Em tempos de Copa do Mundo, o famoso “haja coração” ganha um significado bastante literal. A cada lance decisivo, gol ou disputa de pênaltis, a emoção toma conta da torcida e provoca reações no organismo. O aumento da adrenalina e de outros hormônios ligados ao estresse faz o coração bater mais rápido e a pressão arterial subir. Em pessoas predispostas, esse impacto pode trazer consequências mais sérias.
E não se trata apenas de uma percepção. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine durante a Copa de 2006 mostrou que, nos dias de jogos da seleção alemã, o número de emergências cardiovasculares chegou a ser três vezes maior. “O que pesa para o coração não é se a emoção é positiva ou negativa, mas a intensidade dela”, explica Hugo Pazianotto, coordenador da cardiologia do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP).
Em situações mais extremas, o estresse intenso pode desencadear a cardiomiopatia de Takotsubo, conhecida popularmente como síndrome do coração partido. A condição provoca uma redução temporária da função cardíaca e costuma estar associada a episódios de forte carga emocional.
Para quem já convive com doenças cardiovasculares, os cuidados devem ser reforçados durante o campeonato. “É fundamental manter o tratamento em dia, não interromper medicamentos, garantir uma boa hidratação e evitar excessos, especialmente de álcool”, orienta Pazianotto. “Assistir às partidas em locais confortáveis e protegidos do calor também ajuda a evitar sobrecarga ao organismo”, completa o especialista.
O consumo de bebidas alcoólicas merece atenção especial. Segundo o cardiologista, o álcool pode elevar a pressão arterial, favorecer a desidratação e aumentar o risco de arritmias. “Existe, inclusive, a chamada ‘Holiday Heart Syndrome’, quando pessoas sem doença cardíaca prévia desenvolvem alterações no ritmo do coração após episódios de consumo excessivo”, afirma. Outro problema é que a bebida pode mascarar sintomas importantes e retardar a procura por atendimento médico.
Além dos cuidados com o coração, o período costuma registrar aumento de acidentes e lesões. José Zabeu, coordenador da ortopedia do Vera Cruz Hospital, afirma que queimaduras causadas por fogos de artifício e cortes com vidro estão entre as ocorrências mais frequentes durante as comemorações.
Nas partidas improvisadas entre amigos, também crescem os casos de entorses, contusões musculares e até rupturas do tendão de Aquiles. “Muitas vezes a pessoa não pratica atividade física regularmente, mas acaba se empolgando e exige do corpo mais do que ele está preparado para suportar”, explica.
Para quem pretende entrar em campo, mesmo que apenas na tradicional pelada, a recomendação é simples: respeitar os próprios limites. “Fazer um aquecimento adequado e evitar disputas muito intensas reduz bastante o risco de lesões”, reforça Zabeu.
Os especialistas também orientam atenção a sinais de alerta, como dor no peito, falta de ar, palpitações, tontura ou dores intensas após esforço físico acompanhadas de inchaço ou dificuldade para caminhar. Nesses casos, a recomendação é procurar atendimento médico imediatamente.
Hábitos comuns durante os jogos, como refeições muito pesadas, consumo frequente de álcool e horas seguidas sentado diante da televisão, também podem afetar a saúde ao longo do torneio. Pequenas atitudes, como levantar-se nos intervalos, caminhar alguns minutos e optar por refeições mais leves, ajudam a minimizar esses impactos.
Fonte: Vera Cruz Hospital (SP)