Especialistas apontam caminhos para a gestão da saúde no Brasil no Hospital Summit

29 de maio, 2019

Hospital Summit 2019

Valor da saúde, foco na melhoria da experiência de pacientes, redução de custos e preparação do País para atender à população idosa foram centro das discussões

São Paulo, maio de 2019 – Mais de 800 profissionais da saúde – entre médicos gestores, técnicos operacionais e assistenciais – e quase 30 horas de wokshops e debates simultâneos. Este é o saldo da terceira edição do Hospital Summit, evento para discutir a gestão na área de saúde com foco em tendências e melhores práticas promovido pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp). Ação integrou a programação da 26ª Hospitalar, a feira mais importante do setor, que aconteceu no Expo Center Norte, em São Paulo (SP).

No centro das discussões, o atendimento a idosos e os novos modelos de remuneração, dois dos temas cada vez mais em voga, visto o aumento previsto da população acima de 65 anos e a reorganização dos sistemas de saúde em torno da relação entre desfechos clínicos e custo dos serviços relacionados aos resultados obtidos.

Preocupada com o impacto direto nos sistemas de saúde pública e previdenciário do país, além da forma de cuidar dessas pessoas, a médica norte-americana Stephanie Rogers, responsável por uma mudança de sucesso no hospital da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), contou sobre sua experiência, em uma palestra intitulada “Modelos de Atenção ao Idoso: estratégias de implementação”.

A médica é a responsável pelo programa de cuidados ao idoso na instituição e implantou um processo que foca o paciente e suas necessidades. A iniciativa não só gerou economia, mas também lucro além do esperado. “Quando apresentei o programa, a projeção era gastar US$ 2,6 milhões e recebermos R$1,2 milhão. Acabamos recebendo US$ 3,6 milhões de retorno somando economia de tempo, dinheiro e receitas”, contou Stephanie.

O processo não foi simples, nem rápido e envolveu todas as áreas ligadas ao cuidado do idoso no hospital. Na primeira fase, a médica levantou durante dois anos todas as informações relacionadas ao tratamento, conversando com enfermeiros, pacientes, médicos e até o pessoal da segurança do hospital. “Desenhamos e redesenhamos estratégias por três ou quatro vezes até encontrarmos o formato adequado para o nosso quadro. Essa é uma das principais etapas da mudança: encontrar o modelo que seja melhor para a situação particular de cada um. Não há uma receita a ser seguida, existem passos que devem ser dados”, explicou.

Uma das principais mudanças foi a criação de um departamento de atendimento domiciliar que levou alguns programas do hospital para dentro da casa do paciente. Essa iniciativa gerou uma economia de US$ 161 mil por ano. “Diminuímos as internações buscando soluções com um time focado no paciente e identificando os problemas mais comuns em idosos”.

O modelo proposto pela médica é também um exemplo de saúde baseada em valor. No caso, o foco na necessidade do paciente vem em primeiro lugar e as consequências disso acabam gerando melhorias em todas as pontas envolvidas. “Ficamos emperrados na maneira de fazer as coisas, seguindo modelos que já estavam estabelecidos e que as pessoas sentem medo de mudar. Precisamos de muita conversa para propor essas mudanças e ao invés de sairmos distribuindo novas regras, fomos ouvir todos envolvidos, o que deu uma sensação de pertencimento muito grande para todos”, contou a médica.

“Nossa observação sobre os casos mudou completamente. Hoje, nosso atendimento começa reparando até na forma com a qual o paciente abre um frasco de remédio. A conversa sobre a vida dele começa desde o primeiro dia de consulta, incluindo a família, que é parte fundamental no tratamento que visa sempre a maior independência possível para o paciente”, finalizou.

Hospital Summit 2019

Para avançar na discussão sobre o valor da saúde, André Medici, economista Sênior de Saúde no Banco Mundial, mostrou as principais diferenças do conceito de ‘Modelos de Saúde Baseada em Valor (VBHC)’. Tendência do setor, a saúde baseada em valor é uma proposta de reorganização dos sistemas de saúde em torno da relação entre desfechos clínicos e custo dos serviços relacionados aos resultados obtidos. “Os atuais modelos estão associados ao volume de prestação, não a qualidade e valor. Precisamos priorizar os resultados a partir das perspectivas do protagonista do cuidado, o paciente sempre buscando os menores custos”, disse.

Medici também ressaltou os principais desafios para implementação do VBHC. “Inserir um novo modelo de remuneração é um processo longo e complexo e requer a participação de pacientes, provedores, empresas e formuladores de política, entre outros. Além disso, a polêmica envolvendo remuneração nas organizações tem grandes resistências ligadas a cultura médica, o que dificulta qualquer mudança no sistema”, pontuou.

Sobre o estágio de implementação da saúde baseada em valor, o economista apresentou dados da pesquisa de 2016 feita pelo The Economist, que avaliou indicadores baseados em quatro dimensões que mostram a aplicação deste modelo, sendo eles: contexto, políticas e instituição, mensuração do resultado custo, sistema de saúde integrados com o foco no paciente e pagamento com base em resultados. “Nenhum país do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) mostrou qualquer indicador, desta forma estão menos preparados para a mudança”, avisou.

O Brasil ainda está na fase inicial em adesão ao VBHC, mas, para Medici, por mais que as barreiras sejam grandes, é possível aderir ao programa que só trará benefícios à população. “Enquanto a saúde for encarada apenas como um item do orçamento, suas políticas serão de curto prazo. A assistência à saúde exige novas abordagens em que o acesso, os ganhos de eficiência e a geração de valor para os cidadãos sejam os critérios essenciais”, concluiu.

Variedade de temas e dinâmicas práticas
O Hospital Summit trouxe, também, temas como a coleta de dados e a sua utilização na gestão estratégica das instituições, a gestão da saúde corporativa, a importância da comunicação entre o paciente, seus familiares e os profissionais de saúde; e os desafios comerciais no hospital do futuro.

O processo de coleta de dados foi o tema discutido pelo vice-presidente de Value Creation da IBM da América Latina, Marcos Peigo, que apontou o desafio da gestão da informação. “Em 2009, batemos a marca de 50 milhões de artigos médicos e científicos publicados. E no último ano, produzimos 2,5 milhões. Ou seja, se você não tiver a gestão de dados e filtrar o que importa, o profissional de saúde estará cada vez mais defasado em relação ao que ele tem que entregar ao paciente”, explicou. Estudos mostram que, em média, menos da metade dos dados estruturados das empresas é usado ativamente nas tomadas de decisão – e menos de 1% dos dados não estruturados é sequer usado ou analisado.

Já o diretor de Educação e Saúde da Cisco América Latina, Ricardo Santos, deu enfoque na transformação digital e na sua geração de dados, ressaltando os desafios para coleta de dados e sua utilização na gestão estratégica das instituições. Para o executivo, as informações ajudam tanto a construir uma base no ambiente em que serão utilizadas, quanto para os próprios usuários, no caso dos hospitais, pacientes, que acabam tendo maior conhecimento. Tudo isso é decorrente de uma análise criteriosa, sendo assim necessário criar uma inteligência capaz de gerenciar essa massa de dados.

“Ter sistemas inteligentes de análises que suportam a decisão clínica é absolutamente fundamental para as grandes companhias” ressaltou o executivo. Ainda alertando sobre a importância da administração correta das informações, Santos apontou que 61% dos gestores de saúde esperam que vão sofrer um ataque de hacker no sistema de seu hospital. E alerta para a preocupação não só da aquisição de sistemas integrados, mas da organização correta destes materiais.

Já as dinâmicas de trabalho foram realizadas com objetivo reforçar a prática. A dinâmica ‘Metodologia para abordar as novas tendências de gestão de planos coletivo’, mediada pelo diretor do Arquitetos da Saúde, Luiz Feitoza, fez com que os participantes trabalhassem em parceria para a escolha de uma melhor operadora de serviços de saúde para sua instituição.

O tema vem ganhando destaque pelos custos crescentes das despesas das empresas que oferecem o benefício saúde a seus colaboradores. Dividido em grupos, os componentes que tinham o cargo de recursos humanos (RH) ouviram propostas de diferentes vertentes e escolheram a que consideravam mais prudente, pontuando o valor e a quantidade de atendimento realizado.

Ao final, o diretor concluiu que não há um modelo perfeito, e sim que as instituições necessitam dar suporte e preparação para a equipe definir as melhores estratégias. “Não existe garantia na gestão de saúde, existe trabalho duro. Mas precisamos ter informação, trabalhar com dados e estruturas consistentes e cada vez mais preparar a equipe para interagir com todos os personagens atuantes no sistema”.

Apresentação do caso de Julia Lima, jovem que faleceu por conta de um erro médico, norteou a discussão sobre qualidade e segurança assistencial. Os expositores Fernanda Fernandes, gerente de Qualidade e Segurança do Paciente do Hospital Israelita Albert Einstein, e Chico Lima e Sandra Lima, pais de Julia, mostraram que a comunicação direta é essencial para garantir o melhor cuidado. “Uma das premissas para o alcance da cultura de segurança do atendimento é a existência de uma comunicação aberta, honesta e transparente entre os serviços de saúde e seus pacientes”, pontuou Fernanda. Durante a roda de conversa, foi abordada a importância do tratamento também ao corpo clínico, considerados vítimas quando há um infortúnio durante algum quadro.

Pensando no futuro do segmento e os desafios, Evandro Tinoco, diretor médico do hospital Pró-Cardíaco, apontou que o conceito de “hospital do futuro ainda não está pronto, é um projeto em construção”. E assegura que “é preciso que os médicos enxerguem a dimensão da empatia.” Já João Luiz Ferreira Costa, do Instituto Brasileiro de Valor em Saúde, apontou que as “relações comerciais serão definidas principalmente na entrega de valor, medidas principalmente pela perspectiva do paciente”.

Durante os dois dias de evento, participaram do Hospital Summit membros de diversas instituições, como o Hospital do Coração (HCor), Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital São Camilo, Hospital Metropolitano, Hospital Santa Catarina, Hospital das Clínicas, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Mater Dei, Hospital Anchieta, Hospital Santa Cruz (de Curitiba), a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), Hospital Mãe de Deus, Hospital Márcio Cunha, Hospital Moinhos de Vento, Rede D’Or e Hospital Samaritano.

Além disso, especialistas das instituições SOS Vida, Qualirede, Cisco, Fleury, Dr. Consulta, Korn Ferry, Banco Votorantim, Confederação Nacional da Indústria (CNI), Arquitetos da Saúde, Amil, Fundação Zerrener, Instituto Brasileiro de Valor em Saúde, United Health Group, Medtronic, The World Bank e da Universidade da Califórnia em São Francisco, também contribuíram com as discussões e compartilhamento de melhores práticas durante o evento.

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