Cirurgião vascular do Hospital Moinhos de Vento publica primeiro relato mundial da aplicação da técnica DK Crush em artérias periféricas
Uma adaptação inédita de uma estratégia consagrada na cardiologia pode ampliar as possibilidades terapêuticas para pessoas com doença arterial avançada. O cirurgião vascular Alexandre Pereira, do Hospital Moinhos de Vento, publicou o primeiro relato descrito na literatura médica da utilização da técnica Double-Kissing Double-Crush (DK Crush) em artérias periféricas, especificamente no tratamento de uma lesão complexa da bifurcação ilíaca. O trabalho foi publicado no Journal of Vascular Surgery Cases, Innovations and Techniques (JVS-CIT), periódico científico da Society for Vascular Surgery, uma das principais entidades da especialidade no mundo.
A DK Crush é amplamente empregada em procedimentos cardiológicos para tratar obstruções graves em bifurcações coronárias. Até então, não havia registro do uso em artérias periféricas. O relato demonstra que os princípios dessa estratégia podem ser adaptados para intervenções vasculares fora do coração, com a preservação de vasos fundamentais para a circulação pélvica.
O caso envolveu um homem de 46 anos com doença arterial obstrutiva avançada na bifurcação ilíaca, ponto em que a artéria principal se divide para irrigar a pelve e os membros inferiores. O quadro provocava dor intensa ao caminhar e disfunção sexual. Segundo o médico, as abordagens convencionais apresentavam risco elevado de comprometer um dos vasos responsáveis pela circulação pélvica.
“A adaptação da DK Crush possibilitou a reconstrução da bifurcação arterial sem comprometer esse vaso. O grande diferencial desse caso foi conseguir tratar uma lesão extremamente complexa mantendo a perfusão de uma artéria importante para a qualidade de vida do paciente. Esse fluxo adequado está diretamente relacionado à redução de sintomas e à preservação de funções importantes da região da pelve”, explica Alexandre Pereira.
O procedimento foi realizado por via endovascular, sem necessidade de cirurgia aberta. O paciente recebeu alta no mesmo dia e apresentou evolução clínica favorável. Atualmente, após dois anos de acompanhamento clínico e angiográfico, mantém boa evolução, sem recorrência dos sintomas e com os resultados da cirurgia preservados.
Inovação que nasceu da integração entre especialidades
O caminho para a inovação começou a partir de uma interação entre especialidades dentro do próprio Hospital Moinhos de Vento. Ao acompanhar uma intervenção realizada pelo cardiologista Rodrigo Wainstein para tratar uma lesão complexa de bifurcação coronária, Alexandre Pereira identificou semelhanças com desafios enfrentados na cirurgia vascular.
Com o apoio do cardiologista Luiz Carlos Bergoli, que apresentou os fundamentos técnicos e a literatura sobre o método, o especialista passou a estudar uma adaptação da estratégia para artérias periféricas. Para Pereira, o caso demonstra como a troca de conhecimento entre diferentes áreas da medicina pode contribuir para o desenvolvimento de novas soluções e gerar benefícios concretos para os pacientes.
“Muitas vezes, a resposta para um problema complexo já existe em outra especialidade. O desafio é reconhecer essa possibilidade e adaptá-la de forma segura e baseada em evidências científicas”, afirma.
Por se tratar de um relato de caso, os resultados não permitem conclusões sobre a eficácia da técnica em uma população mais ampla. A experiência, no entanto, abre caminho para novos estudos sobre sua aplicação em doenças arteriais periféricas complexas.