Cerca de seis anos após o início da pandemia de coronavírus, pesquisa publicada na revista Circulation revelou alta incidência de eventos adversos cardíacos em pacientes da terceira idade.
Idosos hospitalizados por Covid-19 durante a circulação da variante Ômicron podem permanecer sob risco elevado de complicações cardiovasculares por até um ano após a alta. A conclusão é de um novo estudo, Long-term Cardiovascular Outcomes in US Medicare Beneficiaries After COVID-19 Hospitalization During the Omicron Era (“Desfechos cardiovasculares de longo prazo em beneficiários do Medicare nos EUA após hospitalização por COVID-19 durante a era Ômicron”, em tradução livre), que reforça a necessidade de acompanhamento contínuo desses pacientes mesmo após a recuperação da infecção.
Liderado por pesquisador do Hospital Moinhos de Vento, em parceria com especialistas dos Estados Unidos, o estudo publicado na revista científica Circulation: Populational Health and Outcomes demonstra que idosos hospitalizados por Covid-19 entre 2021 e 2022 (período no qual a cepa Omicron já era a principal circulante e a população já tinha atingido maiores níveis de imunidade) apresentaram um risco quase duas vezes maior de desenvolver complicações cardiovasculares no ano seguinte à alta, em comparação com pacientes internados por influenza (gripe).
A pesquisa nasceu em parte como um desdobramento do projeto Operação Inverno, realizado pelo Hospital Moinhos de Vento sob a liderança do Dr. Luiz Antonio Nasi, com foco em investigações científicas sobre infecções virais, e foi desenvolvida pelo Dr. Sérgio Decker, médico especialista em Medicina Interna e líder do Laboratório de Desfechos do Mundo Real da instituição, em conjunto com pesquisadores do Smith Center da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Apesar das amostras analisadas serem internacionais, o especialista reforça que os achados também servem de alerta para o sistema de saúde brasileiro.
O autor do estudo explica que a hipótese inicial era de que o risco cardíaco no período pós-pandemia iria se aproximar daquele já observado na influenza. “No entanto, os nossos achados foram surpreendentes. Mostramos que o risco cardíaco desses idosos depois da alta por Covid-19 na era Ômicron era inclusive maior do que o dos sobreviventes da fase crítica da pandemia, e quase o dobro do risco de idosos hospitalizados por influenza”, aponta Decker.
Queda na mortalidade, aumento nos riscos de AVC e infarto
Para compreender os desfechos cardiovasculares pós-infecção, os pesquisadores analisaram uma base de dados do Medicare, plano de saúde do governo norte-americano para idosos, contendo mais de 1,1 milhão de pacientes com 65 anos ou mais, divididos em três subgrupos: aqueles hospitalizados por Covid-19 na era Ômicron (período de novembro de 2021 a setembro de 2022), por Covid-19 na era pré-Ômicron (de março de 2020 a novembro de 2021) ou por influenza na era pré-Covid-19 (de março de 2016 a setembro de 2018).
Ao comparar os doentes da fase Ômicron com aqueles internados logo no início da pandemia da Covid-19, os cientistas notaram uma boa notícia inicial: a mortalidade durante a internação pela infecção viral ou até 1 ano após a alta caiu de 39,7% para 34,2%. No entanto, a grande surpresa do estudo foi constatar que, apesar de sobreviverem mais, principalmente à fase aguda da doença, os pacientes hospitalizados por Covid-19 Ômicron registraram um risco significativamente maior de sofrer infarto, acidente vascular cerebral (AVC), hospitalizações por insuficiência cardíaca e arritmias no período de até um ano após a internação.
Os resultados mostraram que quase metade (48,8%) do grupo de pacientes infectados durante a era Ômicron sofreu algum problema cardíaco grave ou faleceu. Esse número supera os 33,4% observados no grupo de pessoas que haviam sido internadas por Influenza antes da pandemia.
Para garantir a precisão dos dados e confirmar os achados, os resultados passaram por análises rigorosas, sendo ajustados para cerca de 100 variáveis, incluindo comorbidades prévias, características dos hospitais e indicadores socioeconômicos dos pacientes.
Reflexos para o cenário brasileiro
A pesquisa contrapõe as narrativas de que, com o avanço da vacinação e grande parte da população já imunizada, a Covid-19 teria se tornado “inofensiva”.
Embora a análise tenha como base dados estadunidenses, o pesquisador enfatiza que o cenário também exige uma mudança na forma como a recuperação dos pacientes internados por Covid-19 é conduzida no Brasil. De acordo com o médico, as limitações da população brasileira ao acesso à saúde e aos tratamentos fazem com que as taxas de eventos cardiovasculares locais tendam a ser iguais ou até maiores que as dos Estados Unidos e da Europa.