Saúde mental e bem-estar dos profissionais — engajamento como consequência, não como meta

A Jornada Digital de abril abordou um dos temas mais críticos para o presente e o futuro das organizações de saúde. A saúde mental dos profissionais deixa de ser tratada como agenda paralela e passa a ser reconhecida como condição para engajamento, desempenho e sustentabilidade institucional.

No segundo encontro do mês, dentro do macrotema Lideranças e Talentos, o debate aprofunda uma mudança de abordagem que começa a ganhar espaço no setor. As organizações avançaram na criação de programas de apoio, mas ainda operam, em muitos casos, de forma reativa. O desafio passa a ser estruturar o cuidado como parte da cultura organizacional, e não como resposta ao adoecimento.

A discussão apontou que o bem-estar não se sustenta como iniciativa isolada. Ele depende da forma como o trabalho é organizado, das relações estabelecidas no cotidiano e das condições concretas oferecidas às equipes.

Participaram do encontro

  • Adriana Fregonese, coordenadora do Serviço de Psicologia do HCor
  • André Fusco, médico-psicanalista e embaixador da ergonomia mental no Brasil
  • Dulce Brito, coordenadora dos cursos de Gestão de Saúde Mental nas Organizações pelo Ensino Einstein
  • Moderação: Ary Ribeiro, diretor-executivo da Elibré Saúde Mental

O problema não está no indivíduo — está nas condições de trabalho

Não se trata de entender como o profissional suporta a pressão, mas quais condições estão sendo criadas para que ele não precise adoecer para dar conta do trabalho.

“Não existe cuidado que se sustente apenas no nível individual.” — Adriana Fregonese

Esse deslocamento ganha forma em elementos concretos da rotina

  • organização das escalas
  • espaço para discussão de situações críticas
  • possibilidade de falar sobre erros
  • qualidade do reconhecimento e dos feedbacks
  • abertura para elaboração após eventos adversos

Ambientes que estruturam esses espaços produzem efeitos distintos daqueles que operam na lógica da continuidade automática do trabalho, sem elaboração. A diferença aparece diretamente na saúde mental das equipes.

Engajamento não se cobra — se constrói

O engajamento deixa de ser meta ou exigência e passa a ser entendido como consequência do ambiente organizacional.

“Profissionais mais engajados não são os que aguentam mais, mas os que encontram sentido naquilo que fazem.” — Adriana Fregonese

Esse entendimento se traduz em efeitos observáveis na operação

  • menor rotatividade, inclusive em áreas críticas
  • maior colaboração entre equipes
  • maior participação nas discussões de casos
  • redução da fragmentação entre áreas

Transformar engajamento em cobrança reforça a lógica que produz adoecimento, ao deslocar a responsabilidade do contexto para o indivíduo.

Liderança como fator de ambiente

A liderança aparece como um dos principais fatores de variação dentro das próprias instituições. A experiência do profissional não é homogênea — ela muda de forma significativa conforme a liderança imediata.

Ambientes com abertura para escuta e troca costumam produzir maior integração e segurança. Estruturas mais centradas apenas na execução reforçam isolamento e dificuldade de elaboração.

Nesse contexto, a liderança amplia seu escopo

  • cria espaço para circulação de experiências e afetos
  • sustenta conversas difíceis
  • reconhece limites e vulnerabilidades
  • equilibra exigência e cuidado

“Liderança não é só gestão de processos. É gestão de pessoas e de afetos.” — Adriana Fregonese

Uma crise estrutural — e mais intensa na saúde

O adoecimento mental no trabalho não é pontual. Trata-se de uma crise global, com impacto ampliado entre profissionais de saúde.

Dados apresentados no encontro ajudam a dimensionar esse cenário

• médicos e enfermeiros podem ter até cinco vezes mais risco de transtornos mentais do que a população geral
• um em cada três profissionais relata sintomas ansiosos ou depressivos
• no Brasil, cerca de 45% dos médicos apresentam ao menos um transtorno mental

O impacto ultrapassa o indivíduo e alcança a qualidade assistencial, a segurança do paciente e a capacidade de tomada de decisão.

“Profissionais de saúde têm um risco muito maior de adoecimento mental. Isso exige uma resposta proporcional das organizações.” — Dulce Brito

Do programa ao sistema

A resposta ao problema exige mudança de escala. Iniciativas pontuais não dão conta de um fenômeno estrutural.

O debate aponta para uma abordagem integrada, que articule diferentes dimensões

  • relações entre pessoas
  • processos de trabalho
  • ambientes e condições operacionais
  • uso e impacto da tecnologia
  • cultura e modelo de gestão

Sem integração entre esses elementos, as ações perdem o efeito ao longo do tempo.

“Sem um plano estruturado, com indicadores claros, será muito difícil avançar.” — Dulce Brito

A construção desse plano passa por

  • definição de indicadores
  • acompanhamento contínuo
  • atuação coordenada entre níveis de liderança

Do ajuste do indivíduo à transformação do trabalho

A discussão avança ao questionar a lógica predominante de resposta ao problema. A ênfase em ações de bem-estar, embora relevante, não atinge a origem do adoecimento quando descolada da organização do trabalho.

“Estamos tentando adaptar as pessoas ao sofrimento, em vez de transformar o trabalho.” — André Fusco

O foco se desloca para a estrutura

  • regras e metas estabelecidas
  • critérios de avaliação e comparação
  • desenho de processos
  • níveis de burocracia
  • crenças e valores que orientam a prática

Esse movimento exige enfrentar padrões culturais consolidados, muitas vezes naturalizados dentro do próprio setor.

“Não adianta falar de comportamento se as regras do trabalho estimulam o contrário. A forma como o trabalho é organizado determina o que acontece na prática.” — André Fusco

Conclusão — cuidar de quem cuida é parte da assistência

O debate consolida uma mudança de perspectiva. A saúde mental dos profissionais deixa de ser um tema periférico e passa a ser elemento estruturante da operação hospitalar.

Não se trata apenas de apoiar quem adoece. É preciso construir ambientes que não produzam adoecimento como regra.

Isso se materializa

  • na forma como o trabalho é organizado
  • na qualidade das relações
  • na atuação das lideranças
  • na capacidade de medir e acompanhar

No ano em que completa 25 anos, a Anahp segue acompanhando e participando da evolução da gestão hospitalar no país. E nesse novo capítulo da Jornada Digital, aponta que a sustentabilidade das instituições passa, necessariamente, pela forma como cuidam de quem sustenta o cuidado.

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