O que é autismo? Sinais e diagnóstico em todas as idades

Do primeiro sinal à vida adulta: o que as famílias e a sociedade precisam saber sobre o Transtorno do Espectro Autista

Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), feito em 2022, 2,4 milhões de pessoas foram diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil — 1,2% da população, com maior prevalência entre homens (1,4 milhão, contra 1 milhão da população feminina) e na faixa etária de 5 a 9 anos (2,6%).

Falar sobre autismo envolve desafios que vão do diagnóstico aos cuidados, mas também passa pela forma como a sociedade acolhe e inclui essas pessoas. Para aprofundar essa discussão, conversamos com Alexandre Bossoni, neurologista do Hospital Santa Paula, e Sócrates Salvador, neuropediatra do Hospital Moinhos de Vento.

O que é autismo?

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades persistentes na comunicação social e interação, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.

A partir de qual idade o autismo pode ser diagnosticado?

De acordo com Salvador, os sinais podem aparecer já nos primeiros meses de vida.

O diagnóstico costuma ser possível entre os 18 e os 24 meses. Em alguns casos, profissionais experientes conseguem perceber sinais ainda antes, por volta dos 12 meses, mas nem sempre é possível confirmar tão cedo, sendo necessário acompanhar o desenvolvimento da criança ao longo do tempo.

Independentemente da idade, o médico alerta: “não é preciso esperar o diagnóstico para começar a cuidar dos atrasos no desenvolvimento.”

Quais são os principais sinais de autismo?

Bossoni destaca alguns pontos de atenção, especialmente em crianças pequenas, como:

  • comportamentos repetitivos — por exemplo, enfileirar objetos;
  • dificuldade de contato visual;
  • atraso ou alterações na fala;
  • agitação;
  • irritabilidade;
  • e menor tolerância a mudanças.

Segundo o portal do Instituto NeuroSaber os sinais podem aparecer de forma diferente ao longo do desenvolvimento, em diferentes idades:

Aos 12 meses:

  • Não responde ao ser chamado pelo nome.
  • Não aponta ou gesticula para se comunicar.
  • Falta de contato visual constante.

Aos 18 meses:

  • Dificuldade em imitar expressões faciais ou sons.
  • Ausência de tentativas de compensar o atraso na fala com gestos ou expressões.
  • Presença de ecolalia (repetição de palavras ou frases).

Aos 24 meses:

  • Falta de interesse em compartilhar objetos ou experiências.
  • Dificuldade em manter contato visual durante interações.
  • Pouca ou nenhuma tentativa de iniciar brincadeiras imaginativas.

Identificar os sinais é fundamental para oferecer à criança o suporte necessário em seu desenvolvimento. A atenção a comportamentos como falta de interação social, atraso na fala e movimentos repetitivos pode fazer toda a diferença no diagnóstico e nas intervenções.

Existe exame para detectar autismo?

O diagnóstico do transtorno do espectro autista é essencialmente clínico, ou seja, ele se baseia principalmente na observação do comportamento e no histórico da criança, a partir de conversas com os cuidadores.

Na prática, esse processo segue critérios estabelecidos por manuais internacionais, como o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e a CID-11 (Classificação Internacional de Doenças), utilizados mundialmente como referência.

Nesse contexto, exames não são usados para confirmar o diagnóstico, mas podem ter um papel complementar. Salvador explica que testes genéticos, como microarray ou exoma, podem ser indicados em alguns casos para investigar possíveis causas e orientar o acompanhamento.

Já exames como ressonância magnética ou eletroencefalograma não diagnosticam o autismo, mas podem ser úteis para descartar outras condições neurológicas ou alterações estruturais no cérebro.

Por que o autismo pode ser mais complexo de identificar em meninas e mulheres?

Um dos fatores que pode dificultar o diagnóstico, especialmente no público feminino, é a chamada camuflagem social — o masking.

O termo se refere a estratégias que a própria pessoa desenvolve, muitas vezes de forma inconsciente, para disfarçar características do espectro e se adaptar melhor às situações sociais. Isso pode incluir imitar expressões faciais, forçar contato visual ou evitar falar sobre interesses específicos para não se destacar.

Segundo Salvador, mulheres também tendem a ter mais interesses em literatura ou temas culturais, o que pode implicar em menor suspeita clínica.

As demandas sociais e o esforço para se encaixar também podem fazer com que algumas dificuldades passem despercebidas.

Diagnóstico tardio de autismo: como isso afeta a vida da pessoa autista?

O diagnóstico de autismo na vida adulta tem se tornado mais frequente, acompanhado por uma maior conscientização sobre o transtorno.

Segundo Bossoni, esse é um processo mais complexo e que exige cuidado. Isso porque, ao longo da vida, outros fatores passam a fazer parte da avaliação do transtorno do espectro autista, como:

  • experiências pessoais;
  • relações familiares;
  • trabalho; e
  • possíveis diagnósticos associados, como ansiedade, depressão e outros transtornos.

Por isso, o diagnóstico tardio costuma depender de uma análise mais ampla e contínua, que leve em conta a história do indivíduo desde a infância.

O impacto do diagnóstico de autismo na vida adulta

Para algumas pessoas, receber o diagnóstico representa um alívio e uma forma de compreender melhor suas próprias experiências. Para outras, pode trazer frustrações por uma trajetória marcada por dificuldades sem o suporte adequado.

Ainda assim, o diagnóstico é um passo importante para o autoconhecimento e para a busca por acompanhamento e estratégias que melhorem a qualidade de vida.

Para além do lado pessoal, existe também o impacto no cotidiano. O foco das terapias, tratamentos e políticas públicas ainda está nas crianças — o autismo em adultos segue, de certa forma, invisibilizado.

Além disso, de acordo com dados da pesquisa Mapa Autismo Brasil, 30% dos respondentes adultos declararam estarem desempregados. Entre os empregados, uma parcela relevante atua como autônoma ou com vínculos informais, sugerindo rigidez dos ambientes corporativos em se adaptar às necessidades dessa população.

Quais profissionais podem ajudar no desenvolvimento de pessoas com autismo?

O cuidado é construído de forma individualizada, com a participação de diferentes profissionais para apoiar o desenvolvimento, a comunicação, as relações sociais e a qualidade de vida.

Esse acompanhamento pode incluir áreas como fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia, neuropsicologia, psicopedagogia, nutrição, fisioterapia, musicoterapia, psicomotricidade, serviço social e enfermagem, de acordo com as necessidades de cada pessoa.

Quais são as linhas de cuidado recomendadas para cada nível de suporte do autismo?

O olhar sobre o tratamento deve ser dinâmico e personalizado. Salvador explica: “O planejamento do cuidado leva em conta os sintomas que mais impactam na vida do autista e são mais modificáveis pelo tratamento.”

Ainda segundo o médico, o planejamento deve ser continuamente revisto, porque, conforme as transições de vida (para adolescência e para a vida adulta), é possível que os sintomas mais característicos do TEA tenham menor impacto para o paciente e as comorbidades, como depressão e ansiedade, se destaquem como causas de mais sofrimento e disfuncionalidade.

  • Nível de suporte 1: foco na autonomia, na adaptação social e na funcionalidade

O suporte é direcionado ao desenvolvimento de habilidades sociais, como iniciar uma conversa e manter trocas com outras pessoas. O objetivo é promover mais independência e ajudar a lidar com condições que podem gerar sofrimento, como ansiedade ou TDAH. Para os pais e cuidadores, o treinamento parental oferece orientação prática para lidar com o comportamento e apoiar o desenvolvimento da criança no dia a dia.

  • Nível de suporte 2: foco na comunicação e independência

Acompanhamento mais estruturado para auxiliar na comunicação e na redução de comportamentos-problema, como agressões, crises de raiva e automutilação. O suporte envolve a ajuda de profissionais para melhorar a autonomia em atividades cotidianas, como higiene e autocuidado, permitindo maior segurança e independência. Inclui também o treinamento parental como parte do cuidado.

  • Nível de suporte 3: foco na segurança e no cuidado contínuo, com intervenções comportamentais intensivas e uso de Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA) — um conjunto de recursos que ajuda a pessoa a se comunicar quando a fala é limitada. O cuidado inclui, ainda, apoio nas atividades de vida diária, como alimentação, higiene e locomoção.

E a Análise do Comportamento Aplicada (ABA)?

Uma das abordagens terapêuticas mais usadas no Brasil e no mundo é a Análise do Comportamento Aplicada (ABA). No entanto, a falta de regulamentação levou ao surgimento de cursos e formações sem base científica, o que compromete a qualidade do atendimento e pode até prejudicar os pacientes.

Por isso, o Conselho Federal de Psicologia alerta para a importância de profissionais qualificados e formação baseada em evidências científicas.

Como familiares podem apoiar pessoas no espectro autista?

Segundo Bossoni, pequenas atitudes fazem diferença no dia a dia, como manter uma rotina previsível, avisar com antecedência sobre mudanças e observar sinais de desconforto, como ansiedade ou irritação, que costumam anteceder crises.

Em alguns momentos, podem ocorrer episódios mais intensos, como o meltdown (episódio de agitação intensa por sobrecarga sensorial) ou o shutdown (quando a pessoa se fecha e reduz ou interrompe a comunicação)

O que fazer durante um meltdown?

Durante o meltdown, Salvador explica: “O foco deve garantir a segurança e promover a regulação da pessoa.” Nesse momento, é importante reduzir luz, ruídos e outros estímulos, diminuir cobranças e exigências, garantir a segurança física, evitando contenção, e manter uma comunicação mínima e neutra.

E o que fazer durante um shutdown?

No shutdown, o indicado é respeitar o isolamento temporário, monitorar necessidades básicas de forma discreta, não intrusiva e reduzir as cobranças e exigências.

Suporte gratuito para pessoas com autismo e seus familiares

O atendimento é oferecido na rede pública de saúde, a partir de iniciativas do Ministério da Saúde, como a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência (RCPD).

Locais onde buscar atendimento no SUS:

  • Unidades Básicas de Saúde (UBS)
  • Centros de Atenção Psicossocial (CAPS/CAPSi)
  • Centros de Especialidades/Policlínicas locais
  • Centros Especializados em Reabilitação (CER)
  • Hospitais de referência

A disponibilidade dos serviços pode variar conforme o município. Procure os serviços de saúde do SUS na sua cidade ou região.

Pessoas autistas são consideradas PCD?

Sim, conforme a legislação brasileira, pessoas com Transtorno do Espectro Autista são consideradas Pessoas com Deficiência (PCD).

Essa definição foi estabelecida pela Lei n.º 12.764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana, que criou a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

A legislação reconhece as pessoas autistas como pessoas com deficiência para fins legais, assegurando o acesso a direitos como saúde, educação e assistência social.

Quais são os direitos da pessoa com transtorno do espectro autista?

Entre os principais pontos previstos pela lei, destacam-se:

  • direito ao diagnóstico precoce, realizado por profissionais capacitados.
  • atendimento multiprofissional no Sistema Único de Saúde (SUS).
  • direito à inclusão escolar, com adaptações e apoio necessário.
  • Benefício de Prestação Continuada (BPC) para famílias que atendam aos critérios socioeconômicos;
  • prioridade em filas;
  • isenção de impostos na aquisição de veículos adaptados; e
  • vagas reservadas em concursos públicos.

Autismo tem cura?

Não, visto que o autismo não é uma doença, mas uma condição do neurodesenvolvimento. O que existem são terapias e intervenções que ajudam no desenvolvimento, na autonomia e na qualidade de vida da pessoa autista.

Todas as pessoas autistas têm deficiência intelectual?

Não. O perfil cognitivo no Transtorno do Espectro Autista (TEA) varia: algumas pessoas podem apresentar deficiência intelectual, enquanto outras têm inteligência média ou acima da média, inclusive com habilidades específicas.

Autistas têm emoções?

Sim. Pessoas autistas sentem emoções como qualquer outra pessoa. A diferença pode estar na forma de expressar ou comunicar esses sentimentos.

Vacinas causam autismo?

Não. Essa informação é um mito já amplamente desmentido por estudos científicos. Não existem evidências que comprove qualquer relação entre vacinas e o desenvolvimento do autismo.

Autismo é causado por falta de afeto dos pais?

Não. O autismo tem origem genética e neurológica e não há qualquer relação com a forma como a criança é criada ou com o vínculo familiar.

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