Confira as principais perguntas respondidas por Eder Pacheco durante o Café da Manhã da Anahp, realizado em parceria com a White Martins, sobre o futuro da ventilação mecânica nas UTIs.
Fisioterapeuta do Departamento de Pacientes Graves do Einstein Hospital Israelita e pesquisador colaborador LIM-09 na Faculdade de Medicina da USP, Eder explicou como dados, curvas e monitorização pulmonar podem apoiar decisões mais precisas em pacientes críticos.
Por que discutir ventilação mecânica agora?
Porque os ventiladores mecânicos oferecem cada vez mais informações para as equipes. Curvas, gráficos, alarmes, índices e dados de mecânica respiratória fazem parte da rotina da UTI. O ponto crítico está em interpretar essas informações e transformá-las em conduta clínica.
“Os ventiladores mecânicos vêm acrescentando cada vez mais informações à rotina assistencial, mas muitos profissionais ainda não estão suficientemente treinados para interpretá-las”.
Para os hospitais, esse ponto envolve treinamento, protocolos, educação permanente e integração entre tecnologia e prática assistencial.
O que mudou na ventilação mecânica nas últimas décadas?
A ventilação mecânica moderna foi construída a partir de décadas de pesquisa sobre fisiologia pulmonar e segurança do paciente. Um dos marcos foi o avanço da ventilação protetora, que mostrou a importância de reduzir danos associados ao próprio uso do ventilador. Mas a adoção de novas evidências pela prática clínica costuma ser lenta.
“Em média, no mundo, leva 15 anos para as pessoas começarem a praticar o que mostrou agora a redução de mortalidade”.
Esse intervalo ajuda a explicar por que conceitos hoje considerados fundamentais demoraram a chegar de forma ampla às UTIs.
Ventilação protetora é só usar 6 ml/kg?
Não. O volume corrente de 6 ml/kg teve papel importante na consolidação da ventilação protetora. Sua aplicação, porém, precisa considerar as características de cada paciente.
Eder chamou atenção para uma contradição comum na prática clínica: embora a individualização seja um discurso frequente na medicina, muitos pacientes ainda recebem ajustes padronizados, como o uso de 6 ml/kg a partir do peso ideal.
O ponto não é descartar esse parâmetro, mas reconhecer que pacientes com características pulmonares diferentes podem responder de maneiras distintas aos mesmos ajustes.
Na prática, a individualização exige observar:
• condição clínica do paciente;
• mecânica respiratória;
• complacência;
• resposta aos ajustes ventilatórios;
• risco de colapso ou hiperinsuflação.
Por que o pulmão não pode ser tratado como uma estrutura homogênea?
Porque o pulmão não se comporta da mesma forma em todas as regiões. A gravidade, a posição do paciente e a própria doença pulmonar fazem com que diferentes áreas tenham respostas diferentes à ventilação.
Em pacientes graves, o pulmão pode reunir ao mesmo tempo:
• regiões normalmente ventiladas;
• áreas parcialmente recrutadas;
• alvéolos colapsados;
• áreas sob risco de hiperinsuflação.
O problema é que o ventilador trabalha com medidas globais. Pressão, volume e complacência mostram o comportamento médio do sistema respiratório, mas não revelam tudo o que acontece em cada região do pulmão.
Essa diferença entre a leitura global do ventilador e o comportamento regional do pulmão é uma das razões para o avanço de métodos de monitorização mais detalhados.
Qual é o papel da PEEP?
A PEEP, ou pressão positiva expiratória final, ajuda a manter os alvéolos abertos ao final da expiração. Ela reduz o fechamento repetitivo de unidades alveolares e contribui para estabilizar o pulmão.
A proteção pulmonar depende tanto de limitar a pressão de distensão quanto da prevenção de ciclos repetidos de abertura e fechamento alveolar.
A discussão atual está em identificar o nível mais adequado de PEEP para cada paciente. Uma pressão baixa pode favorecer colapso. Uma pressão alta pode provocar hiperinsuflação em áreas já abertas.
Por isso, a escolha da PEEP precisa considerar fisiologia, resposta individual e informações obtidas à beira do leito.
O que a curva pressão-volume ajuda a mostrar?
A curva pressão-volume permite observar a relação entre a pressão aplicada e o volume mobilizado pelo sistema respiratório. Ela ajuda a avaliar o comportamento mecânico do pulmão e pode apoiar decisões sobre recrutamento, colapso e complacência.
A ferramenta fez parte da história da ventilação protetora e voltou ao debate com a possibilidade de integração a tecnologias mais recentes.
Na prática, a curva pode ajudar a responder perguntas como:
• o pulmão está recrutando com determinado ajuste?
• há sinais de colapso?
• existe risco de hiperinsuflação?
• a PEEP escolhida faz sentido para aquele paciente?
A curva, isoladamente, não define a conduta. Ela precisa ser interpretada junto com o quadro clínico e outros dados disponíveis.
Como a impedância elétrica entra nessa discussão?
A tomografia por impedância elétrica permite acompanhar a distribuição regional da ventilação à beira do leito. Com ela, a equipe consegue observar como diferentes regiões do pulmão respondem aos ajustes ventilatórios.
Esse recurso ajuda a enxergar aspectos que os parâmetros globais do ventilador não mostram com a mesma precisão, como:
• distribuição regional da ventilação;
• recrutamento alveolar;
• colapso;
• hiperinsuflação;
• resposta a diferentes níveis de PEEP.
A integração entre ventiladores mecânicos e tecnologias de monitorização avançada amplia a capacidade de avaliar o comportamento pulmonar à beira do leito. Para os hospitais, o ganho está em apoiar decisões mais individualizadas, especialmente em pacientes graves.
Todo paciente precisa de titulação individualizada da PEEP?
Não necessariamente. A titulação individualizada deve ser indicada com critério.
O ponto central é identificar quais pacientes podem se beneficiar mais de uma avaliação detalhada. Em geral, esse debate ganha força em casos mais graves, com maior instabilidade pulmonar ou resposta menos previsível aos parâmetros tradicionais.
Nesses cenários, a monitorização avançada pode ajudar a escolher ajustes mais seguros e coerentes com o comportamento real do pulmão.
O que muda para as equipes da UTI?
Muda a exigência de interpretação. A equipe precisa saber operar o ventilador, mas também compreender o que os dados significam.
Existem situações em que o ventilador alarma, a equipe desconecta o paciente, usa a bolsa-válvula-máscara e interpreta a melhora imediata como solução. O problema é que, nesses casos, o equipamento pode estar alertando para uma condição inadequada de ventilação.
Esse exemplo mostra que tecnologia sem leitura clínica pode gerar ruído. O dado precisa ser entendido dentro do contexto do paciente.
O que os hospitais precisam observar a partir desse debate?
Do ponto de vista institucional, o debate aponta para uma agenda prática.
Alguns pontos merecem atenção:
• capacitação das equipes para leitura de curvas, alarmes e dados do ventilador;
• protocolos que indiquem quando reavaliar PEEP e outros parâmetros;
• integração entre médicos, fisioterapeutas, enfermagem e equipes de qualidade;
• critérios claros para uso de monitorização avançada em pacientes graves;
• avaliação crítica de novas tecnologias antes da incorporação à rotina.
O tema também reforça a importância da educação continuada. Quanto mais informação o ventilador oferece, maior precisa ser a capacidade da equipe de interpretar esses dados com segurança.