Especialistas discutiram estratégias para fortalecer os protocolos assistenciais, reduzir o tempo até o tratamento e melhorar os desfechos dos pacientes com AVC.
No dia 7 de julho, a Anahp realizou mais uma edição do Café da Manhã, desta vez em parceria com a Boehringer Ingelheim, para discutir o atendimento ao acidente vascular cerebral no Brasil.
O encontro abordou protocolos assistenciais, avanços terapêuticos, linhas de cuidado, indicadores de qualidade e a atuação da Iniciativa Angels na organização de hospitais e redes preparadas para o AVC.
Participaram:
- Gisele Sampaio Silva, professora livre-docente de Neurologia Clínica da Unifesp e Head Clinical Trialist em Neurologia no Einstein/Unifesp
- Vivian Finotti, consultora científica da Boehringer Ingelheim
Principais pontos:
O fluxo começa antes da tomografia
O atendimento ao AVC depende da capacidade do hospital de reconhecer rapidamente o caso, acionar o protocolo, realizar a imagem, definir a conduta e iniciar o tratamento com baixa variação entre turnos, equipes e portas de entrada.
Dimensões do atendimento:
Tempo: Reconhecimento rápido, imagem em tempo adequado e início da terapia dentro da janela indicada.
Precisão: Avaliação clínica, interpretação da imagem, definição de elegibilidade e escolha da estratégia terapêutica.
Coordenação: Equipe acionada, responsabilidades claras, fluxo conhecido e indicadores acompanhados.
Quando uma dessas dimensões falha, o paciente pode perder chance terapêutica mesmo dentro de uma instituição com recursos disponíveis.
Porta-agulha como indicador
O tempo porta-agulha foi tratado como um dos marcadores mais sensíveis da fase hiperaguda do atendimento. Ele ajuda a mostrar como o hospital reconhece o AVC, prioriza a entrada, aciona a equipe, realiza imagem, decide a conduta e prepara o tratamento.
Indicadores acompanhados:
- Agilidade da triagem
- Eficiência no acionamento do protocolo
- Integração entre emergência, imagem e neurologia
- Clareza na tomada de decisão
- Disponibilidade da equipe
- Organização da fase hiperaguda
- Atrasos evitáveis
Outros dados que completam a leitura:
- Tempo porta-tomografia
- Percentual de pacientes trombolizados
- Transformação hemorrágica e outras complicações
- Mortalidade ajustada ao perfil do serviço
- Desfecho funcional
- Tempo até transferência, quando aplicável
- Revisão dos casos fora da meta
Trombólise, trombectomia e seleção de pacientes
Os avanços terapêuticos ampliaram as possibilidades no cuidado ao AVC isquêmico. Trombólise, trombectomia, uso de imagem avançada, seleção de pacientes em diferentes janelas e atualização de diretrizes trouxeram novas alternativas para a prática clínica.
A incorporação dessas estratégias depende da organização do serviço.
Critérios e condutas:
- Critérios de inclusão e exclusão
- Definição da janela terapêutica
- Acesso rápido à imagem
- Discussão entre neurologia, emergência e imagem/neuroimagem
- Conduta para pacientes em uso de anticoagulantes
- Fluxo para trombectomia ou transferência
- Monitoramento de transformação hemorrágica
- Conduta diante de complicações
A terapia avançada perde impacto quando o caminho até ela é lento, fragmentado ou dependente de decisões improvisadas.
Fluxos internos e unidade de AVC
A unidade de AVC é uma estrutura importante para avaliação neurológica, monitoramento e prevenção de complicações. Nem todos os hospitais têm o mesmo desenho assistencial. O ponto decisivo é garantir que o paciente siga um percurso seguro dentro da instituição.
Fluxos que precisam estar definidos:
- Local de atendimento do paciente com AVC
- Responsável pelo acionamento do protocolo
- Fluxo para imagem
- Critérios para trombólise
- Critérios para trombectomia ou transferência
- Conduta diante de transformação hemorrágica
- Acompanhamento após a fase aguda
- Registro dos tempos e desfechos
- Rotina de revisão dos casos
A estrutura física ajuda, mas é o protocolo conhecido pela equipe que sustenta a consistência do cuidado.
O papel da rede pré-hospitalar
Parte do desempenho hospitalar começa fora do hospital. O paciente pode chegar tarde por dificuldade de reconhecer sintomas, escolha inadequada do serviço, barreiras logísticas e dificuldades de encaminhamento entre serviços.
Essa etapa interfere diretamente na elegibilidade para tratamento.
Pontos críticos da rede:
- Reconhecimento tardio dos sintomas
- Encaminhamento para serviço sem preparo
- Transporte entre unidades
- Falta de alinhamento regional
- Heterogeneidade entre hospitais
- Comunicação informal entre equipes
- Ausência de referência clara para AVC
A linha de cuidado precisa considerar a chegada do paciente ao sistema, antes mesmo da porta hospitalar.
Protocolos Angels e qualificação dos serviços
A Iniciativa Angels foi apresentada como apoio à qualificação do atendimento ao AVC em hospitais e redes. O trabalho envolve capacitação de equipes, revisão de fluxos, apoio a protocolos, acompanhamento de indicadores e reconhecimento de instituições que alcançam metas de qualidade.
Frentes de atuação:
- Capacitação multiprofissional
- Organização de protocolos
- Revisão de fluxos internos
- Acompanhamento de indicadores
- Reconhecimento de hospitais e equipes
- Apoio ao atendimento pré-hospitalar
- Formação de regiões preparadas
- Educação sobre sinais e sintomas
A experiência mostra que o atendimento ao AVC melhora quando hospital, pré-hospitalar e rede regional trabalham com o mesmo objetivo.
Indicadores, revisão de casos e melhoria contínua
Hospitais que atendem AVC conhecem a importância do tempo. O desafio é transformar essa consciência em gestão diária do processo. A análise precisa sair da média geral e observar onde cada caso desvia do fluxo esperado.
Perguntas para revisar o processo:
- Em quais horários o protocolo atrasa mais?
- Qual etapa concentra maior perda de tempo?
- Quais casos ficam fora da meta?
- O atraso começa na triagem, na imagem ou na decisão?
- A equipe sabe quando acionar neurologia, imagem/neuroimagem e, quando aplicável, neurointervenção?
- O fluxo muda na troca de plantão?
- A transferência para trombectomia está pactuada?
- As complicações têm conduta padronizada?
- Os dados do protocolo retornam para a equipe?
Cada desvio mostra onde o protocolo aindadepende de pessoas específicas, acordos informais ou disponibilidade pontual.
Equipe multiprofissional e linha de cuidado
O atendimento ao AVC reúne emergência, neurologia, enfermagem, imagem/neuroimagem, laboratório, UTI, unidade de AVC, transporte, regulação, qualidade, gestão de indicadores e liderança assistencial. A coordenação entre essas áreas faz parte do tratamento.
Condições para incorporar avanços terapêuticos:
- Protocolo conhecido por todos os turnos
- Acionamento rápido e padronizado
- Imagem integrada à decisão clínica
- Fluxo de trombólise e trombectomia definido
- Equipe treinada para complicações
- Indicadores acompanhados em tempo próximo do real
- Revisão periódica dos casos
- Comunicação com a rede de referência
- Educação permanente das equipes
O resultado também depende da precisão clínica, da coordenação entre equipes e da capacidade do hospital de transformar protocolo em rotina assistencial.
Avanços terapêuticos e rotina hospitalar
Os avanços no tratamento do AVC modificaram a prática clínica e ampliaram oportunidades para pacientes que antes teriam menos alternativas terapêuticas.
O desafio para os hospitais está em incorporar essa evolução com menor variabilidade do cuidado. Isso exige protocolos atualizados, leitura crítica de indicadores, alinhamento multiprofissional, pactuação com a rede e revisão contínua da jornada do paciente.
A transformação do atendimento ao AVC no Brasil passa por essa integração entre ciência disponível, terapia adequada e hospital preparado.
Quer mais detalhes? Assista na íntegra: