Prevenção do VSR: como os hospitais estão organizando esse cuidado

Na última terça-feira (25), a Anahp realizou mais uma edição do seu tradicional Café da Manhã, desta vez em parceria com a Sanofi. O encontro discutiu estratégias para prevenir o vírus sincicial respiratório (VSR) e organizar esse cuidado dentro da jornada assistencial, com atenção ao papel das maternidades e dos protocolos hospitalares.

O debate reuniu perspectivas da infectologia pediátrica e da neonatologia para abordar desde a carga da doença e as estratégias de prevenção até os desafios para incorporar essas medidas à rotina dos hospitais.

Também foram apresentadas experiências nacionais e internacionais e seus impactos sobre hospitalizações e utilização de leitos.

Participaram:

  • Daniel Jarovsky, pediatra infectologista, membro do Comitê Científico de Imunizações da SBP e consultor médico em Imunizações do Fleury
  • Desiree Volkmer, chefe do Serviço de Neonatologia do Hospital Moinhos de Vento
  • Aline Tolardo, Medical Lead RSV da Sanofi Brasil (moderação)

Principais pontos:

A carga do VSR

O VSR tem presença ampla entre crianças pequenas. Segundo os dados apresentados no encontro, quase 100% das crianças são infectadas nos primeiros dois anos de vida e cerca de 20% precisam de algum tipo de atendimento médico.

A parcela que evolui para doença grave é menor, mas tem impacto relevante para os hospitais. No Brasil, a maior concentração dos casos ocorre entre fevereiro e agosto, período que exige planejamento de leitos, equipes e capacidade de atendimento.

Infecções respiratórias mais graves e precoces estão associadas a maior risco de problemas respiratórios futuros, como sibilância recorrente e asma.

A maternidade

A maternidade reúne uma condição importante para a implementação de uma estratégia preventiva, pois o hospital sabe quando o bebê nasceu, acompanha sua condição clínica e controla o momento da alta.

Isso permite incorporar a proteção ao próprio fluxo de nascimento e alta, reduzindo a possibilidade de a criança deixar o hospital sem receber a estratégia indicada.

No Hospital Moinhos de Vento, o protocolo foi sendo atualizado conforme novas evidências surgiram. Hoje, a instituição utiliza critérios baseados nas recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, da Sociedade Brasileira de Imunizações e da Anvisa.

Na prática, o protocolo alcança diferentes situações:

  • Prematuros internados na UTI neonatal
  • Bebês a termo de mães não vacinadas ou vacinadas há menos de 14 dias
  • Crianças com condições específicas que aumentam o risco
  • Bebês que chegam posteriormente ao hospital sem ter recebido a proteção indicada

O protocolo precisa funcionar

No Moinhos de Vento, o protocolo foi incorporado aos checklists de alta, junto de outros cuidados realizados na maternidade. A intenção é evitar que um bebê deixe o hospital sem a proteção indicada.

Esse cuidado ganha importância em hospitais com corpo clínico aberto, nos quais diferentes médicos participam da assistência. O protocolo ajuda a uniformizar a conduta e a reduzir falhas de comunicação.

A pergunta que o checklist precisa responder é simples: o bebê recebeu ou não a proteção indicada pela vacinação?

Quem faz o quê?

A implementação envolve diferentes áreas.

Equipe médica: Identifica os pacientes elegíveis e faz a prescrição;

Enfermagem: Realiza a administração após capacitação;

Farmácia: Participa da organização e da disponibilidade do produto;

Gestão: Precisa garantir espaço, estoque, orçamento e fluxos definidos.

No início da experiência do Moinhos de Vento, um dos principais desafios foi alinhar essas áreas. Com o tempo, os fluxos foram incorporados à rotina.

Logística

A prevenção também precisa estar organizada na operação da maternidade. Para isso, o hospital precisa definir:

  • Demanda: quantos bebês nascem na instituição e quantos são prematuros;
  • Estoque: onde o produto será armazenado e se a estrutura de refrigeração é suficiente;
  • Fluxo: quem identifica os bebês elegíveis, quem prescreve e quem administra;
  • Registro: como a aplicação será registrada e conferida antes da alta.

No serviço público, foi citado ainda o desafio de armazenar o anticorpo. Dependendo do volume de nascimentos, pode ser necessário ampliar a estrutura de refrigeração.

O protocolo só funciona quando demanda, estoque, responsabilidades e registros estão organizados.

O que mostram outros países

Experiências internacionais apresentadas no encontro associaram programas de imunização com altas coberturas a reduções importantes nas hospitalizações por VSR.

Chile: Cobertura próxima de 97% após a implementação universal em 2024, com forte redução das hospitalizações;

Paraguai: Após a implementação universal, foram apresentadas reduções de 87% a 89% nas hospitalizações, na comparação com períodos anteriores;

Galícia, na Espanha: A região chegou a registrar redução de 90% nas internações por VSR após a implementação universal.

Os participantes destacaram que esses são dados de mundo real, ou seja, resultados observados na prática, fora das condições controladas de um estudo clínico.

Cobertura é parte do resultado

Os exemplos internacionais apresentados têm altas taxas de cobertura como ponto em comum. A efetividade observada nesses locais está relacionada tanto à estratégia preventiva disponível quanto à capacidade de fazer com que ela chegue à população elegível.

O impacto no hospital

Um dos relatos apresentados durante a discussão foi o de hospitais que, mesmo no pico da temporada de bronquiolite, passaram a ter mais disponibilidade de leitos pediátricos e de UTI para outros pacientes.

Esse efeito ajuda a explicar por que o planejamento da prevenção precisa considerar o hospital como um todo. Menos casos graves significam menos internações, menor pressão sobre UTIs e equipes e menor utilização de recursos.

O efeito pode continuar depois

Em crianças saudáveis que haviam recebido nirsevimabe na temporada anterior, um estudo realizado na Espanha apontou redução expressiva das internações na temporada seguinte, indicando que o efeito observado pode se estender além dos primeiros meses após a imunização.

Na Galícia, os primeiros resultados apontaram redução de cerca de 20% em chiado recorrente, com achados iniciais relacionados à asma. Os próprios participantes ressaltaram que será necessário acompanhar essas crianças por mais tempo.

Outro estudo citado, realizado na França, encontrou redução de 36% na doença pneumocócica invasiva após a implementação do anticorpo. Os participantes destacaram que esse resultado é uma evidência inicial e não substitui a vacinação pneumocócica.

O que ainda precisa avançar

Um dos principais desafios está no acesso. A maior parte das mortes por VSR ocorre em populações de menor nível socioeconômico, segundo o dado apresentado no encontro. Em um país continental como o Brasil, garantir que a prevenção chegue de maneira uniforme é uma questão central.

Também permanecem desafios na saúde suplementar. Hospitais relataram dificuldades iniciais com autorizações e cobertura, embora os participantes tenham apontado melhora desse cenário. A recomendação foi manter protocolos institucionais claros, com indicações clínicas bem descritas e baseadas em evidências.

Para a gestão hospitalar

A experiência discutida no encontro deixa alguns pontos práticos para quem está estruturando ou revisando um protocolo de prevenção do VSR:

1. Conhecer a própria demanda: Nascimento, prematuridade, sazonalidade e volume de atendimentos ajudam a dimensionar a necessidade;

2. Definir quem é elegível: Os critérios precisam estar claros para médicos, enfermagem e demais profissionais;

3. Criar um fluxo até a alta: A estratégia precisa estar incorporada à rotina da maternidade e registrada;

4. Usar checklists: Eles ajudam a evitar tanto a perda de oportunidades quanto a administração duplicada, especialmente quando o paciente passa por diferentes unidades;

5. Preparar a equipe: Todos precisam entender o papel que desempenham no processo e a importância da prevenção;

6. Revisar o protocolo: Novas evidências, mudanças nas recomendações e resultados da própria instituição devem alimentar as próximas versões.

No caso do VSR, a prevenção começa com uma decisão clínica, mas precisa chegar até a operação do hospital. É essa integração entre evidência, protocolo, equipe, logística e acompanhamento que permite transformar uma estratégia preventiva em cuidado efetivamente entregue ao paciente.

Assista na íntegra:

Compartilhe

Você também pode gostar: