Vacinas: o que você precisa saber para se proteger com segurança

Se a doença parece ter desaparecido, por que continuar se vacinando? Muitas vacinas podem sobrecarregar o organismo? Entenda as principais dúvidas sobre imunização.

Mais do que um ato individual, vacinar-se é uma estratégia coletiva capaz de reduzir complicações e salvar vidas em todas as idades. Para tanto, é preciso manter a carteirinha atualizada — o que pode ser desafiador diante da quantidade de dúvidas e desinformações rodando nas redes sociais e fora delas.

Para tirar as principais dúvidas sobre vacinação, conversamos com a pediatra e coordenadora do Centro de Vacinas Pequeno Príncipe, Heloísa Giamberardino.

Vacinas realmente funcionam? De que forma?

A vacinação atua de forma preventiva: apresenta ao corpo uma quantidade pequena e controlada de antígenos, suficiente para treinar o organismo sem causar a doença. Esse processo ativa respostas imunológicas de forma segura e organizada, sem o desgaste provocado por uma infecção ativa.

É um processo diferente daquele que ocorre quando o organismo enfrenta uma infecção. Aqui, há replicação do vírus ou da bactéria no corpo, o que exige uma resposta mais intensa do sistema imunológico e pode levar a uma redução de anticorpos enquanto o organismo combate aquele agente.

Já quando o assunto é saúde pública, as vacinas funcionam como escudos coletivos que evitam casos graves e previnem óbitos, aliviando o impacto das doenças sobre cada indivíduo e sobre o sistema de saúde.

Não à toa, as campanhas de imunização, iniciadas no século 20, representam um dos maiores avanços da história, sendo fundamentais para a erradicação da varíola e o controle eficaz de doenças como a poliomielite, o sarampo, a rubéola e a hepatite.

Vacinas são seguras?

Antes de chegarem à população, as vacinas passam por testes rigorosos e, mesmo após a aprovação, continuam sendo acompanhados de perto para detectar qualquer reação rara, conforme as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Esses estudos têm mesmo rigor científico aplicado ao desenvolvimento de tratamentos para doenças graves, como o câncer. Ao longo das últimas décadas, esses avanços permitiram terapias mais eficazes e seguras — resultado direto da evolução da ciência.

Desta forma, para a pediatra Heloísa Giamberardino, a mesma lógica deve ser aplicada aos imunizantes. Se há confiança em tratamentos inovadores quando a saúde está em risco, por que não nas vacinas, que também são fruto de pesquisas sólidas e têm papel fundamental na prevenção de formas graves de doenças?

Para que servem as vacinas?

“As vacinas são principalmente destinadas à prevenção das formas graves das doenças, ou seja, hospitalização, internações em UTIs e até óbito. Existe uma confusão entre prevenção da infecção e prevenção das formas graves da doença”, explica a pediatra.

Por que a vacinação voltou a ser tema de debate e desconfiança?

Apesar disso, nos últimos anos, a disseminação de informações falsas tem atrapalhado a adesão às campanhas de imunização. Após a pandemia do coronavírus, a confiança na vacinação tornou-se um debate complexo e, muitas vezes, permeado por hesitação.

“A vacinação deixou de ser um comportamento de saúde para se tornar um marcador de identidade social e de política social. Informações baseadas em fatos pseudocientíficos fazem com que as pessoas aceitem algumas vacinas, mas questionem outras”, diz.

Onde entra a Semana de Vacinação nas Américas?

É neste cenário que a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) promove a 24ª Semana de Vacinação nas Américas. A meta da iniciativa é acelerar o controle de 30 enfermidades transmissíveis, focando especialmente na erradicação de 11 doenças que poderiam ser evitadas com o uso de vacinas. O movimento reforça a urgência de retomar índices seguros de proteção para impedir que problemas já controlados voltem a circular na sociedade.

Se a vacinação fez as doenças sumirem, por que ainda preciso me vacinar?

Justamente porque as vacinas funcionam tão bem, as pessoas deixam de ver essas doenças no dia a dia — e, com isso, o risco percebido diminui. É o paradoxo do sucesso das vacinas: quanto maior o controle, menor a sensação de ameaça, o que pode levar à queda na vacinação e ao retorno dos casos.

No entanto, existe uma diferença entre uma doença erradicada (que não existe mais no mundo) e uma doença eliminada (que não circula mais em uma região específica).

Como exemplo, a médica cita o sarampo, uma doença altamente transmissível: um único caso pode infectar de 18 a 20 pessoas, o que facilita sua disseminação. Além disso, há os chamados casos importados — quando a doença vem de outros países e chega a locais com baixa cobertura vacinal, encontrando pessoas suscetíveis e dando início a novos surtos.

Por isso, enquanto a maioria das doenças infectocontagiosas não atingir coberturas vacinais entre 90% e 95%, novos casos continuarão surgindo.

As vacinas de mRNA podem alterar o DNA?

Não. Uma vacina de RNA mensageiro (mRNA) é um tratamento preventivo que ajuda o corpo a aprender a combater doenças.

“O RNA mensageiro nunca vai entrar no núcleo da célula, onde o DNA humano é armazenado. Ele permanece apenas no citoplasma (fora do núcleo), transmite as instruções para a produção de anticorpos e, em horas ou dias, é degradado. Portanto, não interage com o DNA e não pode alterar os genes humanos”, reforça Giamberardino.

Vacinas contêm microchips ou grafeno?

Não existem evidências científicas que sustentem essa ideia. “Essas narrativas não têm base na ciência e chegam a criar pânico ao explorar medos intuitivos. Elas usam termos pouco conhecidos, como nanotecnologia e magnetismo, totalmente fora de contexto e sem plausibilidade biológica”, defende a pediatra.

A médica alerta que esse tipo de conteúdo simplifica explicações complexas e pode gerar pânico, ao se apoiar em medos intuitivos, especialmente por usar linguagem mais fácil de assimilar do que explicações científicas mais densas — o que contribui para sua rápida disseminação.

Tomar muitas vacinas pode sobrecarregar o sistema imunológico?

Pelo contrário. “Receber vacinas ao longo da vida fortalece a defesa. O sistema imunológico humano possui milhões de linfócitos capazes de reconhecer diferentes antígenos e responder a muitos desafios simultaneamente. Não há nenhum risco de sobrecarga”, afirma.

Já tomei uma vacina respiratória, preciso tomar outra?

Segundo o portal G1, em matéria de 20/04/2026, gripe, Covid-19, pneumococo e vírus sincicial respiratório (VSR) são vacinas que não se substituem — atuam de forma complementar na proteção contra diferentes agentes respiratórios.

A recomendação não segue uma regra única. Idade, presença de doenças crônicas — como asma, diabetes ou cardiopatias — e o histórico vacinal influenciam quais imunizantes são indicados, quais podem ser combinados, e em que momento devem ser aplicados.

Por isso, o calendário vacinal deve ser organizado com orientação de um profissional de saúde, considerando o risco e as necessidades de cada pessoa.

Mpox: todo mundo precisa vacinar contra a varíola do macaco?

A mpox é uma doença viral zoonótica, semelhante à varíola humana, mas geralmente menos grave. É transmitida pelo contato físico próximo e prolongado com uma pessoa infectada, incluindo relações sexuais. Também ocorre via objetos contaminados — como roupas e lençóis — e por gotículas respiratórias em interações íntimas e prolongadas.

A vacinação contra a mpox não é indicada para toda a população. “É uma vacina com produção limitada e, neste momento, a doença não apresenta transmissão intensa. Por isso, a recomendação é direcionada a profissionais de saúde e pessoas que tiveram contato direto com casos de mpox”, explica a médica.

Nesses casos, a vacinação deve ser feita o mais rápido possível, preferencialmente em até 96 horas após o contato.

Como diferenciar efeitos adversos das vacinas dos sinais de alerta?

É comum que o corpo apresente algumas respostas leves após a aplicação, como febre baixa, dor, vermelhidão ou um leve inchaço no local da aplicação. Esses sintomas costumam ser passageiros.

Em crianças, no entanto, é preciso observar sinais como febre que vai e volta persistentemente, sonolência excessiva, choro contínuo ou irritabilidade incomum. “Se algo começa a aparecer de forma persistente, é preciso conversar com o médico de confiança e com a pessoa responsável técnica do local de imunização”, orienta a pediatra.

O que é melhor, tomar vacina ou esperar contrair a doença?

“Devemos ter muito mais medo do vírus natural, porque, se hoje temos menos sequelas e menos óbitos por várias doenças, isso é resultado do uso das vacinas. Depois da água tratada, as vacinas foram a medida que mais reduziu mortes no mundo”, destaca Giamberardino.

A especialista reforça que a vacinologia é uma área sólida, construída com o mesmo rigor científico aplicado a outras frentes da medicina. “Vacinar é confiar na ciência e saber que estamos fazendo a melhor escolha para a nossa saúde”, finaliza.

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