Do passado às pesquisas atuais, descubra as histórias das cientistas que ampliam fronteiras e abrem novas possibilidades terapêuticas, mesmo diante de desafios de gênero que ainda atravessam gerações

No início do século passado, a física e química Marie Curie, uma das cientistas mais importantes da história, precisou iniciar sua formação em uma universidade clandestina na Polônia.
Décadas depois, a química Rosalind Franklin revolucionou a biologia molecular ao capturar, em 1952, a famosa Foto 51, imagem de difração de raios X fundamental para a compreensão da estrutura em dupla hélice do DNA. Pesquisadora do King’s College London, trabalhava no mesmo laboratório do biofísico Maurice Wilkins, que mostrou a fotografia sem sua autorização aos cientistas James Watson e Francis Crick, da Universidade de Cambridge. A imagem forneceu evidências essenciais para o modelo do DNA que rendeu a eles o Prêmio Nobel em 1962. Rosalind morreu quatro anos antes, sem saber que sua contribuição seria reconhecida como decisiva.
Essas são apenas algumas das histórias — hoje conhecidas — que exemplificam como universidades, laboratórios e centros de pesquisa nem sempre estiveram abertos às mulheres.
Durante séculos, a ciência foi um território majoritariamente masculino. Muitas cientistas trabalharam sem reconhecimento e enfrentaram barreiras institucionais para ocupar espaços que hoje parecem naturais.
A história do conhecimento científico também é marcada por lacunas. Contribuições femininas foram, por muito tempo, registradas de forma secundária ou atribuídas a colegas homens, reforçando uma narrativa incompleta sobre quem construiu os avanços que sustentam a medicina contemporânea.
Embora o acesso das mulheres à formação acadêmica tenha avançado ao longo do século XX, o reconhecimento institucional nem sempre acompanhou esse movimento.
O apagamento histórico e o Efeito Matilda
Minimizar a contribuição de cientistas mulheres é uma prática que tem nome e atravessa gerações. Na ciência, esse fenômeno é conhecido como “Efeito Matilda”, termo inspirado na ativista norte-americana Matilda Joslyn Gage (1826–1898), que denunciou como invenções e descobertas feitas por mulheres eram frequentemente atribuídas a homens.
Reconhecer esse padrão significa compreender como estruturas institucionais podem influenciar trajetórias profissionais — e por que ampliar diversidade e representatividade na ciência é também fortalecer a qualidade da produção científica.
Quais avanços capitaneados por mulheres estão moldando a medicina contemporânea?
O cenário mudou, mas os desafios para as mulheres na ciência não desapareceram completamente. Elas seguem sendo minoria em posições de liderança científica e ainda enfrentam desigualdades estruturais que impactam financiamento, visibilidade e reconhecimento.
Ainda assim, pesquisadoras ao redor do mundo vêm transformando a medicina ao construir bases que sustentam diagnósticos, tratamentos e políticas de saúde. Trata-se de um movimento contínuo, impulsionado por mulheres que ampliam os limites do possível e consolidam novas fronteiras científicas.
Edição genética CRISPR-Cas9, a “tesoura genética”
Na biotecnologia, as cientistas Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier desenvolveram a tecnologia de edição genética CRISPR-Cas9, frequentemente chamada de “tesoura genética” por sua capacidade de cortar e editar trechos específicos do DNA com alta precisão.
A técnica já é utilizada em terapias aprovadas para doenças genéticas, como a anemia falciforme e a beta-talassemia, além de abrir caminhos para terapias voltadas a doenças raras e a alguns tipos de câncer. Trata-se de uma das maiores revoluções da biologia molecular nas últimas décadas, com impacto direto na medicina personalizada.
São avanços que não apenas ampliam o conhecimento científico, mas inauguram uma nova era de intervenções mais precisas e individualizadas na saúde.
Polilaminina contra lesões na medula espinhal
Na medicina regenerativa, pesquisas conduzidas pela cientista brasileira Tatiana Sampaio investigam o uso da polilaminina como estratégia para estimular a regeneração de neurônios após lesões na medula espinhal. Após resultados promissores em estudos iniciais, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de um estudo clínico de fase 1, etapa que tem como principal objetivo avaliar a segurança e a tolerabilidade da substância em voluntários humanos com lesão medular.
Trata-se de um avanço importante na trajetória da pesquisa, embora ainda sejam necessárias etapas posteriores para comprovar eficácia e segurança em grupos maiores de pacientes.
Pioneiras que transformaram a ciência e a medicina
- Marie Curie, física e química francesa: descobriu a radioatividade e lançou as bases da radioterapia e da medicina nuclear, sendo a primeira pessoa a receber dois Prêmios Nobel em áreas distintas.
- Rosalind Franklin, química britânica: capturou a histórica “Foto 51”, imagem de raio-X decisiva para revelar a estrutura do DNA e consolidar os fundamentos da biologia molecular moderna.
- Rita Levi-Montalcini, neurologista italiana: descobriu o fator de crescimento neural, essencial para a neurociência moderna e para o entendimento de doenças neurodegenerativas.
- Tu Youyou, farmacologista chinesa: desenvolveu uma terapia que revolucionou o tratamento da malária e salvou milhões de vidas.
- Gerty Cori, bioquímica tcheca: desvendou o metabolismo da glicose, fundamental para o estudo do diabetes e das doenças metabólicas.
- Katalin Karikó, bioquímica húngara: desenvolveu estudos que permitiram vacinas contra a Covid-19 baseadas em RNA mensageiro.
- Françoise Barré-Sinoussi, virologista francesa: identificou o vírus HIV, possibilitando avanços em prevenção e tratamento da AIDS.
- Rosalyn Yalow, física norte-americana: desenvolveu o radioimunoensaio, técnica que revolucionou a medição de hormônios no sangue, ampliando a precisão diagnóstica.
- Dorothy Hodgkin, química britânica: determinou a estrutura tridimensional da penicilina e da insulina.
- Alice Ball, química norte-americana: pioneira no tratamento contra a hanseníase.
- Zilda Arns, sanitarista brasileira: criou estratégias comunitárias que reduziram a mortalidade infantil e se tornaram modelo global de atenção básica.
Pesquisadoras brasileiras em destaque na saúde
- Mayana Zatz, geneticista: referência em genética médica, consolidou pesquisas em doenças raras e neuromusculares
- Nise da Silveira, psiquiatra: revolucionou a psiquiatria ao introduzir abordagens terapêuticas humanizadas e valorizar a expressão artística dos pacientes.
- Jaqueline Goes de Jesus, biomédica: liderou o sequenciamento dos primeiros genomas do SARS-CoV-2 no Brasil em apenas 48 horas — um tempo recorde — contribuindo de forma decisiva para respostas mais rápidas no enfrentamento da pandemia.
- Suzana Herculano-Houzel, neurocientista: desenvolveu um método inovador para contagem de neurônios, redefinindo o entendimento científico sobre o cérebro humano.
- Neuza Frazatti Gallina, bióloga: integrou a equipe responsável pelo desenvolvimento de vacina contra a dengue no Brasil, contribuindo para o enfrentamento de uma das principais doenças infecciosas do país.
- Tatiana Sampaio, bióloga: lidera pesquisas sobre a polilaminina, substância com potencial de regenerar lesões na medula. O método ainda passará por etapas de validação científica e regulatória.
Valorizar mulheres na ciência é reconhecer que inovação e equidade caminham juntas
Cada pesquisadora que ocupa um laboratório, lidera um estudo ou orienta novas gerações amplia não apenas o conhecimento científico, mas as possibilidades de cuidado para toda a sociedade.

