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Nicolelis participa do lançamento do curso de Medicina do Moinhos de Vento e diz que ciência deve “melhorar a condição humana” 

Neurocientista relembra pesquisas pioneiras em interfaces cérebro-máquina, o exoesqueleto da Copa de 2014 e casos de pacientes paraplégicos que voltaram a andar 

“A ciência não está aqui para respeitar a autoridade, a ciência está aqui para melhorar a condição humana.” Foi com essa provocação que o neurocientista Miguel Nicolelis abriu a aula magna que marcou o lançamento do curso de Medicina da Faculdade de Ciências da Saúde Moinhos de Vento, durante cerimônia realizada nesta quarta-feira (29), em Porto Alegre.

Diante de autoridades, médicos, professores e convidados, Nicolelis transformou a solenidade em uma defesa da ciência como ferramenta para desafiar limites considerados impossíveis pela medicina contemporânea. Referência mundial em neurociência e pioneiro no desenvolvimento das interfaces cérebro-máquina, o pesquisador relembrou desde os experimentos realizados nos anos 1980 até o projeto que permitiu que pacientes paraplégicos recuperassem a sensibilidade e voltassem a andar.

Ao responder o que é preciso para se tornar cientista, Nicolelis recorreu à literatura para resumir a própria trajetória: “Perseguindo moinhos de vento”, disse, em referência a Dom Quixote. O pesquisador lembrou que contrariou uma das principais teorias da neurociência ao defender que o cérebro não poderia ser compreendido pela análise isolada de neurônios.

Ao lado do cientista John Chapin, desenvolveu tecnologias capazes de registrar centenas de neurônios simultaneamente, algo considerado inviável na época. A descoberta abriu caminho para as interfaces cérebro-máquina, tecnologia que traduz sinais cerebrais em comandos para dispositivos robóticos. Inicialmente desacreditada, a pesquisa ganharia repercussão mundial décadas depois.

Recuperação de pacientes paraplégicos

Na abertura da Copa do Mundo FIFA de 2014, um paciente paraplégico entrou em campo utilizando o primeiro exoesqueleto controlado mentalmente do mundo e chutou a bola diante de bilhões de espectadores. O momento ganhou dimensão ainda maior quando, após o chute, o paciente afirmou: “Eu senti a bola”. Segundo Nicolelis, sensores do exoesqueleto enviavam estímulos táteis ao cérebro, levando o organismo a interpretar a sensação como se viesse dos próprios pés.

Meses depois, vieram os resultados que surpreenderam até os pesquisadores: pacientes submetidos ao treinamento neuro-robótico passaram a recuperar movimentos voluntários e sensibilidade de forma natural, mesmo sem utilizar o equipamento.

Os avanços continuaram em estudos realizados em parceria com o Hospital Xuanwu, na China. Exames de ressonância magnética identificaram reversão da atrofia cortical em pacientes submetidos ao protocolo desenvolvido pela equipe do neurocientista. Para Nicolelis, as descobertas indicam que a combinação entre atividade cerebral, exercício físico e estimulação neural, além de tratar lesões neurológicas, pode futuramente desacelerar o envelhecimento cerebral.

Ao encerrar a palestra, o pesquisador deixou um conselho aos estudantes e resumiu o que considera a maior recompensa da ciência. “A medicina é um eterno exercício de mergulhar no desconhecido. Se você tiver uma ideia e acreditar nela, ignore quem disser que jamais vai funcionar. Dinheiro nenhum no mundo compra a emoção de desvendar os mistérios da natureza ou a alegria de ver alguém voltar a andar”, concluiu.

Inauguração do curso de Medicina do Moinhos de Vento

As aulas da Faculdade de Ciências da Saúde Moinhos de Vento começaram em março, com uma proposta de formação integrada à assistência e às atividades de pesquisa do Hospital Moinhos de Vento. O CEO do hospital, Mohamed Parrini, destacou o significado institucional da iniciativa.

“Hoje celebramos um momento histórico para o Hospital Moinhos de Vento. O curso já nasce com maturidade acadêmica e credibilidade assistencial, reunindo um corpo docente com experiência clínica e científica. Nosso propósito é o compromisso com o desenvolvimento do país e o cuidado da vida”, afirmou.

Já o superintendente médico da instituição, Luiz Antônio Nasi, ressaltou que a proposta é formar profissionais com pensamento crítico, capacidade de atuar em equipe e sensibilidade social. “Estamos lançando um curso, mas, sobretudo, firmando um compromisso com o futuro”, disse.

A instituição está com inscrições abertas para o vestibular de inverno do curso de Medicina. Os candidatos podem se inscrever até 27 de maio pelo site da Fundação Vunesp, responsável pelo processo seletivo. A prova será aplicada em 21 de junho com oferta de 40 vagas.

Fonte: Hospital Moinhos de Vento

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