Negociação com equilíbrio: quando a parceria se transforma em construção de mercado

No dia 17 de março, a Anahp realizou mais uma edição do seu Café da Manhã, desta vez em parceria com a Select, operadora de planos de saúde em expansão nacional.

Com o tema “Negociação com equilíbrio: quando a parceria se transforma em construção de mercado”, o encontro reuniu lideranças do setor para discutir como evoluir a relação entre operadoras e prestadores — saindo de uma lógica transacional para um modelo baseado em parceria, previsibilidade e geração de valor no longo prazo.

Em um ambiente marcado por pressão de custos, judicialização crescente, aumento da complexidade assistencial e margens cada vez mais estreitas, a discussão reforçou que negociar deixou de ser um exercício de preço. Tornou-se uma decisão estratégica, capaz de sustentar — ou fragilizar — o mercado como um todo.

Palestrante:

· Luiz Dornelles – superintendente da Select

Principais pontos:

1 – Equilíbrio como ponto de partida

A negociação deixa de ser uma etapa isolada e passa a orientar a decisão desde o início — inclusive sobre o que faz sentido contratar.

“Se a relação não fecha para os dois lados, ela não se sustenta. Mais cedo ou mais tarde, isso volta para a mesa.” – Luiz Dornelles

Na prática, isso significa olhar o contrato a partir de três dimensões que precisam caminhar juntas:

  • viabilidade econômica para as duas partes;
  • qualidade assistencial preservada;
  • previsibilidade ao longo da operação.

Quando esse tripé não está equilibrado, o problema não aparece na negociação — aparece depois, na execução.

2 – Conflito não se resolve com discurso — se resolve com processo

Boa parte das tensões do dia a dia não nasce da negociação em si, mas da forma como ela é operada.

“Se a gente não muda a forma de operar, a gente continua discutindo as mesmas coisas todos os meses.” – Luiz Dornelles

Na prática, o ponto crítico está na ausência de rotina de gestão da relação. Quando isso não existe:

  • a divergência só aparece no faturamento;
  • a glosa vira o principal canal de comunicação;
  • o ajuste acontece sempre de forma reativa.

O caminho apontado não passa por alinhamento pontual, mas por estrutura:

  • canais claros de interlocução com a operadora;
  • revisão contínua das condições acordadas;
  • tratamento das divergências ao longo do processo, e não apenas no faturamento.

Sem isso, o ciclo se repete — e se institucionaliza.

3 – Modelo de remuneração é decisão operacional

A escolha do modelo não pode ser genérica nem replicada automaticamente.

“O modelo só funciona quando ele conversa com a operação. Quando não conversa, ele gera distorção.” – Luiz Dornelles

Cada formato traz implicações diferentes:

  • no fee-for-service, o desafio está no controle e na gestão de divergências;
  • no capitation, na coordenação do cuidado e na previsibilidade;

Mais do que escolher o modelo, o ponto central é garantir aderência à operação real — e capacidade de gestão sobre ele.

4 – Negociação precisa conversar com o planejamento

Um contrato pode ser positivo isoladamente e, ainda assim, gerar distorção no conjunto.

“Quando a negociação não está conectada à estratégia, ela resolve o curto prazo e cria problema lá na frente.” – Luiz Dornelles

Na prática, isso aparece quando o contrato:

  • traz volume que a estrutura não comporta;
  • pressiona serviços com custo mais alto sem compensação adequada;
  • desalinha o mix de pacientes em relação ao posicionamento do hospital;

Por isso, a decisão deixa de ser apenas financeira e passa a considerar:

  • capacidade instalada e uso da estrutura;
  • impacto no mix assistencial;
  • aderência aos planos de expansão e investimento;

Quando esse alinhamento não existe, o efeito é conhecido: ajustes frequentes, perda de margem e necessidade de renegociação antes do previsto.

5 – Prestador como parte da estratégia

O papel do prestador não se limita à execução do contrato.

“Quem está na assistência define a experiência, o desfecho e, no fim, a percepção de valor do sistema.” – Luiz Dornelles

Na prática, isso se traduz na capacidade de participar da construção da relação, e não apenas cumprir o que foi contratado:

  • trazer dados da operação para a mesa de negociação;
  • sinalizar limites reais de capacidade e custo;
  • discutir modelos assistenciais e não só preço;
  • alinhar expectativas de crescimento e volume;

Quando isso acontece, a dinâmica muda: o contrato passa a ser um ponto de partida — e a negociação evolui junto com a operação.

6 – Curto prazo resolve caixa. Longo prazo sustenta o negócio

O ganho imediato pode aliviar, mas não sustenta a operação ao longo do tempo.

“Se a conta só fecha no papel, ela não fecha na operação. E é aí que o contrato começa a dar problema.” – Luiz Dornelles

O que sustenta é previsibilidade. E ela depende de alguns elementos concretos:

  • regras claras e executáveis;
  • revisões pactuadas;
  • acompanhamento contínuo do resultado real.

Sem isso, o contrato volta para a mesa — e o ciclo recomeça.

7 – Diferencial competitivo está na entrega

Nem tudo se resolve no contrato. Parte relevante do resultado está na forma como a relação funciona no dia a dia.

“A negociação não termina quando o contrato é assinado. É na operação que ela se confirma — ou se perde.” – Luiz Dornelles

Isso se materializa na rotina:

  • na agilidade para resolver pendências e divergências;
  • na qualidade da interlocução entre as equipes assistenciais, administrativas e de faturamento;
  • na consistência da jornada do paciente, do atendimento ao fechamento da conta;

Quando esses pontos funcionam, o atrito diminui, o retrabalho reduz e a relação ganha estabilidade.

Aqui também ganha força um ponto cada vez mais evidente no setor: a experiência do paciente — e o atendimento humanizado — deixou de ser acessório e passou a influenciar diretamente a percepção de valor, a reputação e a continuidade da relação.

8 – Crescimento exige relação estruturada

Expandir não é apenas aumentar volume. É sustentar relação.

“Crescer sem ajustar a base da relação só aumenta o problema.” – Luiz Dornelles

Isso implica:

  • alinhar crescimento com capacidade real de entrega;
  • tratar a relação com operadoras como ativo estratégico;
  • integrar operação, faturamento e negociação.

Além disso, negociações mais maduras passam a considerar o contexto — reconhecendo limites, diferenças regionais e o momento de cada parceiro. Quando essa estrutura existe, o crescimento deixa de ser pressão — e passa a ser consequência.

Conclusão

A discussão concluiu que o problema não está apenas no que se negocia, mas em como essa relação é estruturada e operada ao longo do tempo. Contratos podem até resolver o curto prazo, mas é a capacidade de executar — com previsibilidade, alinhamento e interlocução — que sustenta o resultado.

No fim, negociar melhor não significa pressionar mais ou ceder mais, significa construir uma relação que funcione. E que continue funcionando depois que o contrato é assinado.

Assista ao evento na íntegra


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