Ambulatório de Alta Complexidade amplia o acesso a especialistas, exames e tratamentos para pacientes do Vale do Aço e região.
Antes mesmo de o dia clarear, Etelvino de Oliveira, de 78 anos, já está acordado. Morador do distrito de Revés do Belém, em Bom Jesus do Galho/MG, ele costuma despertar entre 4h e 5h da manhã. É nesse horário, quando os primeiros raios de sol começam a aparecer, que ele mantém um dos seus mais importantes cuidados com a saúde: manda uma mensagem para o amigo José Carlos para saber se está tudo bem. José Carlos faz o mesmo.
Os dois moram sozinhos e criaram uma espécie de pacto de cuidado mútuo. Pela manhã, uma pergunta ao outro como passou a noite. À noite, antes de dormir, repetem o ritual. Se a mensagem não chega, o silêncio vira sinal de alerta. Um procura o outro para ter certeza de que está tudo bem.
A rotina ganhou ainda mais significado depois que Etelvino sofreu um infarto, há cerca de três anos. O episódio começou enquanto ele fazia um trabalho temporário em um posto de gasolina. “Eu comecei a sentir mal e achei que era uma coisa mais grave. Fui para casa. Depois fui para a UPA de Ipatinga e de lá vim direto para o Hospital Márcio Cunha. Nem saí da maca, vim direto para cá”, lembra.
O atendimento recebido naquele momento mudou a trajetória do aposentado. Após a emergência e a internação, Etelvino passou a ser acompanhado pelo Ambulatório de Alta Complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS) do Hospital Márcio Cunha (HMC), mantido pela entidade filantrópica, Fundação São Francisco Xavier (FSFX). Desde então, consultas, exames, acompanhamento especializado e ajustes no tratamento passaram a fazer parte da rotina do paciente. “Se não fosse isso, através de Deus também, eu não estaria nesse lugar aqui mais não. Eu já tinha ido embora. Graças a Deus, para mim foi muito bom”, afirma Etelvino.
A história do morador de Revés do Belém é uma entre milhares. O Ambulatório de Alta Complexidade SUS do HMC é uma das estruturas que materializam, na prática, o compromisso filantrópico da Fundação São Francisco Xavier com a saúde pública. O serviço funciona como referência para pacientes que necessitam de acompanhamento especializado em condições de maior complexidade, conectando o atendimento realizado nos municípios à estrutura hospitalar de alta complexidade disponível no Vale do Aço.
Somente no primeiro semestre de 2026, foram realizados 11.163 atendimentos pelo SUS no Ambulatório de Alta Complexidade SUS do HMC, sendo 10.713 consultas ambulatoriais, 215 revisões ambulatoriais e 235 exames e procedimentos realizados no ambulatório. Ao todo, 476 pacientes foram admitidos nas linhas de cuidado, passando a contar com acompanhamento especializado e acesso a uma estrutura assistencial preparada para o manejo de doenças de maior complexidade e risco. Entre as linhas de cuidado de alta complexidade estão Cardiologia, Cirurgia Vascular, Cirurgia Cardiovascular, Neurologia e Neurocirurgia.
Para o cardiologista do HMC, Dr. Hallan Reis, que atua na linha de cuidado de Cardiologia do Ambulatório de Alta Complexidade SUS, o acompanhamento de Etelvino mostra a importância de garantir continuidade ao cuidado depois de um episódio grave. “Ele é um paciente que teve um infarto, uma emergência médica e está sendo acompanhado conosco há três anos. Desde o diagnóstico, ele recebeu o tratamento necessário para resolver aquela condição emergencial e, desde então, vem fazendo o acompanhamento, com exames de seguimento, como ecocardiograma, ressonância e cintilografia, além dos ajustes das medicações, consultas periódicas e exames laboratoriais. Tudo dentro dessa linha de cuidado”, explica.
Mais do que oferecer uma consulta com um especialista, o modelo permite que o paciente tenha acesso a uma rede de cuidados capaz de acompanhar diferentes etapas do tratamento. A estrutura reúne profissionais de diferentes áreas e disponibiliza exames e tecnologias fundamentais para o diagnóstico e a definição da conduta terapêutica.
Na Cardiologia, por exemplo, os pacientes podem ter acesso a exames de ressonância e cintilografia miocárdica, além de procedimentos de maior complexidade, como cateterismo cardíaco, implante de marcapasso, cirurgias de troca valvar e procedimentos de revascularização, conforme indicação clínica. “O Ambulatório de Alta Complexidade do SUS funciona como uma retaguarda para as várias especialidades, principalmente para situações e condições que demandam exames ou condutas mais tecnológicas e invasivas. Na Cardiologia, temos acesso a uma série de recursos que dão essa retaguarda aos municípios e aos pacientes que precisam de atendimento em alta complexidade”, destaca Dr. Hallan.
Esse atendimento também tem um impacto que ultrapassa os limites de Ipatinga. O Hospital Márcio Cunha atua como referência para pacientes encaminhados por municípios do Vale do Aço e de outras cidades da região, evitando que casos que necessitam de assistência especializada tenham de buscar atendimento em grandes centros, como Belo Horizonte. “Eu costumo dizer que a alta complexidade do Márcio Cunha é uma ilha de tecnologia e excelência. Com esse nível de estrutura, conseguimos resolver muitas condições para pacientes de diversos municípios da região. Muitas vezes, aquilo que poderia exigir um encaminhamento para Belo Horizonte consegue ser resolvido aqui”, pontua o cardiologista.
Duas portas para chegar ao atendimento especializado
O acesso às linhas de cuidado do Ambulatório de Alta Complexidade ocorre, principalmente, por dois caminhos. Um deles é pela própria internação hospitalar. O paciente chega ao Hospital em uma emergência ou por outra condição que exige hospitalização, recebe o tratamento necessário e, na alta, pode ser orientado pelo médico responsável a continuar o acompanhamento no ambulatório.
A outra porta de entrada é a rede municipal de saúde. O paciente procura a Atenção Primária, geralmente por meio de uma Unidade Básica de Saúde, passa pela avaliação inicial e realiza os exames necessários. Quando há indicação de acompanhamento especializado, é encaminhado para o especialista do município. Caso esse profissional identifique a necessidade de exames, procedimentos ou condutas de maior complexidade, o paciente é direcionado para a atenção de alta complexidade do Hospital Márcio Cunha.
Esse fluxo é fundamental para garantir que o paciente chegue ao serviço adequado no momento adequado, fortalecendo a integração entre os diferentes níveis de atenção do SUS. “São dois caminhos principais: pela internação ou pelo encaminhamento realizado pelo especialista do município. Dessa forma, conseguimos dar sequência à avaliação e ao tratamento dentro da linha de cuidado”, explica Dr. Hallan.
Para o coordenador dos Ambulatórios do Hospital Márcio Cunha, Juliano Venâncio, a importância do serviço vai além dos números. Cada consulta representa uma pessoa que precisa de acompanhamento, uma família que busca segurança e, muitas vezes, uma oportunidade de evitar que uma doença se agrave. “O nosso compromisso é fazer com que o paciente do SUS tenha acesso a um cuidado especializado, seguro e humanizado, dentro de uma estrutura de alta complexidade. Esses mais de 11 mil atendimentos representam milhares de histórias, e cada uma delas merece ser cuidada com responsabilidade, acolhimento e excelência. O Ambulatório permite que pacientes do Vale do Aço e de toda a região tenham acesso a profissionais especializados, exames e tecnologias que podem fazer diferença no diagnóstico, no tratamento e na qualidade de vida”, afirma.
Segundo Juliano, a atuação filantrópica da FSFX, por meio do HMC, reforça o papel da instituição como parte importante da rede pública de saúde regional. “Quando conseguimos oferecer esse cuidado perto de casa, reduzimos barreiras para o paciente e fortalecemos toda a rede. É uma assistência que começa no município, passa pelo especialista e, quando necessário, chega à alta complexidade. Nosso papel é acolher esse paciente, oferecer o que ele precisa e garantir continuidade ao cuidado”, completa.
No caso de Etelvino, essa continuidade já dura mais de três anos. O homem que chegou ao Hospital depois de sentir os primeiros sinais de um infarto hoje segue sua rotina com acompanhamento médico e a tranquilidade de saber que tem onde buscar assistência quando precisa.
Na última consulta, ele estava acompanhado do amigo José Carlos. Depois de anos de amizade, os dois aprenderam que cuidar da saúde também pode ser um ato de amizade. E continuam mantendo o combinado: pela manhã e antes de dormir, uma mensagem para saber se o outro está bem.
É um cuidado simples, mas que ganhou um significado ainda maior para quem já descobriu, na própria vida, o valor de ser atendido no momento certo. “Para mim foi muito bom”, resume Etelvino.
Por trás da frase curta está uma história de sobrevivência, acompanhamento e acesso à saúde. E, por trás dela, os números de um serviço que transforma a alta complexidade em cuidado acessível para milhares de pacientes do SUS.