Acesso vascular: uma escolha que impacta toda a jornada oncológica

A definição do acesso adequado pode impactar a segurança, os custos, a qualidade de vida e a continuidade do tratamento ao longo de toda a jornada do paciente.

No dia 21 de julho, a Anahp realizou mais uma edição do Café da Manhã, desta vez em parceria com a BD, empresa global de tecnologia médica, para discutir o acesso vascular de pacientes oncológicos, inclusive em procedimentos que exigem infusão de alto fluxo.

O encontro abordou as limitações do acesso venoso periférico, os critérios para a escolha entre diferentes cateteres e os impactos dessas decisões na segurança, nos custos e na qualidade de vida.

O debate reuniu:

José Luiz Gasparini Jr., enfermeiro com atuação em Ensino, Pesquisa e Assistência Oncológica no A.C.Camargo Cancer Center

Helena Ciavatta, especialista de Marketing Clínico em Oncologia da BD Brasil

Principais pontos:

O acesso vascular faz parte do tratamento

Na oncologia, o acesso venoso acompanha o paciente desde o diagnóstico ao longo de todo o acompanhamento clínico. Por meio dele, podem ser administrados medicamentos e hemocomponentes, além de realizadas coletas de sangue e exames com contraste.

A escolha do dispositivo deve considerar:

  • Tipo de medicamento e risco de extravasamento
  • Duração e frequência do tratamento
  • Condições da rede venosa
  • Necessidade de exames de imagem
  • Capacidade de cuidar do dispositivo
  • Rotina e preferências do paciente

Uma decisão voltada apenas à primeira infusão pode criar dificuldades nas etapas seguintes do tratamento.

Limitações do acesso venoso periférico

O acesso periférico tem baixo custo inicial e pode atender bem a tratamentos de curta duração. Em protocolos prolongados, porém, as punções sucessivas e a ação dos medicamentos podem comprometer progressivamente a rede vascular.

Principais complicações:

  • Flebite
  • Infiltração
  • Infecção
  • Extravasamento
  • Dificuldade crescente para localizar uma veia
  • Necessidade de múltiplas punções

59% precisam migrar para um acesso central

Dados apresentados no encontro indicam que 59% dos pacientes que iniciam a terapia intravenosa por acesso periférico precisam posteriormente de um dispositivo central.

Complicações: 42,3% no acesso periférico versus 1,4% no port

Um dos estudos discutidos registrou complicações em 42,3% das utilizações do acesso periférico, ante 1,4% nos cateteres totalmente implantáveis.

Além das complicações, a discussão chamou atenção para custos que nem sempre aparecem na comparação inicial, como o tempo da equipe, a ocupação da sala, as novas tentativas de punção e o tratamento de eventuais eventos adversos.

O risco do extravasamento

O extravasamento ocorre quando a substância administrada escapa da veia para os tecidos ao redor. Na oncologia, o problema exige atenção porque alguns medicamentos são irritantes ou vesicantes e podem causar lesões graves.

Em casos graves, a necessidade de interromper temporariamente a quimioterapia para tratar a lesão também pode interferir na evolução clínica. A prevenção começa com a avaliação do paciente e a escolha do acesso mais adequado ao protocolo.

Cateteres centrais e duração do tratamento

Os dados apresentados apontam menor ocorrência de complicações com o cateter totalmente implantável, conhecido como port, em comparação com outros dispositivos centrais.

No ensaio CAVA, a taxa de complicações foi de 29% com o port e de 43% com o cateter Hickman. Na comparação com o PICC, os percentuais foram de 32% e 47%, respectivamente.

A duração do tratamento tem peso importante nessa escolha:

  • O PICC pode ser indicado em terapias mais curtas ou quando é necessário iniciar rapidamente o tratamento.
  • O port costuma oferecer maior vantagem em tratamentos prolongados.
  • A condição clínica e a capacidade de manutenção devem ser avaliadas individualmente.
  • O paciente deve participar da decisão sempre que possível.

O PICC também pode funcionar como uma ponte quando a implantação do port depende de autorização, disponibilidade de sala ou agenda da equipe responsável.

O custo aparece ao longo do tratamento

O port exige um investimento inicial maior, mas pode permanecer implantado por períodos prolongados e demandar intervalos maiores entre as manutenções. A diferença de custo diminui à medida que o tratamento avança.

A avaliação deve considerar implantação, insumos, frequência das manutenções, tratamento de complicações, tempo da equipe, ocupação das salas e deslocamentos do paciente.

No caso do PICC, por exemplo, a manutenção semanal pode elevar os custos diretos e indiretos quando o dispositivo permanece por muito tempo. Estudos apresentados no encontro também indicaram vantagem do port em qualidade de vida, observada já na avaliação de seis meses e ampliada após um ano.

Tratamento e diagnóstico pelo mesmo acesso

O port convencional é adequado para a administração de medicamentos, mas não necessariamente suporta a pressão dos injetores utilizados em alguns exames contrastados. Nessas situações, pode ser necessário obter um novo acesso periférico.

Os cateteres totalmente implantáveis de alto fluxo permitem utilizar o mesmo acesso para a terapia e para exames de imagem, desde que os requisitos técnicos sejam seguidos.

Possíveis benefícios:

  • Redução de punções periféricas
  • Menor risco de extravasamento do contraste
  • Manutenção da qualidade da imagem
  • Maior conforto para o paciente
  • Melhor aproveitamento dos recursos assistenciais

Alto fluxo exige identificação e protocolo

A equipe precisa confirmar o modelo do dispositivo, verificar o posicionamento e utilizar uma agulha específica antes da infusão em alta pressão.

Cuidados necessários:

  • Confirmar a compatibilidade com alto fluxo
  • Avaliar a permeabilidade e refluxo sanguíneo
  • Verificar o posicionamento do cateter
  • Usar a agulha indicada
  • Respeitar os limites de pressão e vazão
  • Realizar a salinização após o procedimento

Marcadores táteis e radiopacos ajudam a identificar o dispositivo. O cartão entregue ao paciente também reúne informações importantes para atendimentos realizados em outras instituições.

A manutenção interfere na vida útil do cateter

A efetividade do acesso central depende dos cuidados adotados em cada utilização. Falhas na lavagem podem favorecer obstruções e comprometer o dispositivo, especialmente após a administração de substâncias mais viscosas.

A equipe deve verificar o refluxo, empregar a agulha indicada e realizar o flush com solução salina e técnica adequada. Esses cuidados ajudam a preservar o cateter e evitam trocas precoces.

A decisão precisa começar na prescrição

Uma das principais barreiras identificadas foi a definição tardia do acesso vascular. Em muitos serviços, a escolha só é discutida quando o paciente chega à enfermagem para iniciar a infusão.

No A.C.Camargo Cancer Center, determinados protocolos quimioterápicos geram no sistema a indicação de avaliação para um cateter central. Assim, o acesso é discutido junto à prescrição.

A construção desse fluxo deve reunir oncologia, enfermagem e equipe implantadora, com a participação do diagnóstico por imagem quando o protocolo incluir o uso do acesso em exames contrastados. O protocolo pode começar pelos medicamentos vesicantes e irritantes, pelos pacientes com maior risco ou pelas terapias prolongadas.

A enfermagem ajuda a identificar o risco

A enfermagem acompanha as condições da rede venosa e pode perceber precocemente quando o acesso deixou de atender às necessidades do paciente.

Um protocolo institucional dá respaldo para que o enfermeiro sinalize a indicação de outro dispositivo e acione o fluxo definido. Alertas no sistema também podem apoiar a decisão em tratamentos com maior risco de extravasamento.

Perguntas para orientar o processo:

  • Quais medicamentos exigem acesso central?
  • Em que momento deve ocorrer a avaliação?
  • Quem define e acompanha o dispositivo?
  • Como o paciente é encaminhado para implantação?
  • Há uma alternativa quando não existe sala disponível?
  • As equipes reconhecem os dispositivos de alto fluxo?

Acesso seguro favorece a continuidade do cuidado

Um acesso central bem indicado pode permitir que parte do tratamento seja realizada em casa, com apoio de home care ou de uma equipe capacitada. Isso favorece a desospitalização e oferece mais conforto ao paciente.

A escolha antecipada, apoiada por protocolo, reduz punções e complicações, melhora o uso dos recursos e oferece mais segurança para o tratamento, os exames e a continuidade do cuidado.

Quer saber mais? Assista na íntegra:

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