Medicina nuclear avança na oncologia e exige nova organização da jornada

Nesta terça-feira (3), a Anahp realizou mais uma edição do seu tradicional Café da Manhã, desta vez em parceria com a Novartis. O encontro discutiu como o avanço da Medicina Nuclear e das terapias radioligantes amplia as possibilidades de tratamento em oncologia e exige dos hospitais estruturas assistenciais, fluxos integrados e coordenação para garantir o acesso dos pacientes.

Participaram do encontro:

  • Dr. Marcelo Queiroz, gerente médico de Imagem Molecular Teranóstica do Einstein Hospital Israelita, médico nuclear e radiologista;
  • Taíse Vitor, coordenadora de Implantações e Projetos da Medicina Diagnóstica e coordenadora da Pós-Graduação em Radiofarmácia do Einstein Hospital Israelita.

Principais pontos:

Medicina de precisão e terapias direcionadas

Além de identificar o tipo de câncer, os profissionais buscam reconhecer características moleculares que permitam selecionar os pacientes para terapias específicas, com potencial de aumentar a eficácia e reduzir a toxicidade dos tratamentos.

Nesse cenário, ganha espaço o teranóstico, abordagem que conecta diagnóstico e tratamento a partir de um mesmo alvo biológico. Por meio de radiofármacos, é possível:

  • Diagnosticar: identificar e visualizar a expressão de um alvo molecular.
  • Tratar: direcionar radiação às células que expressam esse alvo.
  • Monitorar: acompanhar a distribuição da terapia e avaliar a resposta ao tratamento.

Essa evolução também modifica o papel da medicina nuclear, tradicionalmente associada ao diagnóstico por imagem. A especialidade passa a participar diretamente das decisões terapêuticas e do acompanhamento dos pacientes, exigindo maior aproximação com a oncologia e outras áreas assistenciais.

Estrutura hospitalar

A incorporação do teranóstico exige estruturas assistenciais e operacionais que vão além da aquisição de equipamentos. O encontro apresentou um modelo de 12 pilares para a organização dos serviços, reunidos em três frentes:

1. Habilitadores estruturais

  • Governança e conformidade regulatória.
  • Infraestrutura física e equipamentos.
  • Produção, logística e fornecimento de radiofármacos.
  • Física médica e dosimetria.

2. Capacidade técnica

  • Equipe multiprofissional especializada.
  • Protocolos clínicos, seleção de pacientes e discussão multidisciplinar.
  • Tecnologia de imagem molecular.
  • Acesso a novos radiofármacos.

3. Modelo de gestão

  • Operação e acompanhamento de indicadores.
  • Sustentabilidade econômica.
  • Experiência e navegação do paciente, com acompanhamento dos desfechos.
  • Governança de dados e pesquisa.

A disponibilidade de profissionais especializados, a cadeia de fornecimento de radioisótopos e as exigências regulatórias estão entre os desafios para a implantação dos serviços.

A equipe reúne oncologistas, médicos nucleares, profissionais de enfermagem, física médica, biomedicina, radiofarmácia e outras especialidades, conforme as indicações clínicas, além das áreas administrativas e de apoio.

O oncologista permanece responsável pela condução global do paciente, enquanto a medicina nuclear assume atribuições específicas no diagnóstico, tratamento e monitoramento. A integração entre essas equipes é fundamental para organizar os encaminhamentos e garantir a continuidade do cuidado.

A implantação pode ocorrer de forma progressiva, conforme a capacidade instalada, a demanda e os objetivos de cada instituição.

Gargalos da jornada

A jornada pode envolver diferentes instituições e áreas de uma mesma organização. Após a identificação do paciente potencialmente elegível, são necessários exames, avaliação clínica, planejamento terapêutico, autorização da fonte pagadora, disponibilidade do radiofármaco e organização da estrutura assistencial. Depois da administração da terapia, o acompanhamento precisa continuar.

Entre os principais gargalos identificados estão:

  • Identificação tardia: pacientes elegíveis podem demorar a ser reconhecidos e encaminhados.
  • Encaminhamentos: ausência de critérios suficientemente padronizados entre os serviços.
  • Discussão dos casos: dificuldades para reunir as especialidades envolvidas na decisão terapêutica.
  • Autorizações: processos que podem atrasar o início ou a continuidade do tratamento.
  • Logística: necessidade de coordenar radiofármacos, agenda, estrutura assistencial e disponibilidade de leitos.
  • Acompanhamento: fragmentação das responsabilidades entre as equipes após a terapia.

Cada ciclo terapêutico pode exigir uma nova solicitação à operadora, mesmo quando os anteriores já foram aprovados. No Einstein, as negativas são pouco frequentes nos casos enquadrados nas indicações cobertas, mas os processos podem ser demorados e exigir documentação adicional.

Como organizar a jornada

Para reduzir atrasos e melhorar a coordenação, algumas medidas podem ser implantadas gradualmente.

As principais frentes de atuação são:

  • Padronizar os encaminhamentos: estabelecer protocolos e critérios de elegibilidade.
  • Organizar as autorizações: mapear os fluxos com as operadoras e antecipar exigências documentais.
  • Integrar as equipes: estruturar a discussão multidisciplinar dos casos.
  • Desenvolver a navegação: definir profissionais de referência para acompanhar o paciente ao longo das etapas.
  • Coordenar a operação: alinhar agendas, capacidade assistencial e fornecimento dos radiofármacos.
  • Acompanhar resultados: utilizar indicadores para identificar gargalos e orientar melhorias.

No Einstein, uma das iniciativas foi a criação de um tumor board dedicado ao teranóstico, com participação de profissionais da medicina nuclear, oncologia, radioterapia e outras especialidades envolvidas na avaliação dos casos. A instituição também trabalha para incorporar uma enfermeira navegadora dedicada ao serviço, função atualmente compartilhada com a oncologia.

A navegação permite oferecer ao paciente informações sobre exames, datas, tratamento, radioproteção e cuidados posteriores, além de facilitar a comunicação entre os profissionais e o acesso aos resultados.

Indicadores

Os indicadores foram organizados em quatro dimensões:

  • Acesso: conversão das indicações em tratamentos, tempo de autorização e cancelamentos.
  • Operação: utilização da capacidade instalada, tempo entre etapas, desperdícios e glosas.
  • Assistência: número de ciclos realizados, segurança e desfechos clínicos.
  • Experiência: navegação, continuidade do cuidado e percepção do paciente.

O acompanhamento desses dados permite identificar onde ocorrem atrasos, perdas e interrupções, oferecendo informações para o planejamento e a melhoria dos serviços.

Responsabilidade compartilhada

A ampliação do acesso às terapias radioligantes depende da articulação entre hospitais, profissionais da assistência, operadoras, indústria e demais organizações envolvidas no cuidado.

Enquanto as equipes clínicas coordenam indicação, tratamento e acompanhamento, outras áreas precisam garantir:

  • Disponibilidade de exames e terapias.
  • Organização das agendas e da capacidade assistencial.
  • Autorizações junto às fontes pagadoras.
  • Fornecimento dos radiofármacos.
  • Logística e cumprimento dos prazos.
  • Comunicação e continuidade do acompanhamento.

A integração dessas atividades influencia a capacidade de realizar o tratamento no momento planejado e de manter a continuidade dos ciclos terapêuticos.

O papel da liderança hospitalar

Cinco decisões estratégicas da liderança hospitalar devem orientar a implantação de um programa teranóstico:

  1. Posicionamento: qual papel o hospital pretende ocupar nessa jornada?
  2. Demanda: quais pacientes e mercados pretendem atender?
  3. Capacidade: quais estruturas, tecnologias e profissionais já possuem?
  4. Acesso: como será organizada a relação com operadoras e outras fontes pagadoras?
  5. Valor: quais resultados serão acompanhados e como garantir a sustentabilidade do programa?

Essas definições ajudam a orientar investimentos e a construção gradual dos serviços, considerando as características e possibilidades de cada instituição.

No Einstein, a organização foi estruturada como uma plataforma teranóstica apoiada em quatro frentes: assistência e jornada; operação e infraestrutura; parcerias e ecossistema; governança e sustentabilidade.

A experiência apresentada durante o encontro reforça que a incorporação das novas terapias exige decisões clínicas, operacionais e institucionais coordenadas. Para as lideranças hospitalares, o desafio é preparar os serviços e organizar as relações entre os diferentes envolvidos, permitindo que os avanços da medicina nuclear se traduzam em acesso efetivo e continuidade do cuidado para os pacientes.

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