Jornada Digital | Gestão estratégica de suprimentos: eficiência operacional como agenda de negócio

No ano em que a Anahp celebra 25 anos, a Jornada Digital de fevereiro de 2026 aprofundou o debate sobre eficiência operacional sob uma perspectiva muitas vezes invisível ao público assistencial, mas determinante para o resultado hospitalar: a gestão estratégica de suprimentos.

O terceiro encontro do mês, dentro do macrotema Eficiência Operacional, discutiu como reduzir desperdícios, fortalecer a padronização, utilizar BI na gestão de estoques e preparar as instituições para um cenário de maior complexidade financeira e novos modelos de remuneração.

O debate apontou para um supply chain hospitalar como função estratégica, conectada diretamente à sustentabilidade financeira, à previsibilidade operacional e à qualidade assistencial.

Participaram do debate:

  • Julio Vieira, CEO do HCor e conselheiro Anahp
  • Rodrigo Rocha, gestor de Suprimentos do Grupo Santa Joana
  • Sérgio Henrique Oliveira, gerente-executivo de Logística e Suprimentos da Rede Mater Dei de Saúde
  • João Fábio Silva, diretor de Supply Chain do Hospital Care (moderação)

Principais pontos:

Suprimentos deixa de ser operacional e assume protagonismo estratégico

Logo na abertura, ficou claro que o papel da área mudou. Se antes suprimentos era visto como centro de custo, hoje passa a influenciar decisões de margem, contratos e viabilidade de negócio.

“Atualmente o profissional de suprimentos precisa ser mais estratégico, atuante, protagonista, criador de soluções.” – Julio Vieira

Na Rede Mater Dei, por exemplo, a área já participa diretamente da análise de contratos que envolvem MAT, MED e OPME (materiais, medicamentos e órteses, próteses e materiais especiais).

“Hoje, qualquer contrato que envolve MAT, MED e OPME, quem faz essa análise dentro da organização é o suprimento. Somos nós que olhamos o impacto e a margem prevista.” – Sérgio Henrique Oliveira

Isso significa avaliar:

  • impacto financeiro por procedimento;
  • compatibilidade entre tabela negociada e custo real do insumo;
  • margem projetada diante de concessões comerciais;
  • risco financeiro em novos modelos como pacote e diária global.

A gestão de suprimentos deixa, portanto, de ser reativa e passa a ser parte do desenho estratégico da operação.

Eficiência exige governança, processo e responsabilidade

O debate também reforçou que eficiência operacional não é espontânea — é estruturada. E passa por três pilares claros:

  • processos bem definidos e padronizados;
  • pessoas capacitadas e empoderadas;
  • uso estruturado de tecnologia e sistemas.

O empoderamento da área de suprimentos, no entanto, vem acompanhado de maior visibilidade e responsabilidade.

“Com as ferramentas e análises, conseguimos enxergar melhor o setor e ter mais visibilidade.” – Rodrigo Rocha

Na prática, isso significa trabalhar com:

  • dashboards de inflação de compras;
  • curva ABC de consumo;
  • análise de variação de preços por fornecedor;
  • BI aplicado ao giro de estoque;
  • acompanhamento de contratos e saves negociados.

Eficiência deixa de ser discurso e passa a ser mensuração contínua.

Indicadores como instrumento de gestão — e não apenas de controle

A tangibilização da eficiência aparece nos números. Na Rede Mater Dei, a criação de uma rotina estruturada de análise de perdas gerou resultado concreto.

“Desde o ano passado, estipulamos uma rotina mensal com todas as lideranças para discutir perdas. Conseguimos uma redução de 23% comparado ao resultado de 2024.” – Sérgio Henrique Oliveira

O ganho não veio apenas da meta, mas do processo:

  • reunião mensal com lideranças;
  • análise de perdas previstas e realizadas;
  • remanejamento preventivo de materiais;
  • monitoramento contínuo por unidade.

Além das perdas, a área passou a acompanhar indicadores estratégicos como inflação interna de compras e custo de OPME sobre receita líquida.

O debate também destacou o papel do suprimentos na análise técnica de glosas. Na prática, o apoio da área envolve:

  • validação entre contrato e material utilizado;
  • análise de divergência de preço;
  • suporte técnico à auditoria e ao faturamento;
  • cruzamento entre custo do insumo e receita do procedimento.

A eficiência financeira passa a ser compartilhada.

Padronização e diálogo com o corpo clínico

Eficiência não significa apenas redução de custo. Significa equilíbrio. E padronização, nesse contexto, não é restrição. É alinhamento entre:

  • evidência clínica;
  • custo total do procedimento;
  • previsibilidade de margem;
  • sustentabilidade no modelo de remuneração.

A integração entre suprimentos, centro cirúrgico e áreas comerciais torna-se condição para evitar desequilíbrios financeiros.

“A equipe médica precisa ser trazida para o jogo. Ela quer participar, quer contribuir.” – Júlio Vieira

Do controle ao desenho da cadeia: o futuro do supply hospitalar

Na pauta também apareceram tendências que devem influenciar a evolução da gestão de suprimentos nos próximos anos — entre elas logística hospitalar autônoma, com robôs de distribuição, impressão 3D de próteses e personalização de OPME sob demanda. Mais do que tecnologia isolada, o que se projeta é uma mudança de lógica.

“Precisamos olhar para a rentabilidade, olhar para o negócio.” – Rodrigo Rocha

Isso significa migrar da análise focada apenas no preço unitário para decisões baseadas no custo total do procedimento e no impacto financeiro da linha assistencial como um todo.

O que se projeta é:

  • menor capital parado em estoque;
  • maior previsibilidade de consumo;
  • integração entre suprimentos, assistência e faturamento;
  • decisão baseada em custo total do procedimento — e não apenas em preço unitário.

A eficiência deixa de ser pontual e passa a ser sistêmica.

Conclusão: eficiência começa antes do cuidado

O debate reforçou que eficiência operacional não começa na beira do leito. Começa na negociação, na padronização, na previsibilidade de consumo e na governança de indicadores.

Quando suprimentos participa da análise de contratos, da gestão de glosas, da padronização com o corpo clínico e da leitura de indicadores estratégicos, ele deixa de ser retaguarda e passa a ser eixo estruturante do resultado hospitalar.

Ao completar 25 anos, a Anahp reforça que o futuro da eficiência hospitalar não será definido apenas por inovação assistencial, mas pela maturidade das áreas que sustentam a operação. A gestão estratégica de suprimentos emerge como um dos pilares centrais para garantir qualidade assistencial, previsibilidade financeira e sustentabilidade institucional nos próximos anos.

Assista ao debate na íntegra

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