No ano em que a Anahp completa 25 anos, a Jornada Digital de abril avançou na discussão sobre a formação de lideranças para um setor cada vez mais tecnológico, integrado e orientado por dados — sem perder a dimensão humana do cuidado.
O terceiro encontro do ciclo Lideranças e Talentos destacou que a transformação no setor exige mais do que atualização técnica. Exige líderes capazes de interpretar contextos, sustentar decisões em cenários instáveis e conduzir mudanças dentro das organizações.
Participaram do debate:
- Fabio Patrus, diretor-executivo do Hospital da Baleia
- Maurício Lopes, CEO da Qualiacorp
- Victor Gadelha, líder em Pesquisa Clínica e Soluções de Dados na Dasa
- Flávia Oliveira, coordenadora de seleção, treinamento e DHO do Hospital Nipo-Brasileiro (moderação)
Principais pontos:
Liderança passou a exigir ambidestria
Liderar em saúde hoje significa lidar com pressões simultâneas, demandas contraditórias e decisões que precisam equilibrar qualidade, sustentabilidade e transformação.
“Tem momentos em que você está resolvendo um problema básico de processo e, ao mesmo tempo, pensando em como transformar o hospital para o futuro” – Fabio Patrus
Esse contexto exige atuação em diferentes horizontes ao mesmo tempo. O líder precisa dar conta do presente sem perder a direção do futuro, mesmo quando essas agendas parecem disputar espaço.
Formação tradicional já não basta
Modelos clássicos de formação executiva não acompanham mais a velocidade das mudanças no setor.
“Apenas focar em conteúdo dá uma sensação de preparo que não se sustenta quando a realidade exige julgamento” – Maurício Lopes
Acumular cursos ou repertório técnico já não garante preparo real para a liderança. A tomada de decisão passou a depender da capacidade de leitura de contexto, adaptação e julgamento diante de situações que não seguem roteiro.
- interpretar cenários complexos
- julgar com informação incompleta
- adaptar decisões com rapidez
- sustentar pensamento crítico em contextos instáveis
Tecnologia muda o papel do líder
A tecnologia atravessa toda a operação e amplia o volume de informação disponível, além de automatizar tarefas que antes exigiam esforço manual.
“Hoje, uma pessoa com as ferramentas certas consegue fazer análises que antes exigiriam vários profissionais” – Victor Gadelha
O foco está na capacidade de entender o que a tecnologia permite, integrar esse uso à rotina e tomar decisões com base nesse novo volume de dados.
Cultura ainda é a principal barreira
Mesmo com avanço tecnológico, o principal desafio continua sendo cultural.
“A hora que você digitaliza, você tira os espaços de adaptação informal — e isso incomoda porque expõe o processo como ele realmente é” – Fabio Patrus
A formação dos profissionais ainda é fortemente técnica, com pouca ênfase em gestão, integração e colaboração. Quando os processos se tornam mais estruturados e transparentes, surgem resistências que não estão na ferramenta, mas na forma de trabalhar.
Segurança psicológica ainda avança de forma desigual
Outro ponto importante é a dificuldade de consolidar ambientes que permitam experimentação, erro e aprendizado contínuo.
“Quando a liderança incentiva, o ambiente se torna mais permissivo ao teste. Quando não incentiva, o comportamento trava” – Victor Gadelha
A percepção é de que esse avanço acontece de forma desigual dentro das organizações:
- níveis executivos são normalmente mais abertos à experimentação
- lideranças operacionais ainda atuam sob maior rigidez
- o incentivo da alta liderança segue sendo decisivo
Liderança se desenvolve no exercício da função
A formação de líderes acontece principalmente na prática.
“Você pode treinar, mas é no momento em que a pessoa precisa decidir que ela de fato aprende” – Maurício Lopes
A evolução acontece quando o profissional é exposto a decisões reais, assume responsabilidade e lida com as consequências das escolhas.
Clareza e ritos sustentam a mudança
É preciso dar foco e método ao processo de mudança.
“A gente percebe que o líder só incorpora a gestão quando ele é chamado, de forma recorrente, a olhar o resultado e responder por ele” – Fabio Patrus
Definir prioridades, simplificar a agenda e criar ritos de acompanhamento ajuda a dar consistência à gestão. Esses momentos também funcionam como espaços de aprendizagem, porque expõem o líder à análise e à tomada de decisão.
Soft skills exigem coerência
Competências como comunicação e capacidade de engajar pessoas ganham peso nesse cenário.
“A comunicação parece simples, mas envolve como você pensa, como fala e como o outro interpreta — é um processo complexo” – Victor Gadelha
O desenvolvimento dessas habilidades depende de prática, consistência e alinhamento entre discurso e comportamento.
Conclusão: formar líderes passou a ser formar capacidade de julgamento
O debateu mostrou que a formação de líderes para a saúde 5.0 está diretamente ligada à capacidade de julgamento em ambientes complexos. Isso envolve interpretar cenários, integrar tecnologia à decisão, equilibrar eficiência e qualidade e conduzir mudanças culturais em contextos de pressão constante.
Ao levar esse tema para a Jornada Digital, a Anahp reforça que discutir o futuro da gestão em saúde passa por discutir quem serão — e como serão formados — os líderes capazes de conduzi-lo.