Como se proteger das ondas de calor e de outras intempéries no verão

Em novembro, Belém (PA) está recendo a COP 30, conferência global em que líderes e especialistas discutem caminhos para enfrentar a crise climática. Enquanto isso, a população brasileira já sente os impactos do aquecimento global: ondas de calor intensas, frio fora de época, tempestades e enchentes frequentes revelam tanto o avanço das mudanças climáticas quanto o despreparo das cidades.

Esses eventos têm impacto direto na saúde, e não só na saúde individual: também comprometem a capacidade de resposta dos sistemas de cuidado – clínica, hospitais, laboratório etc. Hoje, 67% das unidades assistenciais da América Latina estão localizadas em áreas vulneráveis a eventos climáticos extremos, de acordo com pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Isso exige a conscientização da população vizinha, planos de contingência, adaptação da infraestrutura e formação contínua das equipes assistenciais.

“Já não é possível impedir o aquecimento global. Cabe a nós preparar o sistema e educar a população exposta”, afirmou Sidney Klajner, presidente do Einstein Hospital Israelita durante um painel no Conahp 2025 (Congresso Nacional de Hospitais Privados), destacando que o assunto — um dos eixos centrais da COP 30 — também é questão de saúde pública.

De modo geral, o Brasil é um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas, o que se agrava com a desigualdade social, segundo o coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável (USP), Paulo Artaxo. “Um aumento de 4 °C em Belém ou Cuiabá tem impacto muito maior do que o mesmo aumento em Estocolmo ou Montreal”, pontua. 

Para aproximar o debate do cotidiano, reunimos a seguir orientações práticas para lidar com altas temperaturas e outras situações climáticas extremas, ajudando famílias e profissionais a atravessar os dias mais quentes do ano com segurança.

Aprenda a identificar quando o calor faz mal

Aumento da frequência cardíaca, indisposição, boca seca, sonolência, tontura, dor de cabeça, fraqueza e suor excessivo podem indicar que o corpo está tendo dificuldade para regular a temperatura. É comum que a pessoa também se sinta mais cansada que o normal ou tenha dificuldade de se concentrar. 

Nesses momentos, o melhor é buscar imediatamente um ambiente mais fresco, descansar, beber água e tentar baixar a temperatura do corpo.

Se os sintomas evoluírem para confusão mental, falta de ar, desmaio ou alteração do estado de consciência, pode significar um agravamento do quadro de desidratação ou estresse térmico. Nesse caso, procure atendimento médico.

Hidrate-se ao longo do dia

A ingestão regular de água ajuda o corpo a manter o equilíbrio durante ondas de calor e repõe perdas causadas pelo suor. Mesmo sem sede, beba aos poucos ao longo do dia. Água de coco e sucos naturais podem contribuir; já bebidas alcoólicas, cafeinadas ou muito açucaradas podem favorecer a desidratação.

Um recurso simples para acompanhar o estado de hidratação é observar a cor da urina: quanto mais clara, melhor.

Priorize uma alimentação leve

Frutas, legumes e verduras são excelentes para manter o corpo mais disposto, por serem mais fáceis de digerir e ricos em água, o que contribui também para a hidratação. Alimentos como melancia, pepino, laranja, abacaxi e melão, por exemplo, são boas escolhas; ajudam a repor líquidos e podem ser consumidos ao longo do dia, em lanches ou como parte das refeições.

Já refeições gordurosas ou muito pesadas podem tornar a digestão mais lenta e aumentar a sensação de mal-estar ou sonolência em dias quentes.

Use roupas adequadas

Durante o verão ou em ondas de calor, opte por peças leves, de cores claras e tecidos que permitam ventilação, como algodão ou linho. Eles ajudam a dissipar o calor do corpo, reduzindo a sensação de abafamento. Por outro lado, roupas muito escuras ou com tecidos sintéticos podem reter mais calor, tornando o desconforto maior.

Ao sair, chapéus e bonés podem fazer sombra para a cabeça e o pescoço, mas não substituem o protetor solar. A recomendação mais comum é reforçar a proteção especialmente entre 10h e 16h, períodos nos quais a intensidade solar tende a ser maior.

Mantenha a casa mais fresca

Fechar cortinas ou persianas nos horários de sol mais intenso pode reduzir a entrada de calor, evitando que os ambientes fiquem superaquecidos. Já no início da manhã ou ao final da tarde, quando a temperatura tende a cair, vale abrir portas e janelas para favorecer a circulação de ar.

Além disso, prefira lâmpadas de LED, que aquecem menos do que os modelos mais antigos, e aproveite as plantas para criar sombras em janelas, varandas e quintais.

Planeje-se para tempestades e alagamentos

O verão também pode trazer chuvas fortes, enxurradas e quedas de energia.

Quando houver alagamentos, é importante evitar (sempre que possível) contato com a água, que pode conter esgoto, produtos químicos ou objetos escondidos. Se estiver dirigindo, recomenda-se não atravessar vias alagadas, pois a profundidade pode ser maior do que parece e a força da água pode arrastar veículos.

Durante tempestades, desligar e desconectar aparelhos elétricos pode ajudar a protegê-los contra eventuais picos de energia e diminuir as chances de choque. É aconselhável buscar abrigo em locais fechados e manter distância de árvores, postes e fios caídos, que podem atrair descargas elétricas.

Cuide de pessoas e populações mais vulneráveis

Alguns grupos são mais vulneráveis ao calor, como crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas. Nelas, os sintomas podem chegar mais rapidamente e ser mais intensos. Garanta água disponível, ambiente ventilado, e mantenha a atenção para os sinais de desidratação. Nesses casos, qualquer sinal de piora deve ser levado a sério.

Tenha um plano para momentos de emergência

Pequenas ações antecipadas tornam situações extremas mais seguras. Combine pontos de encontro com familiares para emergências, mantenha medicamentos essenciais acessíveis, guarde cópias digitais de documentos importantes de toda a família e deixe carregadores portáteis abastecidos. Esses cuidados oferecem mais segurança caso ocorram tempestades severas ou interrupções de energia.

Ter à mão contatos de emergência, como Defesa Civil, corpo de bombeiros ou plano de saúde, pode agilizar o atendimento em caso de necessidade.

Saiba quando procurar atendimento

Sinais como febre persistente, desmaio, confusão mental, dificuldade para respirar ou sintomas importantes de desidratação justificam uma avaliação médica. Identificar precocemente quando é hora de buscar ajuda é essencial para evitar complicações durante períodos de calor extremo ou outras situações climáticas severas.

Também vale se informar sobre quando e como acionar uma ambulância; o atendimento telefônico pode orientar os primeiros cuidados enquanto a equipe especializada se desloca, se necessário, aumentando as chances de um socorro mais rápido e eficiente.

“O hospital é o primeiro a abrir as portas quando o desastre acontece e o último a fechar”, lembra a CEO da Rede Santa Catarina, Alline Cezarani.

Um bom verão

Ondas de calor, tempestades e alagamentos exigem atenção. Na prática, isso se traduz em medidas que não eliminam os impactos da mudança climática, mas ajudam a atravessar a estação com mais segurança.

Em tempo de COP 30, a maior frequência desses eventos reforça que a adaptação ao aquecimento global se materializa no cotidiano, ao mesmo tempo que está nos grandes debates políticos. Cuidar do presente faz parte da mesma discussão que ocupará o centro das negociações globais neste mês.

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