Experiência do paciente como estratégia de gestão hospitalar

Na última terça-feira (22), a Anahp realizou mais uma edição do Café da Manhã Anahp, desta vez em parceria com a Sanofi. O encontro discutiu como a experiência do paciente pode ser incorporada à estratégia das organizações de saúde, conectando cuidado centrado na pessoa, comunicação, segurança assistencial, cultura institucional e mensuração de resultados.

Palestrante:

  • Gisele Alsina Nader Bastos, diretora técnica da Santa Casa de Porto Alegre e professora associada da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

Principais pontos:

Experiência ao longo da jornada

Gisele diferenciou experiência de satisfação. A satisfação é influenciada pelas expectativas e referências individuais, enquanto a experiência pode ser trabalhada pela instituição a partir dos diferentes pontos de contato da jornada.

  • interação: relação do paciente e da família com profissionais, processos e serviços;
  • cultura: comportamentos e valores compartilhados na instituição;
  • percepção: aquilo que o paciente reconhece e leva do atendimento;
  • cuidado contínuo: acompanhamento da jornada antes, durante e depois da assistência.

A experiência começa antes da chegada ao hospital, na busca de informações e no agendamento, e acompanha o paciente ao longo de todo o cuidado.

O que importa para o paciente

Um dos pontos discutidos foi a diferença entre as prioridades percebidas pelas equipes e aquilo que importa para quem recebe o cuidado. Em pesquisa nacional de 2024 apresentada por Gisele, os pacientes destacaram:

  • 79%: confiança transmitida pelo médico;
  • 72%: ambiente de saúde limpo e confortável.

A discussão chamou atenção para outros elementos da experiência:

  • comunicação clara;
  • acolhimento;
  • segurança;
  • compreensão das necessidades e preferências;
  • participação do paciente e da família nas decisões.

O profissional pode estar concentrado no sucesso técnico de um procedimento, enquanto o paciente está preocupado com as consequências daquele tratamento para sua vida. A escuta ajuda a aproximar essas perspectivas.

Mensuração da experiência

O NPS foi um dos instrumentos abordados, ao lado de PREMs, PROMs e outras formas de mensuração. Na Santa Casa de Porto Alegre, o indicador é utilizado para localizar pontos de fricção e orientar intervenções.

Na prática:

  • pacientes que dão notas de 0 a 6 são classificados como detratores;
  • a equipe entra em contato para entender o motivo da avaliação;
  • os problemas identificados ajudam a orientar ações de melhoria.

A própria mudança do método de pesquisa alterou a leitura da instituição sobre seus resultados.

  • Antes: questionários em papel, aplicados pelas próprias equipes, indicavam satisfação entre 90 e 100;
  • Depois: a primeira medição digital apresentou resultado na faixa de 50 a 60;
  • Consequência: o indicador passou a ser utilizado como base para um processo estruturado de melhoria.

A transformação da Santa Casa de Porto Alegre

O projeto começou em 2021, em uma instituição com mais de dois séculos de história, cerca de 10 mil colaboradores e 1.280 leitos.

O diagnóstico inicial ouviu pacientes e colaboradores e resultou em:

  • cerca de 500 possibilidades de intervenção;
  • 200 ações priorizadas;
  • entregas distribuídas por quadrimestres;
  • grupos responsáveis pelas diferentes frentes;
  • lideranças definidas para acompanhar a execução.

A estratégia passou a integrar quatro dimensões:

  1. cuidado centrado na pessoa;
  2. segurança assistencial;
  3. desfechos clínicos;
  4. experiência de pacientes, familiares, colaboradores e médicos.

Com isso, o tema deixou de ficar restrito a ações pontuais de relacionamento e passou a integrar a gestão da instituição.

Governança da experiência

A Santa Casa não possui um escritório dedicado exclusivamente à experiência do paciente. O trabalho é conduzido pela Qualidade, com apoio direto e participação de diferentes áreas.

A estrutura reúne:

  • Qualidade;
  • Marketing;
  • Assistência;
  • Relacionamento com o corpo clínico;
  • Áreas operacionais;
  • Grupos responsáveis por projetos específicos.

O modelo também prevê reuniões periódicas, acompanhamento de indicadores, análise dos pontos de fricção e apresentação dos resultados à direção.

Um dos exemplos apresentados no debate foi o Comitê de Clientes, que se reúne semanalmente para analisar o NPS e discutir problemas encontrados ao longo da jornada.

Capacitação e mudança cultural

A formação das equipes foi uma das principais frentes da transformação.

Em uma das iniciativas:

  • 6 mil colaboradores foram treinados;
  • cada profissional participou de quatro horas de capacitação;
  • foram realizadas 24 mil horas de treinamento.

Depois da formação geral, os conteúdos foram adaptados às situações encontradas em diferentes áreas, como:

  • higienização;
  • lavanderia;
  • estacionamento;
  • recepção;
  • equipes assistenciais.

Com os médicos, o trabalho priorizou comunicação e escuta, utilizando grupos menores para ampliar progressivamente o alcance das capacitações.

A necessidade de repetir essas ações também foi destacada. Em uma organização de grande porte e com alta rotatividade, a mudança cultural depende da continuidade dos treinamentos e do envolvimento das lideranças.

Experiência na rotina

Algumas iniciativas ajudam a manter o tema presente no cotidiano:

  • Semana de Experiência do Paciente: atividades para pacientes, familiares e colaboradores;
  • Prestígio: reconhecimento periódico de médicos e profissionais elogiados pelos pacientes;
  • Conexão Afetiva: registro de preferências e informações pessoais no quadro assistencial;
  • Job Rotation: profissionais conhecem outras áreas e diferentes pontos da jornada.

As ações funcionam como instrumentos de cultura e engajamento dentro de uma estratégia apoiada também em dados e acompanhamento.

Resultados e acompanhamento

A evolução do NPS foi um dos resultados apresentados.

  • após a mudança do método de pesquisa, os primeiros resultados ficaram na faixa de 50 a 60;
  • houve evolução gradual ao longo dos anos;
  • em 2026, o NPS agregado dos hospitais, incluindo as portas de emergência, chegou a 83.

O Hospital Nora Teixeira é acompanhado separadamente por apresentar estrutura e perfil assistencial diferentes dos demais hospitais do complexo.

Nas perguntas do público, Gisele acrescentou alguns dados sobre a pesquisa:

  • o questionário é enviado após o atendimento;
  • o principal canal é o e-mail, com reforço por WhatsApp entre pacientes internados;
  • a instituição reúne cerca de 10 mil a 11 mil respondentes;
  • a taxa de resposta fica em torno de 20% a 30%.

A experiência da Santa Casa mostrou uma estratégia baseada em escuta, dados, governança, capacitação e acompanhamento contínuo. A mensuração identifica os problemas, enquanto a estrutura de gestão permite transformar esses achados em mudanças nos processos e na cultura institucional.

Assista na íntegra:

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