ISTs ainda são uma realidade no Brasil? 

Queda no uso de preservativos entre jovens e aumento do HIV entre idosos reforçam a importância da prevenção e mostram que IST não é “coisa do passado”

Dos jovens aos idosos, as gerações  encaram a prevenção, o diagnóstico e o tratamento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) de maneiras distintas. São diferenças culturais, como o tabu em torno da sexualidade na velhice; geracionais, associadas ao momento em que cada grupo iniciou a vida sexual; e de acesso à informação.

Os cenários podem ser diferentes, mas os resultados convergem nas lacunas da prevenção de ISTs: por um lado, houve queda no uso de preservativos entre os jovens — dados do IBGE de 2009 a 2019 revelam redução de 72,5% para 59% de pessoas que usam camisinha. Por outro, houve crescimento da infecção por HIV em pessoas mais velhas, com o aumento de 416% em casos na terceira idade de 2012 a 2022, segundo o Ministério da Saúde.

O que muda na prevenção de ISTs em diferentes gerações?

Entre pessoas idosas, a principal barreira à prevenção é cultural, explica Millena Pinheiro, médica infectologista do Real Hospital Português, em Recife. Ela explica que muitos não tiveram a educação sexual estruturada nem a camisinha incorporada como prática de cuidado. 

“Para o idoso, aceitar o preservativo é mais complicado. Ele não cresceu com essa orientação, com essa rotina. E apesar da percepção social de que pessoas idosas não têm vida sexual ativa, a realidade é outra, e a prevenção das ISTs tende a ficar em segundo plano. ”, diz.

Já nos grupos mais jovens, ela acredita que o cenário é diferente devido ao acesso ampliado à informação e às estratégias de prevenção combinadas. Além do preservativo, entram as vacinas — como as de HPV e hepatite B —, a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) oral ou injetável, a PEP Profilaxia Pós-Exposição e, mais recentemente, estratégias como a Doxy-PEP (profilaxia pós-exposição com doxiciclina), voltada à prevenção de sífilis e clamídia.

No entanto, para Millena, a questão é evitar que as informações sobre ISTs fiquem restritas a nichos. “Já não se fala tanto em campanhas para usar preservativos. Em algumas escolas existe educação sexual, mas é mais controle de natalidade. Ainda converso com pacientes meus que têm total desconhecimento sobre PrEP. É preciso mais engajamento”, analisa. 

Quais são as ISTs mais comuns e como identificá-las?

Somente em 2020, houve 374 milhões de novas infecções de pelo menos um dos quatro tipos mais comuns de ISTs curáveis no mundo: tricomoníase, clamídia, gonorreia e sífilis, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Já em 2022, 1,3 milhão de pessoas adquiriram a infecção pelo HIV, ainda segundo a organização.

Sífilis

Segue como desafio, especialmente porque o tratamento dos parceiros é essencial para interromper a cadeia de transmissão. 

“É uma infecção com alta transmissibilidade, mas, muitas vezes, não conseguimos identificar ou tratar o parceiro do paciente”, alerta a médica. 

Os principais sintomas da sífilis são: 

  • pequenas feridas nos órgãos sexuais; e 
  • caroços nas virilhas. 

Eles podem desaparecer após algum tempo, dando a ideia equivocada de melhora.

HPV (papilomavírus humano)

Já esse vírus tem uma estratégia essencialmente vacinal e de barreira, como o uso da camisinha. “Não há estratégia química que previna”, continua. 

Frequentemente não apresenta sintomas, mas os sinais incluem verrugas genitais.

Gonorreia e clamídia

Nestes casos, a preocupação é a resistência antimicrobiana. 

“Antigamente, tratava-se apenas com base na queixa ou no sintoma, administrando antibióticos de forma indiscriminada. Essa resistência gonocócica é uma preocupação mundial, e não apenas no Brasil.” 

Sintomas de gonorreia e clamídia: 

  • corrimento;
  • ardência ao urinar;
  • dor no baixo ventre; e 
  • sangramento vaginal fora do ciclo.

HIV

Apesar de ainda ter grande impacto em saúde pública, o HIV é tratado como uma condição crônica controlável. O principal obstáculo segue sendo a adesão ao tratamento ao longo da vida, um cuidado contínuo, individual e coletivo. “É um comprometimento bem forte”, fala Pinheiro. 

Em muitos casos, o HIV é assintomático, mas os sinais costumam ser inespecíficos, semelhantes aos de uma gripe, e aparecem entre duas e quatro semanas após a infecção. 

Como funciona a prevenção combinada de ISTs?

A chamada prevenção combinada das infecções sexualmente transmissíveis reúne diferentes estratégias que podem ser usadas de forma complementar:

  • camisinhas masculina e feminina;
  • PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e PEP (Profilaxia Pós-Exposição);
  • Doxy-PEP (profilaxia pós-exposição com doxiciclina);
  • vacinação (HPV, hepatites);
  • testagem regular e aconselhamento.

O que são a PrEP e a PEP na prevenção combinada de ISTs?

A palavra profilaxia significa prevenção. Ambas são abordagens farmacológicas, ou seja, agem por meio de medicamentos. A PrEP é uma estratégia preventiva de uso contínuo, antes da exposição, enquanto a PEP é utilizada de forma emergencial, após a exposição. 

A PrEP é indicada para pessoas em risco contínuo de exposição ao HIV, como aqueles com parceiros soropositivos. Normalmente são dois comprimidos (ou um comprimido combinado), tomados diariamente. 

Já a PEP é voltada para pessoas que foram recentemente expostas ao vírus HIV (como em relações sexuais desprotegidas, contato com objetos cortantes ou com fluidos corporais potencialmente contaminados). O tratamento deve ser iniciado assim que possível, dentro de até 72 horas após a exposição, e consiste na administração dos mesmos medicamentos por 28 dias consecutivos. 

Ambas impedem que o HIV se replique no corpo humano; sem a replicação viral, o sistema imunológico é capaz de eliminar o vírus. No entanto, elas não substituem o uso de preservativos, que continuam sendo fundamentais na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis.

Para receber a profilaxia, a médica explica que basta solicitar ao sistema de saúde. “Antigamente, quando falávamos de PrEP, a gente analisava o grau de exposição: quantas relações no período? Teve contaminação prévia? Hoje, o próprio indivíduo enxerga seu risco e pode pedir”, detalha.

Com que frequência fazer testes de ISTs e quem deve fazer?

A infectologista defende que não existe uma resposta única sobre a frequência ideal de testagem. Depende da vida sexual, do uso de métodos de prevenção e da percepção individual de risco. Ela recomenda:

  • pessoas em uso de PrEP: testagem a cada 3 meses;
  • pessoas com vida sexual ativa sem preservativo: entre 3 e 6 meses;
  • uso consistente de preservativo e baixo risco: pelo menos 1 vez ao ano.

A médica não recomenda intervalos maiores do que um ano. 

Pessoas com relacionamentos estáveis devem fazer exames de ISTs? Sim: “A testagem de ISTs é importante para todas as pessoas com vida sexual ativa, inclusive em relacionamentos considerados estáveis”, pontua Pinheiro. 

Onde fazer testes de ISTs?

Os exames podem ser feitos em unidades básicas de saúde da rede pública, nos hospitais e clínicas particulares ou nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA).

Para tirar dúvidas, se atualizar sobre estratégias de cuidado e encontrar serviços de testagem e acompanhamento de infecções sexualmente transmissíveis, vale buscar fontes confiáveis de informação contínua. Leia mais:

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