É ou não é doença?

3 de junho, 2019

Polêmica sobre a classificação do Burnout, o desgaste profissional, pela OMS, levantou discussão sobre o estresse no trabalho.

Para quem estava cansado das idas e vindas do governo, que às vezes gasta mais tempo explicando mal-entendidos e desfazendo más interpretações de declarações apressadas, na semana passada tivemos uma novidade. Foi a vez de a Organização Mundial da Saúde (OMS) se ver no meio de um imbróglio envolvendo uma declaração de seu porta-voz.
Tudo começou na assembleia dos Estados-membros da OMS, na qual a nova edição da Classificação Internacional de Doenças (CID) foi aprovada. Atualmente em sua décima edição, a CID como conhecemos remete aos anos 1940, quando a OMS passou a reunir num só documento a classificação das causas de morte, estatísticas sobre ferimentos e adoecimento. Apesar do nome, portanto, ela vai além das doenças propriamente ditas. Ao lado de diagnósticos como “enfarte agudo do miocárdio” (código I21) ou “cálculo renal” (N20.0), a organização inclui coisas como “pessoa fingindo ser doente” (Z76.5), “acidente de nave espacial causando traumatismo a ocupante” (V95.4) e até “baixo nível de higiene pessoal” (R46.0). Fica claro que não basta estar na CID para ser doença.

Mas voltando à assembleia, nela foi aprovada a 11.ª edição da CID. A bem da verdade, ela já estava pronta e acabada desde junho de 2018 e só entrará em vigor em 2022. Mas aproveitando o ensejo da aprovação dessa versão, que incluiu alguns critérios para identificar o burnout, o porta-voz Tarik Jasarevic declarou à imprensa que era a primeira vez que o desgaste profissional entrava na classificação.

Foi o que bastou. No mesmo dia as manchetes do mundo todo diziam que o estresse profissional agora tinha sido reconhecido como doença, que o burnout ganhara o status de condição médica e assim por diante. As reações variaram: enquanto uns apontavam a vingança dos trabalhadores sofridos, outros previam o fim do capitalismo como o conhecemos, e já tinha gente preparando o próprio atestado médico.

O barulho foi tal que imediatamente a própria OMS teve de vir a público com uma nota oficial de esclarecimento. “Burnout está incluso na 11.ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um fenômeno ocupacional. Ela não é classificada como uma condição médica”, diz o texto com grifo no original. A nota vai além e esclarece que “burnout também estava incluído na CID-10, na mesma categoria que na CID-11, mas a definição está agora mais detalhada”. Trata-se da categoria “fatores que influenciam o estado de saúde e o contato com serviços de saúde” – a mesma do acidente de nave espacial.

De fato, na CID-10 já constava, sob o código Z73.0, o diagnóstico “esgotamento” (tradução oficial do burnout), seguido de uma explicação breve: “estado de exaustão vital”. Na CID-11 ele muda para o código QD85 e passa a ter uma explicação mais detalhada: “Síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. É caracterizada por três dimensões: 1) sentimentos de esgotamento ou esgotamento de energia; 2) distanciamento mental do trabalho, sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho; e 3) redução da eficácia profissional. Burnout refere-se especificamente a fenômenos no contexto ocupacional e não deve ser aplicado para descrever experiências em outras áreas da vida”.

Sim, é a primeira vez que a OMS reconhece a relação entre o burnout e o trabalho. Daí a declaração do porta-voz. Mas nem é a primeira vez que se fala em burnout, nem sequer a primeira vez que o trabalho entra na CID – o capítulo Z56 é todo dedicado ao emprego e desemprego, incluindo da “ameaça de perda de emprego” (Z56.2) até o “ritmo de trabalho penoso” (Z56.3), passando por “desacordo com patrão e colegas de trabalho” (Z56.4). Além do que, não custa lembrar, não é por entrar nessa lista que vira doença.

O estresse no local de trabalho é um problema real e que pode ter consequências sérias para a nossa saúde. Então é bom que a OMS reconheça esse fato e explicite critérios para burnout, pois com isso poderemos unificar os discursos e ter estatísticas mais precisas sobre o problema. Mas isso só será possível com mais esclarecimento, não com mais confusão.

 

Fonte: Estado de São Paulo
Data:02/06/2019

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