Cada vez mais mulheres estão sofrendo infartos — e cada vez mais cedo. Entenda mais sobre a doença e seus fatores de risco

Segundo a World Heart Federation, doenças cardiovasculares têm sido responsáveis por cerca de 30% das mortes de mulheres ao redor do mundo todos os anos – mais do que o dobro de mortes causadas por todos os tipos de câncer juntos.
E esse não é o único dado alarmante. Recentemente, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) chamou atenção para o aumento nas mortes por infarto entre pessoas de 18 a 55 anos, especialmente mulheres.
Airma Cutrim, cardiologista do Hospital Edmundo Vasconcelos alerta que “o aumento da incidência em mulheres jovens contrasta com a tendência de queda observada em mulheres idosas, nas quais a incidência de infarto agudo do miocárdio (IAM) segue em declínio.”
Antes de entender os motivos e particularidades deste fenômeno, vale entender melhor do que se trata este mal.
Afinal, o que é um infarto?
Um infarto pode ser definido como a morte das células do músculo cardíaco causada pela falta de oxigenação, geralmente após a obstrução de uma artéria coronária – vaso sanguíneo responsável por levar sangue com oxigênio para o coração.
O que causa um infarto
A cardiologista explica que existem duas categorias de causas: as modificáveis e as não modificáveis.
Causas modificáveis
- Hipertensão arterial;
- Alterações do colesterol, especialmente elevação do LDL (colesterol ruim) e redução do HDL (colesterol bom);
- Diabetes;
- Tabagismo;
- Obesidade;
- Sedentarismo;
- Dieta inadequada;
- Consumo excessivo de álcool.
Causas não modificáveis
- Idade avançada;
- Histórico familiar de doença arterial coronariana precoce;
- Fatores genéticos como hipercolesterolemia (colesterol alto) familiar;
- Elevação da lipoproteína (a), responsável por fazer o transporte do colesterol no sangue.
O que contribui para o crescimento da prevalência de infarto em mulheres?
Quando falamos das causas especificamente em mulheres, a cardiologista comenta que alguns fatores psicossociais que são mais prevalentes nesse grupo, como depressão e estresse, têm impacto importante no risco de infarto – especialmente em mulheres mais jovens.
“Embora a incidência absoluta de infarto ainda seja maior em homens, o aumento do número de infartos do miocárdio em mulheres, especialmente em jovens e de meia-idade, é multifatorial e reflete tendências epidemiológicas globais” diz Cutrim.
O estilo de vida cada vez mais urbano e a alimentação que se distancia do natural e que inclui muitos ultraprocessados contribuem para o surgimento de fatores de risco, como síndrome metabólica, diabetes, obesidade e tabagismo, principalmente nas mulheres abaixo dos 55 anos.
E esses são apenas os fatores de risco tradicionais. A cardiologista conta que algumas condições específicas do sexo feminino que elevam o risco cardiovascular também estão em alta. É o caso de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, síndrome dos ovários policísticos, menarca precoce, menopausa precoce e doenças autoimunes.
“Essas condições são reconhecidas como ‘potencializadores de risco’ e contribuem para o aumento dos eventos em mulheres mais jovens.” completa a cardiologista.
Sintomas de infarto em mulheres
Segundo a especialista, os sintomas diferem significativamente entre homens e mulheres. A dor torácica é comum entre os dois gêneros, mas existem muitos outros que são exclusivos das mulheres:
- Falta de ar;
- Fadiga incomum;
- Náuseas;
- Vômitos;
- Dor em membros superiores (especialmente ombro e braço);
- Dor nas costas, no pescoço ou na mandíbula;
- Palpitações;
- Sensação de fraqueza;
- Sintomas gastrintestinais como indigestão.
“A presença de três ou mais sintomas associados é mais comum em mulheres, especialmente nas mais jovens, em comparação com homens”, afirma a cardiologista.
Além disso, mulheres tendem a descrever a dor torácica com termos menos clássicos, como pressão, aperto, queimação ou desconforto, em vez de ‘dor’ propriamente dita.
A especialista comenta, ainda, que é comum que mulheres mais jovens e idosas não sintam dor torácica, o que pode contribuir para atrasos no diagnóstico e tratamento, com consequente aumento da mortalidade hospitalar.
Fora todas essas diferenças físicas, ainda existem as questões socioculturais. “Mulheres também são mais propensas a interpretar seus sintomas como ansiedade ou estresse, e tanto elas quanto os profissionais de saúde tendem a subestimar a possibilidade de doença cardíaca, o que pode resultar em subdiagnóstico”, completa a cardiologista.
Como evitar infarto em mulheres?
O trabalho de prevenção de infarto em mulheres deve ser multifatorial e as estratégias incluem, principalmente:
Modificações no estilo de vida
Parar de fumar, incluir uma prática regular de atividades físicas e manter um peso saudável. A cardiologista também menciona que a adoção de uma dieta “cardioprotetora” — rica em fibras, vegetais e frutas e pobre em gorduras saturadas e trans — tem um papel importante nessa prevenção.
“O controle do estresse é uma intervenção fundamental e amplamente recomendada para todas as mulheres”, complementa
Controle rigoroso dos fatores de risco
O tratamento da hipertensão arterial, dislipidemia (colesterol e triglicerídeos altos) e diabetes deve ser individualizado e intensificado conforme a chance que a pessoa tem de desenvolver doenças no coração.
Avaliação e manejo de fatores de risco específicos do sexo feminino
Cutrim explica que a prevenção deve considerar fatores como menopausa precoce e, para aquelas que já engravidaram, hipertensão gestacional, diabetes gestacional e histórico de parto de recém-nascido pequeno para a idade gestacional.
“Esses fatores aumentam o risco cardiovascular e devem ser incorporados à análise de risco e ao planejamento preventivo.”
E o que não funciona (ou tem base científica frágil)?
“Terapia hormonal pós-menopausa não é indicada para prevenção primária ou secundária de eventos cardiovasculares devido ao aumento do risco de eventos adversos, especialmente acidente vascular cerebral.”
Cutrim comenta também que a suplementação de ácido fólico não demonstrou benefícios no quesito proteção cardiovascular.
O infarto agudo do miocárdio também é uma pauta das mulheres. Estar atenta aos sinais silenciosos que seu corpo dá e realizar mudanças na rotina pode salvar vidas.

