Por que ele faz tudo isso?

No final do ano, estive com minha família em um hotel próximo a Bariloche, na Patagônia Argentina. Lá conheci a pequena e distinta Capilla de San Eduardo, que se encontra dentro do parque Nahuel Huapi. Construída em 1938, a capela é uma das construções mais vistosas da região, mas não foi apenas a sua charmosa e simples arquitetura que me comoveu. O que mais me sensibilizou foi a atitude de um homem – o padre da paróquia, que, sozinho, coordenava todas as atividades da cerimônia: o cuidado com os detalhes da eucaristia, a atenção às crianças que coloriam o desenho de Nossa Senhora, a tocar o sino para chamar os fiéis, até a execução de cantos e músicas em seu violão. Em todas as suas ações, havia prazer, quietude e dedicação.

Em uma era de acúmulo de responsabilidades, agendas saturadas e lamentações pelo tempo em extinção, o jovem sacerdote mostrou um exemplo de liderança, de ato de fé.

Como uma chama que reside em nós e, enquanto acesa, nos faz criar o tempo necessário para produzir, realizar, evoluir. E é essa motivação latente que firma a multiplicidade de papéis e capacidades. Os outros chegam a se impressionar com um sujeito de tanta disposição: “Como é que ele consegue fazer tudo isso?”

 Quando um líder se fecha e deixa de distribuir inspiração e incentivo às pessoas ao seu redor, ele instala um deserto de improdutividade, insatisfação e descaso. O setor de Saúde se transformou em um terreno árido e selvagem, maltratado pela ausência de lideranças, causas, discussões relevantes, propostas e definições. Estamos imersos em um caldeirão de ideologias em ebulição. No final das contas, parece que o melhor a fazer é não fazer nada, seja por conforto, conveniência ou medo.

Assim como tudo na vida, a desistência de um propósito é multicausal. O que causam as doenças? Podemos elencar uma série de fatores: herança genética, (maus) hábitos, negligência, exposição a riscos, entre outros. E o que provoca, então, a decadência de nossas mais nobres convicções? Ambiente infértil, falta de estímulo, experiências de vida e natureza dos relacionamentos sociais ajudam a explicar esse fenômeno contemporâneo.

Em abril de 2015, a Harvard Business Review publicou um artigo inspirado por uma mensagem do Papa Francisco sobre a necessidade de reforma das estruturas e dos comandos da igreja. O texto, intitulado “As 15 doenças da liderança”, descreve, entre outras mazelas, o mal da “petrificação” mental e emocional: “Encontrada em líderes que possuem um coração de pedra, nos arrogantes, naqueles que no curso do tempo perdem sua serenidade interior, presença de espírito e ousadia, e se escondem atrás de uma pilha de papéis”.

O padre da capela San Eduardo estava visivelmente feliz. Não parecia aborrecido, impaciente, sobrecarregado ou desnorteado. Talvez seja esse o sinal mais evidente de que a chama permanece acesa.

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