O preço da omissão

Eu gosto de pensar em como os japoneses lidam com as falhas humanas. Ao invés de negligenciar ou acobertar uma atitude inaceitável, eles consideram o erro um tesouro, por nos darem a chance de entender o porquê de as coisas serem assim, de buscar uma solução e, por fim, de nos agarrarmos à possibilidade de aprimorar nossa existência.

Quando lembramos que saúde representa 9,5% do PIB brasileiro, o que significa aproximadamente R$ 500 bilhões, é possível enxergar a irresponsabilidade de se manter condutas que prejudicam todo o sistema. E pagamos um preço muito alto para um conjunto enorme de omissões políticas, estruturais e organizacionais.

Veja o caso dos medicamentos. Não é raro haver a subutilização de genéricos, a recomendação de produtos com regulação inadequada e, por vezes, prescrições antiéticas, como no caso do médico que, propositalmente, diagnosticou e tratou casos falsos de câncer.

Em outras palavras, a necessidade de que o equipamento “se pague” chega a induzir o atendimento, quando a oferta deveria endereçar estritamente a real demanda do usuário. Quais são os sinais dessa distorção? A princípio, desperdício e falta de gestão de recursos, mas, em situações extremas, também se põe em risco a segurança do paciente.

Todo o mundo sabe que isso acontece e concorda que tais práticas são como jogar dinheiro fora. Todo o mundo sabe que o sistema atual de pagamento, o fee for service, ainda coroa esse absurdo, porque premia o desperdício. Mesmo assim, finge-se um “não ver” e varre-se a sujeira para debaixo do tapete, seja por conivência – uma postura corporativista de acobertar erros de um colega com cargo equivalente, por exemplo – seja por falta de coragem.

As omissões vão persistir enquanto não se definirem políticas estruturantes e específicas para o setor de saúde. Enquanto tivermos profissionais mal formados e um processo de recrutamento de recursos humanos baseado em favoritismo, não em competência. Não adianta apontar o dedo para apenas um elo; toda a cadeia deve estar organizada e cada um precisa assumir sua parcela de responsabilidade.

Tem mais. Apenas escrever políticas, elaborar um plano e definir indicadores não basta. Sem o compromisso dos líderes em guiar as mudanças, esses documentos serão apenas o registro de intenções que não ocorrem na prática. E o pior chefe é o permissivo, que não cobra e deixa todo o mundo fazer o que quer.

É dever do gestor criar um ambiente favorável ao entendimento e à correção do erro, para que cada um possa e queira assumir a sua responsabilidade. Porque, se não pararmos de nos omitir, não haverá situação que se resolva: nem a do Brasil, nem a da Saúde e nem a da nossa própria casa.

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