Mais de 16 milhões de brasileiros vivem com diabetes sem saber. A doença silenciosa que mata 3,4 milhões por ano merece sua atenção agora

No dia 14 de novembro, o mundo se une em torno de uma causa urgente: o Dia Mundial do Diabetes. A data tem o objetivo de chamar atenção para uma das maiores crises de saúde pública do século XXI – e o Brasil está no centro dessa epidemia.
Diabetes no Brasil
De acordo com o Atlas do Diabetes 2025 da International Diabetes Federation (IDF), as Américas Central e do Sul devem registrar um aumento de 45% nos casos até 2050. Isso significa saltar de 35,4 milhões para mais de 51,5 milhões de pessoas vivendo com a doença.
No Brasil, a situação também é crítica: segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Diabetes, cerca de 20 milhões de adultos têm a doença, e muitos nem sequer sabem que convivem com a condição.
Para entender melhor esse cenário e responder às principais dúvidas, conversamos com Guilherme Rollin, endocrinologista e chefe do Serviço de Endocrinologia e Nutrologia do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS).
Por que o diagnóstico do diabetes ainda é tão tardio?
“O diabetes tipo 2, que representa quase 90% dos casos, é uma doença silenciosa. A maioria das pessoas não apresenta sintomas no início, o que faz com que o diagnóstico passe despercebido e, frequentemente, só seja descoberto quando surgem complicações graves”, explica.
Principais fatores de risco do diabetes:
- excesso de peso e obesidade;
- sedentarismo;
- histórico familiar de diabetes;
- diabetes gestacional precoce (diagnosticada antes da 24ª semana de gestação).
Segundo Rollin, quem apresenta esses fatores de risco deve fazer exames de rotina, como glicemia de jejum e hemoglobina glicada, especialmente a partir dos 35 anos.
“A informação é o primeiro passo. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de evitar complicações sérias e manter a qualidade de vida”, completa.
O que o diabetes pode causar quando não é tratado?
Quando não é controlado adequadamente, o diabetes pode causar danos graves aos vasos sanguíneos e afetar diversos órgãos vitais. Segundo o endocrinologista, as principais complicações do diabetes incluem:
Doença renal do diabetes (nefropatia)
É a principal causa de hemodiálise no mundo. Os rins vão perdendo sua capacidade de filtrar o sangue, podendo levar à insuficiência renal.
Doença ocular (retinopatia diabética)
Principal causa de cegueira adquirida em adultos. O excesso de glicose danifica os vasos sanguíneos da retina.
Neuropatia diabética
Causa perda de sensibilidade nos pés e aumenta significativamente o risco de úlceras na pele e amputações.
Doenças cardiovasculares e cerebrais
Incluem infarto e acidente vascular cerebral (AVC), que são as principais causas de morte entre pessoas com diabetes tipo 2: segundo o Atlas de Diabetes, mais de 3,4 milhões de pessoas morreram em 2024 por causas ligadas à doença. Além disso, até 80% dos pacientes com diabetes morrem por causas relacionadas a problemas cardíacos, de acordo com a International Diabetes Federation (IDF).
Essas complicações não apenas reduzem a expectativa de vida, mas também comprometem profundamente a autonomia e o bem-estar dos pacientes.
Por que o diabetes é um desafio ainda maior no Brasil?
O Brasil enfrenta uma realidade desigual no acesso à saúde, e isso impacta diretamente o controle da doença.
“Há um contraste significativo entre o sistema público e o privado. Embora o SUS ofereça insulinas e alguns medicamentos gratuitamente, o que representa um avanço importante, as medicações mais modernas, que protegem o coração e os rins, ainda não estão disponíveis para toda a população”, alerta o médico.
O estudo BINDER (Brazilian Type 1 & 2 Diabetes Disease Registry), publicado na revista Frontiers in Clinical Diabetes and Healthcare em 2022, apontou que pacientes da rede privada conseguem manter níveis de glicose mais estáveis, o que reduz complicações a longo prazo. Essa diferença revela um problema estrutural grave: o acesso desigual à prevenção, diagnóstico e tratamento.
Diabetes tipo 2 tem relação com o estilo de vida?
Sim, e essa relação é muito forte. O diabetes tipo 2 está diretamente ligado a hábitos de vida pouco saudáveis. A urbanização acelerada, o consumo crescente de alimentos ultraprocessados, o sedentarismo e o estresse crônico criam um ambiente perfeito para o desenvolvimento da doença.
“O estilo de vida é fundamental tanto na prevenção quanto no controle do diabetes”, afirma Rollin. “Mesmo com as medicações mais modernas, se o indivíduo não muda a alimentação e não pratica atividade física regularmente, dificilmente consegue controlar a doença”, completa.
Pilares para prevenir o diabetes tipo 2:
- alimentação equilibrada e natural;
- exercícios físicos regulares;
- sono de qualidade;
- controle do estresse;
- manutenção do peso saudável.
Esses hábitos são essenciais para prevenir o diabetes tipo 2 e também ajudam no controle do tipo 1.
E o diabetes gestacional, também é motivo de preocupação?
O diabetes gestacional, diagnosticado durante a gravidez, é outro ponto crítico de atenção. Ele afeta uma em cada cinco gestações e traz riscos significativos tanto para a mãe quanto para o bebê.
Riscos para a mãe:
- pressão alta;
- pré-eclâmpsia;
- parto prematuro;
- ganho excessivo de peso.
Riscos para o bebê:
- nascimento com peso muito elevado (macrossomia);
- hipoglicemia após o parto;
- necessidade de cuidados especiais em UTI neonatal.
“Felizmente, o pré-natal adequado permite identificar precocemente o problema e garantir o controle da glicose durante a gestação”, tranquiliza Rollin. “Seguir os protocolos de exames é essencial para evitar complicações e garantir um desfecho saudável para mãe e filho.”
Quanto o diabetes custa para o Brasil?
Segundo informações do Ministério da Saúde, mais de 60% dos US$ 42,9 bilhões gastos por ano com pessoas com diabetes no país são direcionados ao tratamento de complicações decorrentes do controle inadequado da doença.
Além de medicamentos, insulinas e insumos para monitoramento, há os custos das complicações evitáveis, tais como:
- internações hospitalares;
- cirurgias cardíacas;
- sessões de hemodiálise, por conta das complicações renais;
- afastamentos do trabalho.
“O ideal seria investir mais em prevenção e educação em saúde. Prevenir o diabetes e suas complicações é muito mais barato do que tratar as consequências. Cada complicação representa um custo humano e econômico elevado”, defende o médico.
O que pode ser feito para mudar o futuro do diabetes no Brasil?
As projeções não são animadoras: segundo o Atlas do Diabetes 2025, o número de adultos com diabetes no mundo deve ultrapassar 850 milhões até 2050, e o Brasil continuará entre os dez países com maior número absoluto de pessoas vivendo com a doença.
Segundo o endocrinologista, o caminho passa por políticas públicas consistentes que incentivem hábitos de vida saudáveis e melhorem o acesso ao diagnóstico precoce.
As ações necessárias incluem:
- programas nacionais de triagem;
- educação em saúde nas escolas e comunidades;
- incentivo à alimentação saudável;
- campanhas de combate ao sedentarismo;
- ampliação do acesso a medicamentos modernos.
O especialista lembra ainda que combater a obesidade é o primeiro passo para conter o avanço do diabetes tipo 2. “Se reduzirmos a obesidade, reduziremos também o surgimento de novos casos de diabetes.”
Como prevenir o diabetes e suas complicações?
A mensagem do endocrinologista é clara e objetiva: “não espere ter sintomas para agir. Faça seus exames, mantenha uma alimentação saudável, pratique exercícios e procure seu médico regularmente.”
Mesmo quem já recebeu o diagnóstico pode viver bem e com qualidade. “Com o tratamento correto, acompanhamento médico e controle da glicose, é possível evitar complicações graves e manter uma vida ativa e saudável”, reforça.
Checklist de prevenção do diabetes
✓ Realize exames de glicemia regularmente (especialmente após os 35 anos)
✓ Mantenha uma alimentação balanceada, rica em vegetais e pobre em ultraprocessados
✓ Pratique pelo menos 150 minutos de exercícios físicos por semana
✓ Durma entre 7 e 9 horas por noite
✓ Mantenha o peso dentro da faixa saudável
✓ Faça acompanhamento médico regular
✓ Controle o estresse com técnicas de relaxamento
Conscientização e ação são essenciais para combater o diabetes
O diabetes é uma doença silenciosa, mas suas consequências podem ser devastadoras. No Brasil, o desafio é duplo: prevenir novos casos e garantir acesso ao tratamento para todos.
Por isso, a mensagem é de conscientização e esperança: informação, prevenção e cuidado contínuo são as melhores ferramentas para enfrentar essa epidemia.
A mudança começa com pequenas atitudes diárias. Sua saúde está em suas mãos, e o primeiro passo é a informação.

