Tecnologia, dados e pessoas no centro da transformação
A Anahp realizou, em 27 de agosto, a edição que encerrou a Jornada Digital de agosto, com o tema “Qualidade e eficiência integradas: o futuro dos hospitais inteligentes”.
A série, dedicada ao macrotema Qualidade e Segurança, foi realizada em parceria com a Wolters Kluwer, como parte da programação do Especial 25 anos Anahp.
O encontro discutiu como dados, inteligência artificial, automação e outras tecnologias podem apoiar uma gestão hospitalar mais preditiva e eficiente. A conversa também mostrou que o avanço depende da integração entre qualidade e resultado operacional, da revisão de processos e da capacidade das equipes de transformar informação em decisão e ação.
Participaram:
- Aline Bastos, diretora assistencial da Rede Primavera Saúde;
- Cristiano Valério, ex-head de Inovação e Valor em Saúde do Hospital Sírio-Libanês;
- Luciano Cavalcante, diretor médico de Informações do Hospital Santa Rita;
- Vitor Ferreira, CIO da ABCIS (moderação).
Principais pontos:
Qualidade e eficiência
Um dos pontos centrais foi a necessidade de aproximar qualidade assistencial e eficiência operacional.
Infecções, erros de medicação, atrasos no reconhecimento da sepse e outros eventos não afetam apenas os desfechos clínicos. Também podem prolongar internações, aumentar o uso de recursos e gerar desperdícios.
Evitar o dano, portanto, contribui ao mesmo tempo para a segurança do paciente e para a sustentabilidade da operação.
A discussão também apontou o objetivo de avançar de uma leitura retrospectiva dos indicadores para informações capazes de orientar a assistência enquanto ela acontece.
Na prática, isso significa:
- Em vez de olhar apenas quantas quedas ocorreram, identificar quais pacientes têm maior risco de cair nas próximas horas.
- Em vez de verificar depois quantos protocolos ficaram fora do tempo, acompanhar quanto falta para que uma intervenção necessária seja realizada.
- Em vez de concentrar a análise no período anterior, usar as informações para sinalizar o que exige atenção naquele momento.
Tecnologia e processos
A incorporação de novas ferramentas precisa vir acompanhada da revisão dos processos. Caso contrário, há o risco de apenas digitalizar fluxos que já apresentam problemas.
IA, automação e sistemas de apoio à decisão ganham valor quando respondem a necessidades concretas da assistência ou da operação. O debate reforçou, por isso, a importância de compreender primeiro o problema, revisar o fluxo e definir o resultado esperado antes de selecionar a tecnologia.
Tecnologia deve responder a um problema real, e não ser incorporada apenas porque está disponível.
Uso dos dados
Durante a Jornada, foram mencionados dashboards e relatórios que acumulam indicadores sem necessariamente influenciar a rotina. Para mudar esse cenário, além de selecionar melhor o que deve ser medido, é preciso criar rotinas de análise, acompanhamento e decisão a partir dessas informações.
O fluxo discutido pode ser resumido em quatro etapas:
Dado → informação → decisão → ação
A análise também precisa ultrapassar os limites das áreas. Qualidade assistencial, eficiência, custo, glosas e resultado financeiro fazem parte da mesma jornada, ainda que diferentes equipes tenham responsabilidades específicas em cada etapa.
Cuidado além do hospital
Monitoramento contínuo, telemedicina e integração das informações podem permitir um acompanhamento mais longitudinal, inclusive antes ou depois de uma internação. Nesse modelo, o hospital deixa de ser apenas o local onde o paciente é atendido e passa a fazer parte de uma rede de cuidado mais contínua.
Entre os elementos associados a esse avanço estão:
- integração entre dados assistenciais e administrativos;
- monitoramento do paciente ao longo da jornada;
- telemedicina e outras formas de acompanhamento remoto;
- interoperabilidade entre diferentes sistemas e instituições.
A interoperabilidade apareceu como um dos principais desafios para que dados produzidos em diferentes pontos da assistência possam ser utilizados de forma conjunta.
Governança da transformação digital
A transformação digital não acontece de forma isolada: exige articulação entre diferentes áreas e conhecimentos. Luciano Cavalcante, diretor Médico de Informações do Hospital Santa Rita, compartilhou a experiência do hospital com um comitê multidisciplinar de inovação, que reúne profissionais da assistência, tecnologia, corpo clínico, finanças, jurídico e qualidade.
O movimento também precisa fazer parte da agenda da alta liderança. O CEO não precisa dominar tecnicamente cada ferramenta, mas precisa compreender as prioridades, coordenar as diferentes áreas e criar condições para que os projetos avancem.
Escolha dos projetos
Ao relatar a experiência de sua passagem pelo Sírio-Libanês, Cristiano Valério, ex-head de Inovação e Valor em Saúde, explicou que 70% do tempo e do orçamento destinados à inovação eram direcionados a grandes problemas da instituição. A estratégia buscava reduzir a dispersão em muitos projetos pequenos e concentrar recursos onde fosse possível demonstrar impacto.
Entre as perguntas apontadas para avaliar uma iniciativa estão:
- Qual problema ela resolve?
- Que impacto pode gerar na assistência?
- Há ganho de eficiência ou redução de custos?
- Como o resultado será medido?
- A solução gera valor tanto para quem decide quanto para quem vai utilizá-la na operação?
Pessoas e liderança
Os profissionais precisam interpretar criticamente as informações, organizar o cuidado e decidir como agir. As lideranças, por sua vez, têm um papel na construção de uma cultura que dê autonomia às equipes e conecte objetivos assistenciais, operacionais e financeiros.
A discussão mostrou, assim, que o avanço dos hospitais inteligentes não depende apenas da quantidade de tecnologia disponível. Qualidade, eficiência, dados, processos, governança e pessoas precisam funcionar de forma integrada para que a transformação produza resultado na assistência e na operação.
Assista na íntegra: