
- Mais segurança para profissionais e pacientes
- Decisões clínicas mais qualificadas
“A informação é do paciente. Ele precisa dessa informação para transitar pelo sistema de saúde como um todo” – Leandro Manassi Panitz
Os participantes reforçaram que o valor da interoperabilidade está diretamente ligado à capacidade de fazer a informação circular onde ela é necessária.
“O cuidado deixa de ser exclusivamente reativo e viabiliza a possibilidade de um acompanhamento mais longitudinal, proativo e preventivo”– Carlos Pedrotti
Dados de qualidade geram valor
À medida que sistemas passam a compartilhar registros clínicos, cresce a necessidade de garantir consistência, padronização e confiabilidade das informações. Dados incompletos ou inconsistentes comprometem análises, dificultam a continuidade do cuidado e reduzem o valor gerado pelo compartilhamento.
“Um dado compartilhado sem critérios adequados de qualidade pode virar ruído para o sistema” – Carlos Pedrotti
Nesse contexto, ganham relevância temas como:
- Qualificação dos registros clínicos
- Padronização de terminologias
- Identificação correta dos pacientes
- Consistência das bases de dados
- Evolução da interoperabilidade semântica
A discussão sobre interoperabilidade semântica apareceu como uma das agendas mais importantes para os próximos anos, especialmente diante do avanço de ferramentas analíticas e inteligência artificial.
A convergência entre os setores abre uma nova etapa
A tramitação do projeto de lei sobre interoperabilidade em saúde ocupou parte importante da discussão. Embora o tema esteja em debate há mais de uma década, os participantes destacaram uma aproximação crescente entre governo, prestadores de serviços, operadoras, entidades representativas e empresas de tecnologia.
“Hoje estamos mais próximos de um consenso do que já estivemos no passado”– Marco Bego
Na avaliação dos debatedores, essa convergência será fundamental para acelerar a implementação da interoperabilidade e ampliar seus benefícios para todo o sistema de saúde.
O que precisa avançar nos próximos cinco anos
Ao discutir os próximos passos dessa transformação, os debatedores destacaram a necessidade de avançar em temas que ainda exigem alinhamento entre os diferentes segmentos do setor, especialmente na definição de padrões, terminologias e modelos capazes de garantir maior consistência na troca e no uso das informações.
“A gente vai precisar consensuar coisas que ainda estão em aberto.” – Leandro Manassi Panitz
Entre os temas destacados estiveram:
- Consolidação do sumário do paciente
- Implementação do sumário de alta hospitalar
- Harmonização de terminologias e vocabulários clínicos
- Definição de regras mínimas para ampliar o compartilhamento de informações
- Consolidação de padrões e terminologias nacionais
- Ampliação da adoção de padrões internacionais
- Aprovação do marco legal da interoperabilidade
As prioridades refletem a evolução da agenda. O foco agora está em acelerar a implementação da interoperabilidade e ampliar sua capacidade de gerar valor para pacientes, profissionais e organizações.
Uma agenda que já começou
A interoperabilidade já faz parte da transformação digital em curso no sistema de saúde brasileiro. A expansão da RNDS, o avanço das estratégias de saúde digital, o amadurecimento das discussões regulatórias e a aproximação entre os diferentes segmentos do setor mostram que a agenda está em movimento.
Os desafios permanecem relevantes, mas o debate mostrou que a interoperabilidade entrou em uma nova fase. A combinação entre infraestrutura, padrões nacionais, amadurecimento regulatório e maior aproximação entre os diferentes atores do setor cria um ambiente mais favorável para ampliar a integração dos dados e fortalecer a jornada do paciente.