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Início > Saúde da Saúde > Prevenção > Endometriose: o que é por que o diagnóstico ainda demora tanto

Endometriose: o que é por que o diagnóstico ainda demora tanto

  • 11 de março de 2026

Embora afete 190 milhões de mulheres no mundo, a endometriose leva anos para ser diagnosticada. Normalização da dor é parte do problema

As cólicas menstruais acompanham muitas mulheres desde a primeira menstruação, e aprender a conviver com a dor, quase sempre, é tratado como parte do processo. Mas, quando essa dor é forte demais — um dos principais sinais da endometriose — ignorá-la provoca perda real de qualidade de vida.

O sintoma costuma ser recebido com desconfiança e impaciência. “Mas faltar no trabalho (ou em um outro compromisso) por cólica? Não é só tomar um remédio?”

Nem sempre. Em muitos casos, é preciso investigar. A endometriose afeta cerca de 190 milhões de mulheres em idade reprodutiva no mundo, o que representa 10% dessa população, segundo a Organização Mundial da Saúde. São números expressivos para uma doença cujo diagnóstico ainda demora, em média, sete anos, de acordo com o Ministério da Saúde.

“A gente normaliza a dor”, resume Mayra Matias, a ginecologista especialista em endometriose do hospital Sepaco, em São Paulo. “A mulher é chamada de fresca, de mimizenta, por não estar conseguindo sair de casa para trabalhar durante o ciclo. Tem muito preconceito”, diz.

O Março Amarelo é o mês de conscientização sobre a endometriose, e o objetivo é justamente ampliar o reconhecimento dessa doença.

O que é a endometriose e quais são suas causas?

O tecido que recobre a parte interna do útero é chamado de endométrio. Todo mês, se a mulher não engravidar, esse tecido se solta do órgão e sangra durante o ciclo menstrual. 

Na endometriose, tecidos semelhantes ao endométrio (endometrial-like) crescem fora do útero e podem provocar reações inflamatórias crônicas, comumente acompanhadas de fortes dores.

As causas da endometriose até hoje são indefinidas. A teoria mais aceita é a da menstruação retrógrada — em que sangue com tecido endometrial passa pelas tubas uterinas para a cavidade pélvica e se instala fora do útero —, mas ela não responde a todos os casos. Fatores imunológicos, hormonais e genéticos também são estudados como possíveis origens da doença.

Endometriose pode ter relação com resistência à insulina?

Uma pesquisa publicada na BMC Women’s Health aponta também para uma associação entre endometriose e resistência à insulina, já que mulheres com endometriose apresentam, com mais frequência, níveis elevados de insulina em jejum e alterações nos níveis de triglicerídeos e colesterol. O estudo sugere que essas taxas altas podem estimular o crescimento de tecidos semelhantes ao endométrio fora do útero e favorecer sua proliferação. 

Ainda não há consenso sobre o aumento do risco de diabetes tipo 2 pela endometriose, nem se tratar a resistência à insulina reduz a gravidade da doença. No entanto, monitorar glicemia, lipídios e peso é considerado clinicamente relevante para mulheres com o diagnóstico.

“O mais frustrante no consultório é ter que dizer que eu não tenho como dar resposta para as causas da endometriose. A gente sabe que é uma doença inflamatória, mas ninguém ainda conseguiu explicar exatamente por que ela acontece”, expõe Matias.

Quais são as consequências da endometriose?

A endometriose compromete diretamente a qualidade de vida de quem convive com ela. A dor pélvica crônica pode se intensificar durante o ciclo menstrual, durante as relações sexuais e até a evacuação. A persistência da doença pode afetar o sono, os relacionamentos e a saúde mental.

Mas esse impacto não fica restrito ao corpo. Há pesquisas indicando que o prejuízo da endometriose no mercado de trabalho é comparável ao de doenças como diabetes e artrite reumatoide, condições que raramente enfrentam o mesmo ceticismo. 

“Já ouvi de uma paciente que se esforçou muito, dedicou a vida à empresa em que trabalhava, ia até doente; mas, na hora da promoção, o cargo de chefia foi para um rapaz muito mais novo do que ela”, conta.

A fertilidade é outra dimensão diretamente afetada. Entre 30% e 50% das pessoas com endometriose podem ter dificuldade para engravidar. Para que se tenha ideia, em mulheres sem a doença, as chances mensais de engravidar são de 10% a 20%. Já entre quem tem o diagnóstico confirmado, as chances caem para 1% a 10%, segundo a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva.

Há ainda o caminho inverso: a endometriose está presente em até 50% dos casos de infertilidade investigados. “Tem mulheres que nem sabiam que tinham endometriose. Vão tentar engravidar, não conseguem, investigam e só então descobrem”, relata a ginecologista.

Como saber se tenho endometriose?

Os sintomas da endometriose variam de pessoa para pessoa. Ainda assim, alguns sinais merecem atenção:

  • cólicas e dor pélvica durante o período menstrual, que podem irradiar para a região lombar;
  • dor durante as relações sexuais;
  • sangramento intenso ou irregular
  • dor ao urinar ou evacuar durante o ciclo;
  • problemas digestivos, como diarreia, constipação ou náusea;
  • fadiga;
  • dificuldade para engravidar.

Nem sempre a intensidade da dor reflete a gravidade da doença. Há quem conviva com focos extensos de endometriose sem sentir nada, e quem tenha focos pequenos com dor debilitante. 

“Tem paciente que chega morrendo de dor com uma perda de qualidade absurda, mas tem focos muito isolados. Você vê também pacientes que nem sabiam que tinham endometriose, mas têm a pelve extremamente comprometida”, exemplifica a especialista. “O limiar de dor é algo muito individual.”

A presença de um ou mais desses sintomas não confirma o diagnóstico, mas é razão suficiente para buscar uma avaliação médica.

Como a endometriose é diagnosticada?

Por muito tempo, o método considerado definitivo para diagnosticar a endometriose era a videolaparoscopia, uma cirurgia em que uma câmera é inserida na pelve para visualizar os focos diretamente. Na prática, isso significava que mulheres precisavam passar por um procedimento cirúrgico para obter um diagnóstico, o que contribuía para a descoberta tardia da doença.

Diretrizes recentes passaram a recomendar um diagnóstico clínico baseado em sintomas, exame físico e exames de imagem, sem necessidade de confirmação cirúrgica. Hoje, o ultrassom transvaginal e a ressonância magnética são a primeira linha de investigação. A videolaparoscopia continua sendo o método mais preciso, especialmente para casos complexos, mas deixou de ser o único caminho.

Como a endometriose é tratada?

O tratamento da endometriose depende da intensidade dos sintomas, do desejo de engravidar e da fase de vida de cada paciente. A lógica é sempre partir do menos invasivo para o mais invasivo.

Nos casos mais leves, o controle hormonal com anticoncepcionais é a primeira linha (pílula, DIU hormonal, injeções ou adesivos). O objetivo é reduzir as oscilações de hormônios que estimulam a proliferação do tecido fora do lugar. 

Hábitos de vida também têm papel relevante: alimentação balanceada, atividade física regular e sono de qualidade ajudam a retardar a progressão da doença. “Essas coisas, que são os segredos para tudo na vida, também fazem muita diferença para a doença não evoluir”, diz Matias.

Quando os sintomas não melhoram com o tratamento clínico, a cirurgia é indicada. A videolaparoscopia permite retirar o tecido doente e restaurar a anatomia pélvica com precisão e menor tempo de recuperação, ampliando a janela de qualidade de vida e melhorando as condições para a concepção, para quem deseja engravidar.

Como não existe cura definitiva para a endometriose, o diagnóstico precoce e o acompanhamento contínuo são fundamentais para garantir a qualidade de vida de quem sofre com a doença.

Leia mais sobre o assunto no blog Saúde da Saúde:

  • Cirurgia de Endometriose profunda referencia equipe de ginecologia no Monte Sinai
  • Endometriose: tratamentos modernos envolvem implantes hormonais e cirurgia robótica
  • Três passos para melhoria do diagnóstico e tratamento da endometriose pelo SUS

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